ARTIGO

Habitat ideológico

Gaudêncio Torquato

A ascensão de um grupo de direita ao centro do poder no Brasil, depois de longo ciclo comandado por quadros com habitat nos espaços do centro e da esquerda do arco ideológico, abre um campo de dúvidas: esse novo grupamento terá vida longa? A tendência de fazer o país rumar à direita conta com base sólida no seio social ou é fruto de circunstâncias, na esteira de uma polarização que envolve partidos, líderes, setores, e que, por anos a fio, procurou estabelecer uma muralha entre ricos e pobres, “nós e eles”?

A resposta implica juntar um conjunto de variáveis, a partir da análise de traços do ethos nacional. Somos uma gente de índole pacífica, cordata, acolhedora, criativa.

Concorde-se, então, com a ideia de que o brasileiro, ante a dualidade “sim” e “não”, característica do anglo-saxão, prefere “talvez”, “depende”, “vamos ver”. No arco ideológico, essa posição estaria mais próxima ao centro do que às margens direita e esquerda. Esses traços superficiais, claro, não respondem às grandes questões que se fazem sobre o posicionamento político-ideológico do brasileiro. Mas ajudam a compreender o “modus brasiliensis” de ser.

O aspecto educacional surge como outro fator para análise dos nossos costumes. O alto índice de incultura, o subdesenvolvimento econômico, social, cultural e político marcam fortemente a frágil cidadania.

O fator econômico é outra bússola para verificação dos rumos da ventania ideológica. Dinheiro no bolso, capaz de suprir as carências familiares, alimento, segurança, enfim, o conforto oferecido pelo Produto Nacional Bruto da Felicidade (PNBF) agem como motores da política. Se o sistema político proporcionar aumento da felicidade coletiva, ganhará o apoio e os votos de eleitores, a partir das margens carentes. É quando a opção política se dá pela via do pragmatismo.

Por último, lembre-se que o PT construiu a muralha da divisão de classes, o “nós e eles”. Por mais de três décadas, a cantilena bateu na mente nacional. Até que se deu o estouro da boiada, os escândalos em série que vieram à tona com o mensalão. A máscara do PT caiu.

Voltemos às perguntas iniciais. A resposta abriga o conjunto de fatores acima descritos. Mas o pragmatismo deverá orientar as vontades. Se a direita de Bolsonaro acertar e garantir o PNBF, ganhará força para continuar como habitat da maioria. A recíproca é verdadeira. O fato é que direita, esquerda e centro perdem importância. Servem melhor na sinalização do trânsito. O bolso passa a ser o termômetro do corpo nacional.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político