CHICO ORNELLAS

Grilaram o velho sobrado

VISITA – Até onde se sabe, o amazonense padre Baleeiro veio apenas uma vez a Mogi. Bastou-lhe.
BARÃO DE JACEGUAI – O velho sobrado dos Navajas, onde por 40 anos moraram Ciro e Berta Franco, era vizinho da Agência Ford, a primeira revendedora de carros de Mogi (foto de 1930).

A história teria tudo para ser um conto da carochinha, não fossem as provas disponíveis, incluídas as judiciais e os testemunhos irrefutáveis. Sim, um sobrado construído nas primeiras décadas do século passado, com impostos em dia e proprietários conhecidos, foi surrupiado por escritura fraudulenta passada em 14 de abril de 1967 em um cartório de Caraguatatuba.

Pela escritura, a firma J. M. Ribeiro e Cia., de São Paulo, intitulando-se proprietária do imóvel, promoveu a venda para Virgílio Aleixo. Detalhe: em 1982, quando a manobra foi descoberta, o proprietário disse que adquiriu o imóvel em 1924; mas o sobrado só foi construído em 1928.

Quem o construiu foi a família Navajas e nele nasceu a concertista Soria Navajas, herdeira que preservava o bem na época dos fatos. No sobrado, quase esquina com a Rua Isabel de Bragança, viveram, por 40 anos, o ex-prefeito Ciro Franco, sua esposa Berta e os filhos.

Nos últimos tempos, Nenê Navajas, figura muito conhecida em Mogi na segunda metade do século passado, cuidou do sobrado, mantendo-o fechado e com os impostos em dia.

Quando Nenê morreu, o advogado Élbio Pacheco, amigo da família, passou a cuidar do casarão, colocando cadeado nos acessos e vez por outra passando pela propriedade, para checar seu estado.

Foi numa dessas passagens que se surpreendeu com a demolição. Correu contatar a família. E o imbróglio começou a ser desvendado. Pelos advogados Donato Griecco e William Tomé, a serviço dos Navajas. Donato disse, na época, que o caso “configura um absurdo caso de grilagem em pleno centro da Cidade”. Ele e William, de posse de documentos comprovando a titutalidade do sobrado por Soria Navajas, que desde 1941 vivia em São Paulo, solicitaram na Justiça a suspensão da demolição.

O juiz Walter Cruz Swensson, da Comarca local, acatou as alegaçãaos e determinou a suspensão da obra. Apurou-se que a escritura havia sido lavrada em um livro fantasma. Mas já era tarde: além de algumas paredes externas, pouco sobrava do velho sobrado. Em seguida, os registros fraudulentos foram cancelados pela Justiça.

(box) SORIA – Soria Navajas Paolucci, sobrenome que adotou após o casamento, deixou Mogi ainda jovem, para buscar o sonho de se tornar concertista. Já em 1936 obtinha grau 90 na cadeira de harmonia do Instituto Musical de São Paulo. Suas apresentações, a maioria das quais como solista, eram muito disputadas na Capital. Em setembro de 1991, por exemplo, ela apresentou-se no Club Athletico Paulistano. Soria morreu em junho de 2006.

CARTA A UM AMIGO
Vaias para o padre

Meu caro Paulo

Não sei se você se lembra, mas o governador. naqueles meados dos anos 60 era Adhemar de Barros. E secretário da Educação, o padre Baleeiro. Envolvido numa série de denúncias de irregularidades, o padre tinha assumido o compromisso de vir a Mogi das Cruzes para a aula inaugural da Faculdade de Direito Braz Cubas. Ele tinha ligações com a Cidade, que conhecia desde a infância, passada em Taubaté – era diretor do Departamento de Relações Públicas da Secretaria, um outro sacerdote: Manoel Bezerra de Melo.

Até onde se sabe, o amazonense padre Baleeiro veio apenas uma vez a Mogi. Bastou-lhe.

Os estudantes mogianos não aceitavam, de forma alguma, aquilo que, à sua vista, era uma homenagem indevida. Na ótica do movimento estudantil, Januário Baleeiro de Jesus e Silva, assim como Adhemar e todos que os cercavam, representavam o regime surgido a partir de 31 de março de 1964. E ainda não endurecido por completo com o AI-5 de 13 de dezembro de 1968. Por tudo, universitários mogianos que estudavam em São Paulo prepararam, com apoio de colegas mogianos, um protesto.

Informados da reação, os educadores que convidaram Baleeiro a Mogi cuidaram de se precaver. Eles podiam até concordar com a reação dos estudantes e admitir a existência das muitas denúncias; com o que eles não concordavam era a forma que se pretendia dar ao protesto frente a uma autoridade. Pelo sim e pelo não, pelo bem ou pelo mal, era uma autoridade do setor de Educação que viria a Mogi.

Os cuidados adicionais foram tomados; a fiscalização no acesso ao auditório da Rua Francisco Franco ampliada e o policiamento reforçado.

Nada disso adiantou: quando o padre Baleeiro foi anunciado, os estudantes levantaram-se, abriram suas faixas de protesto e o circo pegou fogo. Alguns foram detidos, outros levaram cacetadas. Mas o padre Baleeiro não falou. A aula foi substituída por uma estrondosa vaia.

Nunca mais ele voltou a Mogi. Em meados de novembro de 1990, quando vinha de Brasília para São Paulo, morreu em um acidente perto de Orlândia.

Grande abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX

VISITA – Até onde se sabe, o amazonense padre Baleeiro veio apenas uma vez a Mogi. Bastou-lhe.

RICARDO VILELA – Ainda havia muitas residências na Rua Ricardo Vilela, em 1965, assim como na Barão de Jaceguai. O comércio da região central limitava-se ao entorno do antigo Mercado Municipal. E o paralelepípedo era o material que pavimentava as ruas. A foto foi tirada da confluência com a Rua Dr. Deodato Wertheimer, mirando o Leste; a primeira esquina é da Rua Moreira da Glória.

GENTE DE MOGI
MÉDICO – Ele chegou a Mogi em 1954, havia 5 anos tinha se formado pela Faculdade Paulista de Medicina, tinha 34 anos de idade e já estava casado com Glorinha. Duílio Rossi fez história na Medicina em Mogi. Desde os tempos pioneiros na Santa Casa até a fundação do Hospital Ipiranga. Sua rotina, já entrado nos anos, incluía expediente diário no hospital e atendimento permanente no consultório que manteve por 50 anos na Rua Barão de Jaceguai, 36. Uma única vez incursionou pela política: suplente, assumiu por 4 meses uma cadeira no legislativo local. Duílio foi-se em 1912, o Conselho Regional de Medicina registra o CRM 6.614 inativo desde 30/08/2012.

O melhor de Mogi

O bailarino mogiano Gabriel Santos, admitido como solista profissional do Teatro de Ópera e Ballet de Perm, na Rússia. Isso depois de 4 anos na Escola do Teatro Bolshoi.

O pior de Mogi

Alguém sabe para que servem – e quanto custaram – as catracas instaladas na passagem da linha férrea na Praça Sacadura Cabral? Mais uma daquelas inutilidades a que se presta o dinheiro público.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter aulas com o professor Tsuneo Ikeda, que há 39 anos acompanha centenas de mogianos nas práticas esportivas.