ARTIGO

Hitler não morreu

João Anatalino

Li, nos anos setenta, os quatro volumes da obra do jornalista-historiador William Shirer, que faz uma crônica da ascensão e queda do Terceiro Reich, historiando a ascensão de Hitler ao poder, e depois, como ele promoveu o maior dos conflitos da humanidade.

Essa leitura me levou ao Mein Kampf, o livro escrito por Hitler. Nos anos setenta era difícil obter um exemplar. Paguei uma nota por ele em um sebo da Praça da Sé, na esperança de ler um livro que me levasse a entender a razão do porque, um povo tão culto e inteligente como o alemão conseguiu ser seduzido por uma ideologia de ódio como aquela.

Fiquei decepcionado. Era uma leitura tão maçante e tediosa, que nem como livro de história servia. Além de distorcer os fatos, o livro era mal escrito, com teses tão desordenadas, que custava crer que o povo alemão tivesse adotado aquilo como uma espécie de cartilha política e sociológica. Shirer diz que os originais de Hitler eram piores ainda.

Esse livro estava proibido na Alemanha desde a Segunda Guerra. Seu relançamento pode ser bom e ruim. Bom porque a maioria do povo alemão pode, de uma vez por todas, se livrar desse vírus que ainda infesta boa parte da sua população. Ruim porque isso acontece no momento em que a Europa está sendo invadida por refugiados do Oriente Médio e África. É coincidência demais para ser ignorada.

Hitler ainda está vivo, ao que parece. Nietszche, o filósofo mais influente entre os nazistas, dizia que estamos condenados a viver o mesmo momento infinitas vezes. Ao que parece ele também não morreu. Continua vivo, destilando a peçonha que sua vida de mal amado depositou na sua alma. Precisamos tomar muito cuidado para não fazer com que ele acabe tendo razão. E principalmente para que isso não aconteça aqui no Brasil, porque, a se julgar por alguns malucos que cercam o presidente Bolsonaro, a semente do nazismo está começando a florescer nestas terras que, segundo Caminha, “em se plantando tudo dá.”

João Anatalino é escritor


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