HISTÓRIA

Há 60 anos o Volkswagen Fusca começava a ser produzido no Brasil

Ein Volkswagen Beetle aufgenommen am 27.11.2018 im US-amerikanischen Los Angeles (USA). Die L.A. Autoshow zeigt der Öffentlichkeit die neuesten Modelle für den weltweit zweitgrößten Automarkt. Foto: Friso Gentsch/Volkswagen
O primeiro Fusca, ou Volkswagen Sedan, como era chamado, saiu das linhas de montagem da fábrica Anchieta no dia 3 de janeiro de 1959 (Foto Divulgação)

O dia era 3 de janeiro de 1959. O primeiro Volkswagen Sedan deixava a linha de produção da Anchieta para conquistar o Brasil. Naquele dia, o Fusca – nome que o modelo adotaria oficialmente anos depois – inaugurava uma nova era da produção em massa na indústria automotiva brasileira, e um legado de histórias incríveis no País.
Os primeiros Volkswagen Sedan, fabricados na Alemanha, chegaram ao Brasil em 1950 trazendo um detalhe muito peculiar: o vidro traseiro era dividido em duas partes, derivado dos modelos de teste do projeto original. Esse vidro ganhou o apelido no mundo de “split window”. Em 1953, a Volkswagen iniciou suas operações de montagem e junto vinha o novo vidro traseiro, agora em formato oval e inteiriço, não mais dividido.
Pequeno, com motor traseiro refrigerado a ar e um design totalmente diferente do tradicional à época, quando as ruas eram dominadas por grandes sedãs, o carro chamava a atenção por onde passava. Sua capacidade de transportar até cinco pessoas, baixo consumo de combustível e resistência mecânica logo começaram a conquistar consumidores.
O modelo da Volkswagen começou a ser montado no país, com componentes importados, já em 1953, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Mas somente após o início de produção na fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo, em 1959, o Fusca realmente ganharia escala para dominar o mercado nas décadas seguintes.
O primeiro comprador do Fusca produzido no Brasil foi o empresário paulistano Eduardo Andrea Matarazzo, filho do conde Francisco Matarazzo Júnior e um grande admirador de automóveis e aviões. Na época, o Fusca foi vendido por Cr$ 471.200 em uma concessionária na avenida Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. O modelo tinha motor traseiro boxer (cilindros contrapostos) de 1.192 cm3, potência de 36 cv, câmbio de quatro marchas e velocidade máxima de 110 km/h.
O aumento no volume de produção em 1959 manteve o preço do Fusca em Cr$ 496.000 durante quase todo aquele ano. Para a época, era um valor bastante competitivo, especialmente em relação aos grandes sedãs importados da concorrência.
O Fusca 1959 trouxe seis principais aperfeiçoamentos: barra estabilizadora no eixo dianteiro, para maior segurança e estabilidade; cubo do volante abaixado, para aumentar o conforto e a segurança; trincos nas portas acionados por botões de pressão; barra de torção traseira mais elástica e eficiente, para-sol estofado com espuma de borracha; e descanso inclinado para os pés do passageiro. Para um carro “popular” do fim dos anos 50, era um belo avanço.
O sucesso do Fusca foi tamanho que o modelo ganhou nomes diferentes em mais de 40 países, quase sempre relacionados ao formato de “besouro” ou “corcunda”, além do som característico do motor traseiro boxer. Entre eles, os mais conhecidos são Beetle (Inglaterra e Estados Unidos), Käfer (Alemanha), Maggiolino (Itália), Vocho (México), Coccinelle (França), Escarabajo (Espanha) e Bug (Estados Unidos).

O Fusca foi um sucesso não só no Brasil, mas em vários países do mundo (Foto Divulgação)

No Brasil, curiosamente, o modelo não foi comparado a um “besouro”. O Volkswagen Sedan ganhou oficialmente o nome “Fusca” em 1983. E não escapou de apelidos como Fuca, Fuqui ou Fusquinha, em diferentes partes do Brasil. As mudanças visuais e mecânicas também renderam apelidos, como Fafá (em referência à cantora Fafá de Belém, pelas lanternas traseiras maiores) e Fuscão (para designar o Fusca 1.500, de 1970). Teve até Super Fuscão, com motor de 1.600 cilindradas.
Até 1983, o nome comercial do modelo era Volkswagen Sedan. E era muito comum os clientes dizerem: vou comprar “o Volkswagen”. Todos sabiam que se tratava do Sedan. O motivo é simples: por 24 anos, o Fusca foi o modelo mais vendido do Brasil e o mais conhecido na linha Volkswagen. Por muitos anos, ele teve a companhia da Kombi, do Karmann-Guia, do SP2, do “Zé do Caixão”, da Brasilia, do Passat… Mas nenhum fazia tanto sucesso com os clientes quanto o Fusca.

O modelo da Volkswagen revolucionou o mercado à época, devido a sua robustez e facil manutenção (Foto Divulgação)

De janeiro a dezembro de 1959 foram emplacadas 8.406 unidades do Fusca produzidas na fábrica Anchieta, um número muito superior aos 2.268 carros vendidos de 1953 a 1957, quando o Fusca vinha da Alemanha para ser montado no bairro do Ipiranga, em São Paulo.
E não demorou para o carro conquistar o Brasil. A partir de 1962, o Fusca já era líder de vendas do mercado brasileiro. Em julho de 1967, a empresa já comemorava 500 mil unidades produzidas no País.
Em julho de 1970, chegava ao seu “primeiro milhão”, naquela época então sob o comando de Rudolf Leiding. Três anos depois, Wolfgang Sauer assumiu a presidência da Volkswagen do Brasil, consolidando a liderança do Fusca no mercado interno e expandindo as exportações para mais de 60 países, incluindo o Iraque.
O auge do Fusca no Brasil foi entre 1972 e 1974. Em 1972, foram comercializadas 223.453 unidades no mercado interno, mais 6.142 exportadas. Em 1974, o recorde: 237.323 unidades produzidas, incluindo exportações. Até hoje, só o Gol conseguiu superar o Fusca em histórico de vendas totais, em 2011.
Em 1986, quando o Fusca parou de ser fabricado pela primeira vez, apenas 33.568 unidades chegaram às ruas. Ao longo de toda a sua história, o Fusca teve mais de 3,1 milhões de unidades vendidas no Brasil. Era hora de pendurar as chuteiras e abrir caminho para o Gol e sua “família BX”! E o Gol quebraria então outro recorde: foi líder de vendas por 27 anos consecutivos. Somados aos 24 anos de liderança do Fusca, a Volkswagen teve o carro mais vendido do mercado brasileiro por mais de 50 anos seguidos.

Após ter sido descontinuado no Brasil, em 1986, o Fisca retornou ao mercado em 1993, a pedido do então presidente Itamar Franco (Foto Divulgação)

Quando começou a produção na fábrica Anchieta, em 1959, um dos destaques era exatamente o vidro traseiro, que passava a ter o formato retangular, ampliando a visibilidade e a segurança. Mas você acha que, de 1950 a 1960, o Fusca só teve alteração no vidro traseiro? As aparências enganam. Saiba que, nesta década, o Fusca ganhou nada menos que 1.027 aperfeiçoamentos, especialmente na parte mecânica. Motor e embreagem, por exemplo, receberam 59 alterações nessa época.
“Pé-de-boi”, segundo o dicionário, quer dizer “pessoa que trabalha muito, e que cumpre cegamente as suas obrigações”. Pois bem, esse era o Fusca “Pé-de-boi”, que ganhara uma versão simplificada nos anos 60 para incentivar o trabalhador rural, em especial. Sem adornos, as peças cromadas foram substituídas por peças pintadas. O revestimento dos bancos e teto era de plástico, mais simples para manter e lavar. Externamente, foram abolidos os frisos, emblemas, pisca-pisca e garras do para-choque.
Por dentro, painel de instrumentos ostentava apenas o velocímetro. Ou seja, o que importava para o trabalho estava lá: o motor confiável, alta capacidade de vencer obstáculos e baixo custo de manutenção. Daí o slogan em 1965: “Volkswagen Pé-de-boi: é para o campo e custa menos!”
Muitas pessoas (muitas mesmo!) aprenderam a dirigir em um Fusca, especialmente entre os anos de 1950 e 1980. E não podia ser diferente. O Fusca era muito mais fácil e prático de dirigir, em especial para quem estava aprendendo a lidar com volante, pedais e trocas de marcha. Nos anos 50, enquanto o mercado era abastecido basicamente com veículos maiores, o Fusca se mostrou rapidamente uma ótima opção para as auto-escolas.
O Fusca foi largamente utilizado pelas polícias Civil e Militar, desde os anos 60. Em muitos casos, o carro era preto, com teto pintado de branco ou laranja (às vezes, pintava-se o capô também). A sirene e a luz no teto dependiam de cada corporação. E não tardou para o modelo ganhar mais um apelido: “baratinha”. As últimas “baratinhas” do Estado de São Paulo penduraram as chuteiras há pouco tempo. Algumas unidades do Fusca dos anos 70 foram utilizadas no interior de São Paulo até 2012. O Fusca inclusive já ganhou várias homenagens nos batalhões, tamanha a importância para o serviço policial.
Jogadores de futebol, pilotos de F-1 e artistas já anunciaram aposentadoria e voltaram a trabalhar pouco tempo depois. Com o Fusca foi igual. O modelo parou de ser produzido em 1986, especialmente pelo fato de ser um projeto de chassi e carroceria, que dificultava o desenvolvimento de veículos em “família”. Nessa época, a “família BX” (que utilizava monobloco) já estava fazendo enorme sucesso com Gol, Voyage, Parati e Saveiro.
O retorno da fabricação foi em 1993, sete anos após sua paralisação. A pedido do então presidente da República, Itamar Franco, o carro voltou a ser produzido, em uma versão movida exclusivamente a etanol, e parou de ser fabricado em 1996. Daí surgiu outro apelido: “Fusca Itamar”.
Internacionalmente, o Fusca continuou a ser fabricado no México, onde é conhecido como “Vocho”, até julho de 2003.
A importância do Fusca para o Brasil é tão grande que o modelo foi homenageado, em janeiro de 1989, com o “Dia Nacional do Fusca”, comemorado em 20 de janeiro. Neste mês, o “Dia Nacional do Fusca” completa 30 anos, prova incontestável do modelo ao longo de décadas de comercialização no mercado brasileiro.
Mundialmente, o Dia do Fusca é comemorado em 22 de junho, data em que o engenheiro austríaco Ferdinand Porsche assinou o contrato que deu início ao desenvolvimento e fabricação do Sedan, em 1934.

A VW prepara a “Final Edition” do Beetle para o mercado americano, sem previsão do modelo ser vendido no Brasil (Foto Divulgação)

Com mais de 21 milhões de unidades produzidas em todo mundo, o Fusca tornou-se um ícone, amado por milhões de pessoas e com formas reconhecidas em todos os lugares.
Para homenagear os fãs do modelo nos Estados Unidos, a Volkswagen prepara uma despedida à altura. O modelo vai ganhar a versão “Final Edition”, com carroceria cupê e Cabriolet (conversível), apresentada no Salão de Los Angeles, no fim de 2018.
Essa série “Final Edition” será inspirada na “Última Edición” do Fusca, de 2003, quando a primeira geração do lendário Volkswagen foi de fato descontinuada. Assim como a “Última Edición”, a “Final Edition” estará disponível com as cores exclusivas bege (Safari Uni) e azul claro (Stonewashed Blue). O modelo “Final Edition” também estará disponível nas cores branca (Pure White), preta (Deep Black Pearl Effect) e cinza (Platinum Grey). Não há previsão de comercialização do Beetle “Final Edition” no mercado brasileiro.

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