Henrique Nepomuceno: E daí?

Nesses tempos de radicalismos, continuo convivendo com as pessoas por quem tenho amizade, com as que gosto e admiro e, principalmente com as pessoas que amo, dentre elas, com as que querem o impeachment e as que não querem, as que se dizem peessedebistas e as que são petistas, e também as que são apartidárias e querem uma coisa ou outra.Tenho convicção de que reconhecem como verdadeiro o sentimento e atenção que a elas dedico, pois cuido para que o que nos enlaça contemple respeito e afeto. E percebo que no geral a recíproca de um ou outro até chega a ser verdadeira, embora não saibam ou entendam o que penso sobre o impeachment.
Por isso venho apreensivo diante da crise política, menos pelo seu desfecho institucional, mas muito mais pelo posicionamento das pessoas diante de seus relacionamentos sociais e afetivos.
Lamento que independentemente das convicções, tanto daqueles que querem que Dilma fique como as daqueles que desejam que ela saia, ninguém está realmente preocupado com o que se seguirá, nem com os destinos do país e nem com as sequelas que restarão em seus relacionamentos pessoais. Entre os que defendem a continuidade, todos o fazem em nome da democracia e do estado de direito, mas nem mesmo os afiliados e simpatizantes do PT sustentam mais qualquer argumento capaz de vencer a realidade dos fatos, pois o Partido, assim como seus antecessores, fez as mesmas escolhas promíscuas, de modo e conceito, para chegar e manter seu projeto de poder. Fracassou, e deu no que deu: nunca antes na história desse País se roubou tanto e tão descaradamente, embora tenhamos tido avanços sociais importantíssimos.
Já os que querem o impeachment têm argumentos fartos e irrefutáveis, o bastante para tirar a presidente. E daí?
Assim como a maioria dos brasileiros, me senti cheio de esperanças por ocasião das Diretas Já, do impeachment do Collor, das eleições de Fernando Henrique assim como as do Lula. A eleição de Dilma era uma incógnita, e sua reeleição temerária, momento esse em que já estávamos nos agarrando nas únicas opções que tínhamos: o menos pior.
De qualquer modo estamos vivendo isso, vamos passar por isso, provavelmente perdendo amigos, e certamente a oportunidade (se é que ela existe) de chacoalhar amplamente as instituições públicas viciadas e corrompidas, pois se assim o quisessem o fariam o STF, o juiz Moro e a Polícia Federal, com as investigações, depoimentos e delações, sobretudo das grandes empreiteiras que há 50 anos atendem às demandas dos governos federal, estadual e das grandes cidades.
De minha parte, lamento. Continuarei buscando o certo e o bem que também existem na adversidade, apostando no afeto, e sonhando com um país mais justo.

Henrique Abib Nepomuceno é administrador de empresas e músico


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