MOGI DE A A Z

Gincana para a Cidade

O Ford 1929, adquirido pelos estudantes de Direito da Braz Cubas, serviu por algumas semanas para propagandear a Mogincana, como ficou conhecida a “caça ao tesouro” organizada em 1968
O Ford 1929, adquirido pelos estudantes de Direito da Braz Cubas, serviu por algumas semanas para propagandear a Mogincana, como ficou conhecida a “caça ao tesouro” organizada em 1968

Tem se relatado aqui, por  mais de uma vez, os períodos críticos que marcaram a política nacional durante todo o ano de 1968 e provocaram, naturalmente, ebulição em Mogi das Cruzes. Na Cidade, além de algumas ações sindicais, a movimentação maior era no meio estudantil, liderada pelos universitários de Direito da Braz Cubas. Foram eles que, em março, promoveram uma grande passeata de protesto contra a morte, no Rio de Janeiro, do secundarista Edson Luís de Lima Souto.

Pressionados pela política e sob a vigilância rígida do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), os estudantes de Direito resolveram promover, em junho, uma gincana na Cidade. Achavam que a gincana poderia alterar o foco da vigilância policial, além de promover maior integração na comunidade universitária e na própria Cidade. Deu certo.

O que era para ser uma ação estudantil, acabou movimentando toda a Cidade naquela verdadeira “caça ao tesouro”. Equipes foram criadas em vários bairros e escolas de Mogi; a antiga Rádio Marabá transformou-se na emissora oficial da gincana e os estudantes conseguiram adquirir, para entregar como prêmio principal, um Ford Bigode. Era um conversível Ford, modelo 1929, pintado em verde e capota escamoteável preta. O estofamento em couro preto.

A gincana foi marcada para um domingo, a partir das 9 horas. O campus da Universidade Braz Cubas, na Rua Francisco Franco, transformou-se em quartel da organização e, dali, a Rádio Marabá transmitia as missões a serem cumpridas pelas equipes inscritas.

Foi um grande domingo: entre as missões, seus concorrentes deveriam, por exemplo, apresentar um gravador de fio (sim, um gravador, dos primeiros produzidos, que gravavam voz em fio de cobre). Apareceram vários deles. Também deveriam levar uma foto de uma moça de biquíni, segurando uma bandeira do Corinthians, tirada no terraço do edifício mais alto de Mogi (então, o Drogasil). Havia ainda pedidos para a coleção completa da revista Cartouche, que fora publicada anos antes pelo Clube de História Professor Jair Rocha Batalha e a presença do “Paulista”, um conhecido boêmio da Cidade. Ainda uma bandeira do Espírito Santo (alguns levaram da Festa do Divino, outros do Estado capixaba); o decreto, no original, que autorizou o funcionamento da Faculdade de Direito Braz Cubas (o próprio diretor Jacks Grinberg compareceu, portando o pedido) e um autógrafo de Pelé.

Às 17 horas, prazo final para a apresentação das missões, que foram entregues às 9 da manhã, a Rua Francisco Franco era uma confusão só. Tinha, além dos produtos já mencionados, a Banda Santa Cecília perfilada e um carreteiro com sua carroça emparelhada por dois cavalos brancos. Dentre os que integravam a comissão julgadora, havia juízes e promotores, então professores da faculdade. No final de tudo a equipe ganhadora só teve um problema: o que fazer com o Ford Bigode? Entre desmontá-lo e dar uma peça para cada integrante ou sorteá-lo entre os membros da equipe, optaram por fazer uma rifa do Fordeco, revertendo o resultado para uma instituição de caridade. Grande domingo aquele!

Enfim sós. Sós?

Meu caro leitor Não sei se, em outras áreas, ocorre o mesmo. Mas, em redação de jornal, casamento de amigo é sempre tempo de abrir o baú e soltar a bruxa. Azar de quem casa. Normalmente, paga o que fez antes. Como Sanvito. Sanvito durante muito tempo coordenou a produção da reportagem local do Estadão. Começou no velho Correio da Manhã, quando Paulo Ferraz dirigia a sucursal paulista. Foi Paulo quem levou Sanvito para o Estadão. Ao tempo em que também levou o próprio genro, Clóvis Rossi. Paulo deixou os dois lá quando aceitou orientar a estratégica de comunicação de um jovem professor da USP que assumira a Secretaria da Fazenda do Estado. O professor chama-se Antônio Delfim Netto.

Sanvito estava no Estado quando se casou. Cismou de passar a noite de núpcias no Hotel Jaraguá, o antigo, então – final dos anos 60 – um dos melhores de São Paulo. O Jaraguá ocupava os andares superiores do mesmo edifício em que funcionava o jornal, na Rua Major Quedinho. O bar do hotel era o refúgio de fim de noite da redação. Os planos nupciais de Sanvito goraram: antes dele chegar, à portaria apresentou-se um outro ‘Sanvito’. Precocemente calvo, como o original, o falso – na realidade, um colega de trabalho depois desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo – orientou a recepção do hotel para que ninguém o incomodasse. Como prova, apresentou a carteira de identidade do original, que havia surrupiado na véspera. Bem que Sanvito tentou. Não houve meios de convencer ninguém. Passou a noite de núpcias, com Norma, em casa mesmo. Pior ainda foi Percival de Souza. Poucos meses antes de se casar, Percival fora convidado para as núpcias de um colega do Jornal da Tarde. Era Carlinhos Brickmann. A quem preparou uma surpresa: por uns trocados, dois meninos de rua, sujos e maltrapilhos, colocaram-se à porta da sinagoga onde Carlinhos se casaria. Os noivos estavam saindo, e os meninos gritando: ‘Papai, papai, – não nos abandone’.

Carlinhos nunca perdoou Percival. Nem mesmo depois de lhe haver dado o troco. Repórter policial, Percival quase não se casa no dia marcado: chegou à igreja na hora. Antes, porém, haviam chegado duas ou três viaturas policiais que o ‘sequestraram’ por mais de uma hora. Tempo bastante para a noiva desesperar-se à beira do altar.

Por aqui também houve algumas poucas e boas. Por exemplo, no casamento do ex-vereador Ramon Ruiz, de Poá. Tempos difíceis, Ramon – colega do Diário – pediu-me que o levasse até a Praia Grande, onde passaria a folga matrimonial. Fomos, numa Rural Willys do jornal. Quase não chegamos. A noite de núpcias de Ramon e Suzi foi mesmo no banco traseiro da camioneta. Não houve como encontrar o endereço acertado antes do dia clarear. Anos depois casou-se Boy Costa. Amarrar latas ou pintar o carro não seriam ações de bom tom. Menos ainda originais. Alguns amigos então convenceram a fiel empregada que servia a família a colocar um envelope na mala de viagem. Envelope pequeno, inofensivo. Mas de forma a que o dono da bagagem o encontrasse tão logo a abrisse. E incumbiramme de escrever uma carta.

As primeiras palavras eram: ‘Meu filho’. E seguia-se um longo texto de reminiscências, que voltava à infância do menino pelas casas onde morou em Mogi. Na Coronel Souza Franco, Vila Hélio, Pinheiro Franco e Coronel Souza Franco. Havia passagens muito próximas de pai e filho. Anos depois, Boy contou-me que quase chegou às lágrimas ao ler aquela carta. ‘Sentado na beira de uma poltrona no apartamento do hotel em São Paulo, as duas mãos segurando o papel, eu tinha, pelas primeiras páginas, a certeza absoluta de que meu pai me mandara aquilo. Só no fim, por detalhes que você bem sabe, descobri que era coisa de amigos’.

De qualquer forma, nenhum de nós conseguiu, até agora, reviver o feito de Josefina de Beauharnais, a esposa de Napoleão Bonaparte: em sua noite de núpcias, Napoleão foi mordido por Fortuné, o cachorro de Josefina, que avançou na perna esquerda do general, certo de que sua dona estava sendo atacada. Abraços do

Chico

WALTELY – Garimpando até que acha, mas não é fácil encontrar, hoje, pessoas como Waltely Aquino de Oliveira. Professor e advogado por profissão, cidadão prestante por vocação, Waltely nunca se imaginou político antes de 1982, quando foi convencido, pelo PMDB, a se candidatar a prefeito. Aceitou de princípio, refugou em seguida. Trocou de posição com o vice, Antônio Carlos Machado Teixeira. Elegeram-se. Durante a tumultuada gestão (1983-1988), assumiu a Prefeitura por várias vezes, sem que uma única gota do vendaval o atingisse. Morreu em agosto de 2008.

 

Flagrante do Século XX

Há exatos 96 anos, durante as comemorações pelo Centenário da Independência, uma missa campal, no Largo da Matriz, celebrou o 7 de setembro, em 1922.