ARTIGO

Gibis ou revistas em quadrinhos

Perseu Gentil Negrão

Esta semana li que em São Paulo haverá exposição comemorativa dos 80 anos do “Batman”. Depois, os jornais foram “invadidos” pela polêmica causada pelo prefeito do Rio de Janeiro.

As notícias trouxeram-me boas recordações da infância e, paradoxalmente, tristes, em razão do momento atual do Brasil.

Nasci e fui criado em uma família de classe média (papai era advogado e mamãe professora, mas não exercia). A maior preocupação de meus Pais era a educação dos filhos. Papai dizia que nós podíamos pedir para comprar qualquer livro. Assim, na minha casa havia várias enciclopédias (“Tesouro da Juventude”, “Barsa” e “Delta Larousse”). Papai assinava o “Jornal Diário de São Paulo” e as revistas “Cruzeiro” e “Manchete”. Mensalmente comprava a “Seleções Reader’s Digest”.

Para incentivar a leitura, semanalmente, p me levava à banca de revistas, para eu escolher algumas revistas em quadrinhos (chamávamos de gibis). Destaco os gibis que eu mais gostava. “Almanaque do Tio Patinhas” (o velho muquirana que só pensava em guardar dinheiro e sempre ameaçado pelos terríveis irmãos Metralha). “Mickey” (nunca gostei muito do ratinho metido, mas adorava seu parceiro “Pateta” e o temível João Bafo de Onça). “Mandrake, o Mágico” (sempre acompanhado do seu fiel escudeiro Lothar). “Batman” (nunca gostei muito e achava “meio suspeita” sua relação com o “Menino Prodígio”). “Fantasma” (com seu cachorro “Capeto” e o amigo Guran, o pigmeu Bandar). Mas o melhor de todos era o “Recruta Zero” (o soldado vagabundo e trapalhão, sempre perseguido pelo implacável Sargento Tainha). Até hoje leio, diariamente, a tirinha do “Zero” no “Estadão”.

Aos domingos, após a sessão da matinê, no velho Cine Lyan de Itápolis, havia troca de gibis e disputas de “bafo” (espécie de jogo disputado com figurinhas repetidas).

Estas recordações levaram-me a uma reflexão a respeito do momento atual. No ano passado, o povo brasileiro, para combater um câncer, optou por um doloroso tratamento de quimioterapia. Você sabe que vai fazer mal, mas não tem outra opção. Assim, escolheu para presidente um verdadeiro Sargento Tainha, abrutalhado, mal humorado e sempre descarregando sua fúria nos seus subordinados. Quem seria o Recruta Zero?

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo

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