Guardados de João Colella

Você tem um amigo de muitos anos, querido e do qual nunca esteve próximo? Impossível isto? Nunca pensei a respeito mas, há algumas semanas, descobri que esse tipo de amizade existe. E vale muito. Ocorreu-me assim: contemporâneo, com o qual tenho contato em redes sociais, escreveu-me dizendo que gostaria de combinar um café. Não estranhei. Eu e João Francisco Colella temos muito em comum, além da idade.  Estivemos próximos em várias ocasiões. No Grupo Escoteiro Ubirajara, por exemplo; ele sênior, eu lobinho. No Instituto de Educação Dr. Washington Luís, em classes separadas.

Jamais fomos vizinhos. Nada disso impediu, ao longo dos últimos 50 anos, que soubéssemos de nossa existência. Pois foi ele quem me escreveu, desde a Florida, onde há mais de 10 anos vive com esposa, filhos e netos. Chegou sorridente, cumprimentamo-nos como se tivéssemos nos visto uma semana antes. Falamos por duas horas, relembramos passagens da cidade e contamos da vida. Há mais de 10 anos, para celebrar um aniversário de casamento, combinou viagem aos Estados Unidos com a esposa. Já estava aposentado das aulas de Inglês na rede estadual e os filhos insistiram para ir. Foram todos e ficaram 30 dias.

 

Ao final, começaram a pensar se não seria bom emigrarem para lá. Reuniram economias, venderam casa e foram todos. Na mala, João Colella levava um pequeno calhamaço. Guardava-o há cerca de 40 anos, conduzindo-o conforme mudavam de residência.

A mais recente foi há alguns meses, quando se mudou para um condomínio em Palm Beach e viu-se com a papelada. Foi daí que me escreveu. Trazia-a quando chegou ao jornal para o café.

Comecei a vê-la; é de arrepiar: são, em sua maioria, correspondência entre a vila de Mogi e a capital da província, a mais antiga data de 1803. Também relatório de despesas da Câmara Municipal em 1895. Tudo do século XIX. Manipulá-las, com máscara e luva cirúrgica, deve render boas horas de pesquisa. “O que faço com isso?”, perguntei a João. Ele respondeu: “Com certeza você saberá”. Afinal, como estes papéis chegaram às suas mãos? Foi assim: na segunda metade da década de 1960, ele era funcionário da Prefeitura, que então funcionava na Rua José Bonifácio, onde fora residência da família de Deodato Wertheimer.

Ao ir a um banheiro de uso comum, viu muitos deles amontoados a um canto e pegou um punhado. Os mesmos que, por meu intermédio, faz chegar às mãos da Prefeitura de Mogi

 

Carta a um a amigo

O dinheiro não acabou

Meu caro leitor Nas eleições de 1982 Jacob Lopes resolveu que era chegado o momento da desforra. Estava no PMDB, ele próprio candidato a deputado estadual e cuidando de organizar toda a chapa na Cidade, com candidatos a todos os cargos. Para o dia 15 de novembro tinha montado um esquema que considerava infalível.
Mas não é que, lá pelas 9 horas da manhã um olheiro vem-lhe dizer que, em Braz Cubas, o candidato a prefeito pelo PDS, Francisco Ribeiro Nogueira, tinha pelo menos quatro cabos eleitorais em boca de urna para cada um do PMDB? Jacob foi conferir. Chegou como quem não quer nada, passeou, olhou e confirmou: para cada cabo eleitoral em boca de urna do PMDB, só o Chico Nogueira, do PDS, tinha pelo menos quatro dos seus mais devotados partidários.

A velha raposa, o último Lopes com ar de político, Jacob não teve dúvidas: deu uma passada pela escola estadual onde era feita a eleição em Braz Cubas e convidou um grupo para uma pinga no bar da esquina. Pinga, dizem, é proibido em dia de eleição. Mas só continuam dizendo. Tanto que, em poucos minutos, alguns dos mais empenhados cabos do PDS estavam bebendo por conta do Jacob do PMDB. Quando o ambiente era bem animado, Jacob Lopes soltou: “Vocês já estão sabendo? Lá no comitê do Chico Nogueira tem uma fila enorme de cabos eleitorais esperando receber seu pagamento e todos estão dizendo que o dinheiro do Chico acaba antes de pagar todo mundo”. Não deu outra: em cinco minutos não tinha mais ninguém do PDS na boca da urna de Braz Cubas. Foram todos atrás do dinheiro. Que não tinha acabado.

Abraços do
Chico

Flagrante do Século XX


FANFARRA/1962 – Em 1962, a fanfarra do Liceu Braz cubas alojou-se no colégio Naval de Angra dos reis, em viagem para se apresentar na cidade litorânea do rio de Janeiro. Antes de retornar a Mogi, seus integrantes reuniramse para esta foto.

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