ARTIGO

Heróis sem causa

João Natalino

Quando visitei Israel, hospedei-me num hotel que tinha um banheiro com um chuveiro muito peculiar. Havia um timer programado para cinco minutos. Mas apenas dois desses minutos, a intervalos, liberava água. Dentro do box havia as instruções de uso: “acione o chuveiro, fique em baixo do jato de água durante um minuto. O chuveiro desligará automaticamente. Ensaboe-se durante os próximos três minutos. Após três minutos o jato de água será liberado novamente, por dois minuto. Aproveite-o para tirar a espuma do sabonete.”

Quer dizer. Se a gente não soubesse usar o tal chuveiro, ficaria com o corpo cheio de espuma. E não adiantaria espernear porque ele era programado para liberar água para o banho só uma vez por dia. Se fossem três pessoas no quarto, seriam três banhos. Se uma delas usasse duas vezes, alguém passaria o dia sem tomar banho.

Em Israel todos os recursos hídricos são utilizados com técnica e parcimônia. Qualquer fontezinha na montanha é canalizada e sua água transportada para alguma finalidade útil. Nenhum riacho é usado como vala de esgoto. A agricultura nos kibutz é irrigada através de sofisticados sistemas pinga-gotas, que liberam só a água suficiente para manter a saúde da planta.

Quem tem muito esbanja e só toma tento do quanto desperdiça depois que perde tudo. É o que acontece conosco. Temos a maior bacia hidrográfica do mundo. Um terço de toda a água doce do planeta está aqui. Por isso nunca tivemos consciência de que gastamos tão mal esse que é o mais valioso de todos os recursos naturais que Deus pôs à disposição do homem. Somos como o alcoólatra inveterado que descobre que tem um fígado só depois que pega cirrose.

Observei que a população israelense vive num eterno estado de guerra. Cada pessoa, ao fazer dezoito anos, começa a receber treinamento militar que dura quase a vida inteira. Ela recebe uma arma e leva para casa. Todo ano é chamada para uma reciclagem nesse treinamento e deve estar sempre de prontidão caso a pátria precise dela. Há um forte dispositivo de segurança por todo o país, vigiando aeroportos, estradas, portos, cidades. Perguntei ao meu guia (que aliás era nascido no Brasil, de uma família israelense) se ele não achava aquilo tenso e perigoso. Ele respondeu que as cidades brasileiras eram extremamente mais perigosas. Que lá se lutava por alguma coisa que eles sabiam o que era. Água, terras agricultáveis, herança cultural, uma crença. Quando se morre, sabe-se por que se morre. “Aqui”, disse ele, não há heróis. Só gente lutando para sobreviver.”

No Brasil, balas perdidas matam mais do que nos conflitos que ocorrem na Palestina. E a gente nem fica sabendo por que morreu. Hoje compreendo melhor as razões dele. A morte é menos dolorosa quando se morre por algo que se acredita. Nós, brasileiros, somos todos heróis sem causa. Morremos à toa, sem saber porque morremos.

João Natalino Rodrigues é escritor e advogado

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