INOVAÇÃO

Grupo propõe novos arranjos para a música caipira

Com um violeiro mogiano, o Conversa Ribeira experimenta interpretações diferentes em canções clássicas. (Foto: Divulgação)
Com um violeiro mogiano, o Conversa Ribeira experimenta interpretações diferentes em canções clássicas. (Foto: Divulgação)

A música caipira faz parte da vida brasileira há muito tempo. Várias das canções deste gênero se tornaram clássicas e marcaram diferentes gerações. Seria então arriscado demais fazer qualquer tipo de alteração em letras como ‘Moda da Onça’, famosa na voz de Inezita Barroso? Não para o trio Conversa Ribeira, cuja viola é a de um mogiano. A proposta do grupo, que deve se apresentar na cidade no segundo semestre, é exatamente propôr novas roupagens para o som sertanejo tradicional, assim como também apresentar composições originais neste estilo.

Antes de mais nada, é preciso apresentar o trio. João Paulo Amaral (voz e viola caipira) é de Mogi; Andrea dos Guimarães (voz) é natural de Tupaciguara, pequena cidade do Triângulo Mineiro; e Daniel Muller (piano e acordeão) nasceu em Jundiaí. Eles se conheceram durante a graduação em Música Popular na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde descobriram um grande interesse em comum: a música caipira, de raiz, que remete a origem “familiar interiorana” de cada um.

No material de divulgação oficial do grupo, consta que os integrantes “tecem um desdobramento singular” sobre este gênero musical. Pode parecer difícil de entender, mas a tal singularidade fica clara ao ouvir qualquer uma das canções deles, sobretudo as 11 faixas do terceiro e mais recente disco, ‘Do Verbo Chão’, lançado em novembro de 2019, a partir de uma campanha de financiamento coletivo na internet. 

Segundo João Paulo, a ideia do grupo é “elaborar algo diferente a partir da música caipira, seja em relação ao repertório, ritmo, linguagem, poética ou dueto das vozes”, principalmente a partir do que os músicos chamam de “arranjo”, conceito que ele explica, de maneira resumida, como sendo o ato de “pegar uma música e mesmo mantendo a melodia e a letra originais, ampliar essa música original, dando uma nova cara pra ela”.

É isso o que o Conversa Ribeira faz. Dá uma “nova cara” para as melodias e composições, com “um tratamento rítmico diferente, uma interpretação vocal diferente, novas harmonias” e ainda “outros elementos e influências musicais”. Sem outra maneira de definir o estilo único, calmo e relaxante empregado pelo trio, fica mais fácil assumir a descrição do próprio violeiro: “é a nossa forma de tocar a música caipira, unindo ela a outras influências musicais”.

Sobre o repertório, uma das premissas do projeto é “preservar a tradição sem tratá-la como peça de museu”, mas sim “num processo cultural dinâmico”. É aí que antigas modas de viola ganham novas interpretações, novos tons. 

Em respeito a todas as letras escolhidas, os integrantes promovem uma extensa pesquisa, que acontece de forma constante. “É um verdadeiro garimpo, procurando as mais belas e interessantes canções que possam encaixar na proposta. E isso não passa só pela música caipira, mas também por outros compositores e artistas brasileiros que gostamos e que também bebem na fonte da música caipira ou regional”.

Para citar um exemplo, João Paulo explica, no caso da já citada ‘Moda da Onça’, “recolhida por Inezita Barroso em Itapecerica da Serra nos anos de 1940”, que a ideia não é tocá-la da forma original, ou da forma que a Inezita gravou, e sim de uma maneira própria. “Até porque a versão que garimpamos já tinha algo do jeito da Inezita tocar e cantar, ou seja, alguma transformação já havia, pois faz parte da dinâmica da tradição ir mudando pouco a pouco, com o passar dos anos”.

Produzindo novos clássicos

Além do resgate de grandes sucessos da música caipira, o trio Conversa Ribeira também se preocupa em apresentar composições originais, com ideias atuais, baseadas em pesquisa sobre a cultura brasileira.

Uma dessas faixas é ‘Cururu Mitológico’, presente no terceiro e mais recente disco do grupo, ‘Do Verbo Chão’. O compositor, pianista e acordeonista Daniel Muller explica a música como uma homenagem às mitologias indígenas. “Fiz pesquisas a partir da percepção de minha – e também nossa, em geral, enquanto brasileiros – ignorância com relação aos mitos das etnias indígenas que habitam ou habitaram essas terras”.

A letra apresenta, portanto, não só os mitos, mas “também as histórias, as sabedorias e a riqueza da experiência humana”. “O cururu, enquanto gênero que integra as manifestações caipiras, foi escolhido justamente por ter origem indígena. Não podemos esquecer nunca que a cultura caipira se compôs em uma medida muito importante da cultura dos índios que habitavam esse chão e foram e estão sendo tão maltratados”.

Aliás, a composição está em consonância com o nome do novo disco, ‘Do Verbo Chão’, uma “expressão poética que simboliza a raiz e força da música caipira”. A analogia é a seguinte: a palavra “chão” é representada como um sinônimo de terra, de tradição”. Já o “verbo” é o movimento de revirar a terra, ou seja, “a vontade de transformar esse elemento concreto em uma ação”.

Trio prepara show em Mogi

Formado em 2002, o Conversa Ribeira já representou o Brasil em festivais no México e em Portugal, ganhou vários prêmios, dividiu palco com diferentes orquestras e realizou apresentações ao lado de nomes como Guinga, Inezita Barroso, Mônica Salmaso e Paulo Freire. Ainda assim, o trio ainda não se apresentou em Mogi das Cruzes, cidade natal de um de seus integrantes. 

Na verdade, o violeiro mogiano João Paulo Amaral explica que uma vez o grupo gravou uma música por aqui. A faixa versava sobre a Festa do Divino e fez parte da trilha sonora do documentário ‘Divino Espírito Popular’, mas não rendeu uma apresentação ao vivo.

“Curiosamente ainda não nos apresentamos em Mogi”, comenta ele, que continua. “Nossa agenda está ‘em quarentena’ por enquanto, mas temos uma turnê de oito shows aprovados no edital Programa de Ação Cultural (ProAC), do governo do Estado, o que inclui um concerto em Mogi, em julho, durante o Festival de Inverno, além de eventos em outras cidades que por enquanto estamos aguardando para confirmar e reagendar as datas”.


Deixe seu comentário