ENTREVISTA DE DOMINGO

Halim Zugaib, o mestre-cuca do voluntariado

Zugaib conta as histórias vivenciadas no voluntariado da Cidade. (Foto: Eisner Soares)
Zugaib conta as histórias vivenciadas no voluntariado da Cidade. (Foto: Eisner Soares)

Pescador, mestre maçom, mordomo da Santa Casa de Mogi das Cruzes e voluntário de entidades e da Festa do Divino Espírito Santo, o aposentado Halim Zugaib é conhecido como exímio cozinheiro. Aos 83 anos, está envolvido em eventos beneficentes da Cidade e à frente do preparo de paellas, afogados, feijoadas, macarronadas, galinhadas, entre outros pratos. Mas também é tido como um ‘faz tudo’, participando de campanhas para auxiliar doentes e famílias que passam por dificuldades. E não pretende reduzir o ritmo tão cedo. “Não posso parar, senão morro”, ensina, revelando a fórmula para manter tamanha disposição. Como forma de agradecimento à boa saúde, viaja toda última sexta-feira do mês com amigos para assistir à missa na Basílica de Aparecida, no Vale do Paraíba. Nascido em Arealva, no Interior do Estado de São Paulo, o filho do imigrante sírio Calil Zugaib e da libanesa Nascima Addas Zugaib, conheceu o trabalho ainda na infância, já que o pai era dono de padaria e, assim como os irmãos, o ajudava no balcão e na entrega de pães nas casas das famílias, tarefa que conciliou com o emprego no Banco Bradesco, de Duartina, após cursar o primário e ginásio em Bauru. Em 1955, foi para a Capital ajudar o tio na Imobiliária Monte Kemel, responsável pela venda de loteamentos. Lá se casou e morou até 1976, quando se mudou para Mogi, que conhecia nas visitas ao irmão Calim Zugaib. Mas continuou viajando todos os dias para trabalhar em São Paulo, onde teve loja de roupas no Brás e distribuidora de livros, além de viajar para vender calças jeans, feitas em alfaiataria com numeração até o tamanho 72, a magazines de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Após a aposentadoria, se dedicou ao Sindicato do Comércio Varejista de Mogi e Região (Sincomércio) e hoje mantém atividades como voluntário em entidades, na Santa Casa de Mogi, na Festa do Divino e na Loja Maçônica Cavaleiros do Alto Tietê. Na entrevista a O Diário, Zugaib compartilha suas histórias com os leitores:

Aos 83 anos, o senhor tem a agenda repleta de compromissos. Qual o segredo para tanta disposição?
O segredo é manter sempre a vontade de trabalhar, de ser útil e fazer algo pelos outros. Não posso parar, senão morro. Mesmo depois de aposentado, nunca parei. E se fico um dia em casa, logo arrumo o que fazer. Gosto de ajudar os outros, e assim como minha mulher, que trabalhou muitos anos na Creche São José Operário, no Mogilar, também sou voluntário no Instituto Pró+Vida, do padre Vicente (Morlini), na Santa Casa de Mogi, na barraca do afogado da Festa do Divino Espírito Santo, faço parte do Grupo da Solidariedade da Loja Maçônica Cavaleiros do Alto Tietê e ajudo a preparar almoços e jantares em vários eventos beneficentes da Cidade.

Por que a dedicação ao trabalho voluntário?
Assim é que me sinto bem e, no final, só há o que agradecer porque tenho saúde, apesar de tomar remédio para o controle da diabetes, participo de vários grupos de amigos, estou sempre com minhas filhas e netos e, por tudo isso, todas as sextas-feiras do mês vou assistir à missa em Aparecida, com os amigos Chico Pato, Toninho Andari e Espanhol.

O senhor é filho de imigrantes do Sírio e do Líbano. Por que seus pais vieram para o Brasil?
Meu avô materno (Massud Addas) veio ao Brasil 10 anos antes da família para trabalhar e saía com uma mala vendendo roupas. Ele trabalhou a vida toda e morreu lúcido, aos 108 anos, jogando baralho até a luz de velas e sem óculos. Minha avó (Methaha Addas) veio para cá depois, com minha mãe e os outros filhos. Já meu pai estava na guerra da França, onde chegou até a comer sola de sapatos fervida por falta de comida, e decidiu vir para cá sozinho e nunca mais viu os pais (Abrahão e Catarina Zugaib), que ficaram na Síria. Ele conheceu minha mãe em Arealva, que na época se chamava Soturna, se casou e montou uma padaria ao lado do armazém do sogro.

Onde foi sua infância?
Nasci e vivi em Arealva até 1944, quando fomos para Duartina. Era uma família numerosa, com oito filhos (Halim, Abrahão, Elias, Calim, Olga Aparecida, Lourdes, Eunice e Michel). Estudei o primário e o colegial em Bauru, mas desde os 9 anos já ajudava meu pai na padaria e colocava caixas para subir e conseguir ter altura para atender os clientes no balcão. Também saía com a cesta de pães nas costas para entrega na casa das famílias, no tempo em que trabalhava no Bradesco. Foi assim até 1955, quando meu tio foi até lá me chamar para trabalhar com ele na Imobiliária Monte Kemel, em São Paulo. Vendíamos loteamentos de segunda a segunda-feira, na Capital e também em Poá, no bairro que passou a se chamar Cidade Kemel. Durante a semana eu ficava no escritório e, aos sábados e domingos trabalhava no loteamento.

Como foi a vinda para Mogi das Cruzes?
Conhecia Mogi porque meu irmão Calim morava aqui, já gostava da Cidade, vinha visitá-lo e sempre mostrava a casa da Avenida Teóphilo Salustiano, no Mogilar, e falava que um dia iria comprá-la para vir morar aqui. Em 29 de janeiro de 1976 nos mudamos para esta casa, mas ainda fiquei trabalhando em São Paulo, então viajava de trem e depois de ônibus fretado para lá. Tive loja de roupas na Rua Maria Marcolina, no Brás, vendia calças jeans feitas em alfaiataria com numeração até o número 72, que era uma novidade, e viajava para atender magazines do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Chegava a vender 400 calças de uma vez. Depois, tive uma distribuidora de livros e vendi muitos livros técnicos para estudantes universitários, principalmente na área de Direito. Me aposentei em 1986, mas trabalhei em São Paulo até 1994 e, em Mogi, fiquei dois anos no posto de atendimento de Itaquá do Sincomércio (Sindicato do Comércio Varejista de Mogi das Cruzes e Região).

Quando teve início o envolvimento com a Santa Casa?
O Airton Nogueira, que era presidente do Sincomércio, me levou para lá e fiquei. Sou 1º mordomo e ajudo na realização de eventos para arrecadar eventos e conseguir comprar o que o hospital mais necessita. No momento, por exemplo, estou atrás de cadeiras de rodas. Faço o que é preciso para colaborar, mas a situação da Santa Casa é complicada porque o hospital atende muita gente, que vem de toda a Região, principalmente na Maternidade. Dias desses havia 60 mães lá prestes a ter bebê e embora tenham sido comprados berços recentemente, já não são suficientes. Não há o que fazer para controlar a situação porque a procura pelo atendimento só aumenta. Mas apesar das dificuldades, gosto de estar lá, onde mais do que ajudar, me sinto ajudado. É um trabalho de entrega mesmo.

O senhor sempre gostou de cozinhar?
Minha mulher fazia almoços para ajudar entidades, como o Pró+Vida, onde levava sacolas de Natal com roupas e calçados novos para os idosos. Eu a acompanhava, mas nunca gostei de cozinhar, até que comecei a preparar os pratos e não parei mais. Hoje, se alguma entidade ou grupo de pessoas estão fazendo algum evento beneficente e me chamam para preparar a comida, eu vou. Já fiz macarronada, bife na chapa, feijoada, paella, galinhada… Uma vez, o Toninho Andari me levou para fazer uma galinhada na Favela do Gica e o campo de futebol ficou lotado de gente para buscar as 1.040 marmitex que servimos. Também ajudo na feijoada do Cerene (Centro de Reabilitação Neurológica Joyce Mello Yamato). No asilo do padre Vicente, vou uma vez por semana e levo uma caixa de bananas, que primeiramente comprava e hoje ganho do dono do depósito.

E o afogado do Divino?
Também fui levado pelo Airton, primeiramente para ficar apenas um dia, e estou há 19 anos. Lá, minha mulher também ajudou muito tempo, descascando batata. Eu fico mais na montagem do prato, desde a primeira carne. Trabalho feliz o dia todo, das 9 horas à meia-noite, com vários amigos que também são voluntários.

Como o senhor iniciou na Maçonaria?
Resisti 15 anos antes de me envolver com a Maçonaria porque achei que não teria tempo para participar das reuniões e atividades, mas depois que entrei, há 24 anos, não saí mais. Nos reunimos todas as terças-feiras e gosto muito de estar lá, onde faço parte do Grupo da Solidariedade. Realizamos vários eventos, que ajudam muita gente, como a paella que fizemos no final do ano passado e rendeu dinheiro para a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), Santa Casa, GAPC (Grupo de Apoio a Pessoas com Câncer), AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) e ao Grupo da Paz, das mulheres da Maçonaria, fundado há 22 anos pela minha esposa.

O senhor chegou a Mogi em 1976. Era possível imaginar este crescimento que a Cidade vive hoje?
Jamais poderia imaginar que Mogi cresceria tanto. Era uma cidade pequena, muito tranquila, onde todos se conheciam. Ainda tenho muitos amigos, mas costumo brincar que posso contar minhas histórias à vontade, porque a maioria das testemunhas já morreu.

Em mais de 30 anos morando no Mogilar, o senhor acompanhou as enchentes que havia no bairro…
Sim. Todo verão havia enchente por lá. Morei 37 anos na Teóphilo Salustiano e na minha casa, a água chega a atingir 10 centímetros, mas mantinha um barco de um amigo sempre na garagem porque os vizinhos sofriam com as enchentes, principalmente as famílias que moravam nas regiões mais próximas do Rio Tietê, e precisavam de ajuda. Era uma loucura, os bombeiros também vinham de barco retirar as pessoas das casas. Uma vez, fui ajudar um amigo a salvar o guarda-roupa e quando pegamos o móvel, a parte de baixo se soltou e todas as roupas caíram no chão. Mas a situação melhorou muito depois que fizeram a limpeza no rio e gosto muito do Bairro. Só daí desta casa depois que minha mulher morreu e, em uma das minhas viagens com os amigos, minhas filhas montaram o apartamento no Nova Mogilar, onde moro desde 2013.

Quais as suas distrações?
Gosto de pescar, já fui muitas vezes ao Mato Grosso, ao antigo picoapê, no Rio Tietê, na altura de Biritiba Mirim, com amigos como o Adilson, Mineirinho, e outros. O maior peixe que peguei tinha cerca de 20 quilos. Já pesquei pacu, tambacu, pintado, dourado, entre outros. Gosto também de ir a pesqueiros com meus netos. Outra distração é torcer pelo meu time, o Corinthians. Já cheguei várias vezes a viajar para assistir os jogos em outras cidades, acompanhando o time como torcedor. E ainda adoro passear. Neste último Carnaval, fui com amigos ao Rio de Janeiro e acompanhei o trabalho no barracão da Mangueira, na Vila Isabel. Impossível não se emocionar com a primeira tocada do bumbo.