ARTIGO

Idiotices ideológicas

João Anatalino

Quatro turistas americanos, junto com seu guia, estavam escalando um pico nas Montanhas Rochosas, quando sobreveio uma terrível nevasca. Imediatamente procuraram abrigo dentro de uma caverna, para esperar a tempestade passar.

Anoiteceu e nada da tempestade amainar. O termômetro marcava – 20º C .

Então o guia falou. “Não temos nada para queimar e não podemos fazer fogueira porque a caverna ficaria cheia de fumaça e morreríamos asfixiados. A solução é tirar nossos agasalhos e fazer um cobertor coletivo. Depois nos abraçarmos todos e passamos calor uns para os outros.”

Os quatro turistas se olharam detidamente, coisa que não tinham feito até então. Um deles era um negro do estado do Mississipi. Odiava os brancos, que durante séculos oprimiram os negros naquele estado. Outro era um branco do Alabama, membro da Ku-Klux-Klan. Seu ódio pelos negros era uma coisa entranhada. O terceiro indivíduo era um judeu do Bronx. Não abria a mão nem para dizer bom dia. O quarto era um cowboy do Texas, metido a macho, daqueles que costumam dizer que sua parte feminina é lésbica. O quinto era o guia, sujeito de bom coração, mas sem nenhuma iniciativa e nenhuma liderança.

O negro olhou para o branco e disse para si mesmo: “mas nem Deus me fará abraçar esse maldito lixo branco.” O branco olhou para o negro e pensou a mesma coisa.” Abraçar esse negro? Jamais!” O judeu, por sua vez, pensou que dividir seu agasalho com os outros o tornaria mais pobre. O cowboy disse para si mesmo: “eu, me agarrar com esses marmanjos? Mas nem morto!”

O guia ficou olhando para os outros quatro, esperando que algum deles tomasse a iniciativa. Como ninguém se habilitou, ficou na dele.

Pela manhã, uma equipe de resgate encontrou na caverna cinco homens mortos. Todos com os braços cruzados sobre o peito, como se estivessem protegendo algo muito valioso.

Dedico essa metáfora ao presidente Bolsonaro. Ele já venceu a eleição, mas parece que não se deu conta disso ainda e continua em campanha. Ao invés de procurar se compor com seus parceiros, ele sobe nos seus tamancos de reacionário e fica atacando quem pode ajudá-lo. Está mais que na hora de ele começar a governar e parar com picuinhas ideológicas. Alguém precisa dizer ao presidente que entre ideologia e idiossincrasia não há muita diferença. E não por acaso esses termos têm o mesmo radical da palavra idiotice. E idiotice é termo que se aplica bem ao seu Nostradamus novaiorquino Olavo de Carvalho. Aliás, com um guia desses, a vaca irá para o brejo mais cedo do que se espera. O problema é que nós iremos junto com ela.

João Anatalino é advogado e escritor