CIRCUITO

Infectologista Jean Gorinchteyn: ‘Mogi se antecipa no combate ao coronavírus

Médico infectologista Jean Gorinchteyn.
Médico infectologista Jean Gorinchteyn.

Formado pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), o médico infectologista Jean Gorinchteyn também é professor na cidade e tem prestado assistência por aqui durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Responsável pelo Ambulatório de Aids no Idoso no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, e mestre em doenças infecciosas com vários trabalhos publicados sobre o tema, ele tem participado de lives da prefeitura local, ao lado do Secretário de Saúde Dr. Henrique Naufel e também do prefeito Marcus Melo (PSDB), oferecendo dicas de prevenção e tirando dúvidas da população sobre a situação atual. Nesta entrevista, além de fazer isso, ele mostra como tem sido a rotina dos profissionais da saúde neste período e também avalia como sendo antecipada e programada a estrutura que a cidade apresenta, a exemplo do hospital de campanha que está sendo construído na Avenida Cívica.

Como tem sido a rotina dos profissionais da saúde envolvidos nos trabalhos de prevenção ao coronavírus?

Dia após dia temos visto número de pacientes de forma crescente nos hospitais. As Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) começam a realmente ficar cheias, os hospitais começam a se mobilizar para cada vez mais pacientes que podem ser e que vêm sendo admitidos todos os dias. Isso causa apreensão, principalmente quando a gente ouve que vários são os hospitais que tem profissionais da saúde entre os pacientes, e com isso temos a preocupação ainda maior, não só de atender mas também de nos prevenirmos contra o risco de ficarmos doentes.

Quais são os desafios enfrentados pelos trabalhadores desta área? Talvez uma maior exposição ao vírus seja o principal?

Na verdade, o maior desafio é saber como seria a melhor prevenção. A gente sabe que a maioria desses médicos ou paramédicos que se infectaram procuraram, na maioria das vezes, realmente seguirem medidas adequadas de isolamento. Então isso causa certo receio em saber em que momento acontece a contaminação. Será que é quando tiro minha roupa, meu avental, minha máscara? Essa precaução e medo acabam sendo fatores associados ao fato de muitas vezes existir uma demanda muito alta, uma necessidade de adaptação do hospital e de assistência de forma adequada o próprio paciente.

Como você avalia o apoio oferecido para a linha de frente do combate à doença Covid-19?

A linha de frente é composta não só pelas equipes médica e paramédica e técnicos e auxiliares de enfermagem, mas também escriturários e recepcionistas que estão ali e ajudam a retirar os pacientes que chegam nos carros ou ambulâncias. É fundamental que a gente dê a essas pessoas especialmente os equipamentos de proteção individual adequada e é claro que em alguns hospitais infelizmente isso não acontece, o que acaba colocando essa linha de frente em risco. Essa é a maior preocupação, porque além dos pacientes que ali estão, as pessoas que poderiam dar assistência  acabam também adoecendo e logicamente se afastando.

Boa parte dos infectados em Mogi são profissionais da saúde. Isso já era esperado, por conta de uma maior exposição ao coronavírus? O que têm sido feito, de modo geral, para garantir a saúde dessas pessoas?

Quando a gente fala da população que dá assistência, é interessante que hoje a gente cada vez mais  se está conhecendo as possibilidades de enfrentamento do coronavírus, do preparo das equipes que estão na frente. Mas é fundamental que realmente as pessoas se utilizem dos equipamentos de proteção individual, que possam promover a lavagem das mãos de forma frequente. É importante o uso do álcool gel de uma forma também frequente, assim como de todos os meios, seja de avental, luva, de máscara, de óculos de proteção ou máscaras faciais, mas é muito importante também o ato de retirar corretamente esse material, para que essas pessoas não tenham o risco de se infectar. O que a gente tem observado é que muitas das pessoas que se contaminaram algumas das vezes não respeitaram essas normas e acreditaram que tratava-se de um vírus respiratório comum, quando agora sabemos que deve-se ter preocupação e precaução de forma muito mais intensificada.

É possível relacionar essa a alguma outra enfermidade já registrada no país, como Meningite, H1N1 ou Chikungunya?

Sempre que surge um vírus novo vem uma preocupação porque não se sabe como ele vai se manifestar. Mas claramente o coronavírus veio trazendo uma transformação do que foi visto com o H1N1. Ele não veio trazendo uma situação só de contaminação, claro, entre pessoas e objetos, mas teve a possibilidade de, pelo fato de as pessoas estarem muito bem clinicamente na maioria das vezes, elas continuarem se relacionando com as outras, e com isso a doença se dispersa muito mais na população do que o próprio H1N1, que dava maior comprometimento no estado geral e deixava  as pessoas debilitadas e realmente impossibilitadas de fazer as tarefas do dia a dia, de ir ao supermercado, de ir a academia, de ir trabalhar.

Além disso, hoje a gente sabe que muitas vezes até um nariz entupido ou uma dor de garganta mesmo sem sintomas muito maiores podem esconder sim o coronavírus, criando a chance de disseminar para muito mais pessoas. Enquanto com o H1N1 uma pessoa contaminava duas, com o coronavírus ela tem a possibilidade de contaminar de quatro a seis pessoas. Mas se as pessoas ficam só dentro de casa, a contaminação cai para 2 pessoas, e por isso o isolamento social é tão importante

Como avalia a estrutura de Mogi das Cruzes, já incluindo o hospital de campanha que está sendo montado na Avenida Cívica?

O trabalho que temos com a prefeitura, especialmente com o professor Henrique Naufel, tem exatamente considerado as experiências e melhores estratégias sobre o que tem acontecido em São Paulo. Mogi das Cruzes tem se antecipado sobremaneira tanto em promover a realização de preparo dos hospitais, de hospitais de campanha que acabam sendo estruturados, assim como toda a linha de assistência, de testes, de materiais. Tudo isso tem sido feito de forma extremamente antecipada e programada, para garantir que mesmo que a cidade enfrente um maior número de casos ela esteja preparada para oferecer, de forma qualificada, assistência realmente humana, técnica e médica a esses pacientes que por lá procuram. Porque é isso que vai ser o diferencial, é isso que vai fazer com que Mogi construa uma história diferente da China e da Itália, podendo sim dar opção e oportunidade para as pessoas serem acolhidas caso venham a ficar doentes, principalmente ao público vulnerável de idosos e pessoas que tenham problema no coração, pulmão, rim ou baixa imunidade.

Então apesar de a pandemia ser recente, é possível dizer que Mogi apresenta um quadro preparado para este tipo de situação?

Como eu disse, Mogi deu um passo muito mais avançado do que muitas grandes cidades do país, e  não tenho dúvida que ajuda o fato de ter na Secretaria da Saúde um profissional médico que tem visão de saúde pública. Estão sendo feitas todas as nomenclaturas e acompanhamentos de tudo aquilo que tem sido determinado não só pelo Ministério como pela Secretaria Estadual da Saúde, e ao mesmo tempo trazendo experiências do que realmente acontece em todo o Estado.

Para além do confinamento, uma das principais recomendações feitas às pessoas é que lavem as mãos com frequência e da maneira correta. Isso tem sido respeitado? E em relação a outras medidas de segurança?

As pessoas estão avaliando todos os hábitos de higiene. Estamos lembrando de lavar as mãos, estamos lembrando que não precisamos ficar beijando e tocando as pessoas, de que quando a gente traz coisas do supermercado para casa temos que passar um pano com álcool em cada um dos produtos industrializados, que é preciso lavar de forma adequada as frutas, legumes e verduras antes de colocar na geladeira. Estamos aprendendo que não é para entrar em casa com sapato e roupas com as quais viemos da rua, com as quais pegamos transporte público. Estamos nos reinventando e aprendendo coisas que a população da Ásia, especialmente no Japão e em algumas áreas da China, já fazia, porque convive muito mais com a questão de vírus respiratório do que nós. Tenho certeza que este grande aprendizado será incorporado na forma em que nos relacionamos com o próximo.


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