ARTIGO

Grupos de WhatsApp

Perseu Gentil Negrão

Conta-se que havia um libanês chamado Salim que telefonou ao jornal pedindo para anunciar a morte da esposa. O dono do periódico disse-lhe para ditar o texto. Salim falou: “Morreu Munira. Corpo sendo velado no Velório Municipal. Enterro às 16 horas no Cemitério da Saudade”. O dono do jornal esclareceu: “Seu Salim. O Senhor terá que pagar pelo espaço e ainda é possível colocar mais duas linhas”. Salim respondeu: “Então bota: “Vendo Chevette 76, único dono, excelente estado. Um bechinca”.

Assim funcionam os malditos grupos de “WhatsApp”. Escreve-se de tudo, menos o assunto para o qual foram criados. Procuro fugir deste grupos, mas, alguns, são inevitáveis, para não parecer muito antipático. Só na semana passada perdi a paciência com dois.

Eu estava participando de um grupo de procuradores, supondo que seria interessante para o trabalho. Na segunda-feira, cerca de 6 horas da madrugada, um maldito enviou uma figurinha com flores, desejando bom dia a todos do grupo. Quem em sã consciência acorda neste horário, desejando bom dia. Para mim, acordar de madrugada, somente para pescar ou viajar… No correr do dia, um “desocupado” postou mensagem política (que está se tornando mais insuportável do que falar de futebol). Claro que houve discussão, com a minha consequente saída do grupo.

“Miséria pouca é bobagem”. Um amigo abnegado está tentando organizar uma pescaria em setembro e inseriu-me em um grupo de “WhatsApp”. Todos os participantes dão palpite e não resolvem nada. Até aqueles que não vão, dão pitacos. Enquanto escrevo estas bobagens, já recebi duas mensagens políticas no “maldito grupo”. Os dedos estão coçando para “clicar” em “sair do grupo” (minha paciência, que é pouca, já esgotou).

Vou propor a criação de um grupo de “WhatsBoteco”. Todos os intrépidos pescadores reunidos em uma mesa, molhando as goelas com cervejas e comendo alimentos saudáveis (pastéis, linguiças, bolinhos de bacalhau, torresminhos) e fugindo do assunto política. Tenho certeza que será bem mais produtivo.

“Ah, mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã”, política, futebol, “eu acho tudo isso um saco” (Raul Seixas).

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo


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