CHICO ORNELLAS

Heleninha Cury

Legenda para foto ELES – Ao lado da histórica máquina registradora, Wilson e Heleninha Cury: testemunhas e personagens da história de Mogi. (Foto: arquivo pessoal)

Mogi de A a Z

Por gentileza do maestro Niquinho Freire Mármora, chega às mãos singelo poema escrito por um de seus alunos na arte do piano. Tem uma razão de ser: Gustavo Ferreira Rossi, o aluno no teclado, desde criança frequentou a Casa São João, tradicional estabelecimento do comércio local instalado por iniciativa e Salim e Luiza Cury; seguida avante por Wilson e Heleninha Cury. Pois a cidade se despediu de Heleninha há poucas semanas, 5 anos depois do marido Wilson.

Legenda para foto
ELES – Ao lado da histórica máquina registradora, Wilson e Heleninha Cury: testemunhas e personagens da história de Mogi. (Foto: arquivo pessoal)

HELENINHA”

Saudades da Casa São João

Quando eu era criança, ia lá para comprar coisas para o carnaval…

(era um tempo descoisificado)

O povo antigo dava nomes bonitos para o comércio

Naquele tempo, os santos e anjos choravam, mas choravam de alegria

Mogi é assim:

Estão morrendo todos os personagens de sua linda História

Hoje, só temos atores

Grandes atores

Mas o teatro da vida está finando mais pobre

Heleninha parte

Que haja arte, fantasias no céu!

Carta a um amigo

Crônica de uma cidade imaginária

Caro leitor

UTOPIA – Do meu passeio pelo futuro de Mogi consegui trazer esta foto, de um trecho do Rio Tietê entre a Ponte Grande e a Ponte do Rio Acima. Sonhar é bom; e de graça. (Foto: reprodução)

A máquina do tempo com que me presenteou um amigo muito querido permitia apenas uma incursão, eu tinha de escolher: voltar 50 anos no passado, a 1969; ou viajar 50 anos no futuro, a 2069. Não lhes preciso antecipar o que escolhi: é claro que optei pelo amanhã. O ontem eu vivi, o amanhã eu não viverei. Então viajei ao futuro. O mesmo presente me dava o privilégio de escolher o espaço que visitaria, escolhi a nossa Mogi das Cruzes. É o lugar que mais conheço, onde tenho os melhores amigos. A viagem seria rápida para os nossos padrões: 30 minutos. E eu também poderia escolher o veículo de locomoção. Optei por um drone.

Assim foi, conforme o combinado. Na manhã daquele 29 de setembro de 2069 acordei envolto em uma nuvem clara, quase uma neblina. Minha primeira surpresa foi descobrir que o calendário de 2069 é exatamente igual ao de 2019. O ano começa em uma quinta-feira, fevereiro tem 28 dias e o 29 de setembro, como hoje, cairá em um domingo. Também o Natal será em uma quarta-feira e o réveillon numa terça-feira. Achei mesmo que me haviam enganado. Melhor não comentar e, intimamente, decidi que não olharia por pessoas. Curiosidade até que havia, mas não queria romper o mistério da vida. Pensei que pudesse dar um zoom na sepultura familiar do Cemitério de São Salvador e descobrir em que ano morri.

O drone que vi tão logo a névoa se dissipou era um aparelho estranho. Não muito diferente daqueles que se conhece hoje, mas ele me pareceu feito de um material muito mais leve. Esgueirei-me por sua parte inferior e três garras me recolheram. Uma entrelaçava-me pelos ombros e outras duas faziam às vezes de suporte, abraçando-me as coxas. Na da direita havia algo que me lembrou um mouse de computador; toquei e senti que ele fazia às vezes de direção. Altura e velocidade, percebi em seguida, eram determinadas pelo aparelho, eu não tinha como interferir. Quando as travas se fecharam, o aparelho alçou voo. E só aí descobrir onde estava: em algum ponto da Serra do Itapeti.

Nossa, como a serra está verde! Por mais que procure, não encontro vestígios da pedreira que, 50 anos atrás, deixava grandes vazios na mata. Também não vejo as torres das linhas de transmissão e tento imaginar como será a distribuição de energia elétrica. E nem tenho certeza de que ainda se usa energia elétrica.

Em pouco tempo passo sobre trechos da estrada Mogi-Dutra. Ela ainda está lá, mas há pouquíssimo tráfego de veículos que não consigo identificar. Em 4 minutos o aparelho me leva sobre o bairro da Ponte Grande e a minha maior surpresa é o curso do Rio Tietê neste ano de 2069. As curvas que serpenteavam pelos bairros do Mogilar, Ponte Grande, Volta Fria e Jundiapeba já não existem. O rio é uma reta só, à semelhança do que ocorre quando ele atravessa o núcleo urbano de São Paulo. Nas margens, por onde correm avenidas paralelas, há uma faixa verde entre o rio e as novas avenidas. No rio consegui ver algo como três barcaças que navegam vagarosamente, levando bandas de música ou pessoas sentadas em torno de uma mesa. Nas margens verdes consigo ver grupos de pessoas que passeiam entre árvores, à sombra das quais há mesas servidas por garçons que se abastecem nos restaurantes dali.

Do bairro do Mogilar que eu conheci várzea e vi ser ocupado a partir de 1970, há pouco dos velhos tempos. Não consigo identificar o uso atual dos campi universitários, mas fica claro que os antigos prédios públicos do Centro Cívico já não existem. Foram substituídos por construções mais modernas, funcionais. Uma descoberta me anima: por enquanto, por onde tenha passado, vi muitas árvores e praças de verde que anima. E penso com meus botões: em 50 anos de prática jornalística na Cidade nunca vi uma campanha de defesa e plantio de árvores. Por quê?

Procuro, em seguida, referências históricas. E encontro: as igrejas do Carmo estão ali, iguaizinhas e o Teatro Vasques é o mesmo. Mas dá para perceber, pelo pé direito duplo dos fundos, que o prédio foi, enfim, restaurado à semelhança do projeto original, quando esse pedaço tinha pé-direito duplo para acolher a boca de cena. Também a Catedral de Santana me parece igual; diferente mesmo é a praça à sua frente. É outra! Tem árvores, avança sobre o trecho da Rua Paulo Frontin que, no meu tempo, era fechado ao tráfego, mas sem qualquer cuidado urbanístico.

Vejo também o prédio da velha Estação Rodoviária, na Praça Firmina Santana. Está restaurado, me parece abrigar um café, no entorno do qual há espaços de convivência comunitária. Outra surpresa: fica claro que os bancos já não são maioria na Avenida Pinheiro Franco. Surpresa ainda maior foi descobrir que a antiga área ocupada pela Mineração Geral do Brasil, na Vila Industrial, e condenada por contaminação, foi recuperada e me mostra hoje algo que lembra o Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Uma guinada à esquerda e consigo divisar a Barragem de Taiaçupeba aos pés da Serra do Mar. Beleza, a barragem e a serra intocadas. Da estrada Mogi-Bertioga visíveis apenas pequenos trechos, todo o resto corre sob a vegetação que transborda suas margens.

Meus 15 minutos estão vencendo, corro buscar um ponto de descida a tempo de me sobrarem alguns para checar o que é feito da gente da terra. Sem personificação abro um totem público de pesquisa.

Descubro, então, que Mogi das Cruzes tem, neste 2069, 760 mil habitantes, 70% a mais do que em nosso 2019. Está bem, considerando que nos 50 anos anteriores (1969 a 2019) o crescimento demográfico foi de 250%. Mas isso é natural, decorre da proximidade de nossa cultura aos círculos mais avançados. Descubro também que a Cidade direcionou sua vocação econômica para dois pontos: serviços e residências de alto nível.

Incrível como já havia, àquele tempo, os que defendiam esses nortes. A renda per capita da Cidade inverteu-se em relação há 50 anos: enquanto em 2019 70% da população tinham renda considerada baixa e apenas 30% estavam no patamar de renda média e alta, hoje 75% da população tem renda considerada alta. Isso, em grande parte, decorreu das ações empreendidas pelo prefeito eleito 30 anos antes. Ele era um executivo bem-sucedido que foi convencido, por forças políticas preocupados com o futuro de Mogi das Cruzes, a disputar a eleição. Venceu, deixou de lado as propostas populistas, desenhou um projeto de 15 anos e um sonho de 30 anos para a Cidade.

Com isso sob os braços, circulou pelo meio empresarial da América Latina mostrando as vantagens de grandes empresas investirem em Mogi das Cruzes. Com credibilidade e transparência, não lhe foi difícil trazer para cá empresas de ponta, daquelas que contratam pessoal qualificado com salários dignos. Muito diferente da época em que se comemorava a instalação, por aqui, de empresas de fundo de quintal ou de telemarketing, aquelas que não investem nada (os computadores são alugados) e pagam salário mínimo – não à toa, têm o recorde nacional de turnover.

Meus 15 minutos venceram, volto ao meu mundo que tanto me agrada. E fico feliz em vislumbrar que meus netos e bisnetos terão do que se orgulhar desta nossa Mogi das Cruzes.

Abraços do

Chico

GENTE DE MOGI

Alberto Borges dos Santos. (Foto: arquivo pessoal)

PROFESSOR – Daqueles personagens que fazem Mogi ser Mogi: ele saiu da cidade, na segunda metade dos ‘50, para buscar formação em São Paulo, à falta de faculdades por aqui. Voltou e iniciou carreira no magistério, atuando em praticamente todas as escolas estatais e particulares de então; do ensino médio ao universitário. Era rígido e leal. Hoje, há poucos professores como Alberto Borges dos Santos, o “Bugrão”

O melhor de Mogi

As confrarias de amigos que preservam um antigo costume da cidade e ajudam a manter o clima de camaradagem, uma das marcas daqui.

O pior de Mogi

Aquela lombada no início (ou fim) da Mogi-Dutra, no limite da zona urbana: tem radar e tem farol, mas insistimos em dar as boas-vindas – ou agradecer a visita – de motoristas com aquele monumento à imbecilidade.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter estudado no Instituto de Educação Dr. Washington Luiz e namorado alguém do Liceu Braz Cubas. Ou vice-versa.

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