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Internada com a Covid-19, mogiana Dona Lina da Mata comemora 100 anos de idade e já se recupera

SEMPRE À FRENTE No Hospital Ipiranga, uma festa de aniversário será feita hoje para comemorar os 100 anos de Lina Duccini, que se trata da Covid-19; com humor apurado, ela foi uma das primeiras mulheres a trabalhar em um açougue, no Mercado Municipal. (Foto: divulgação)
SEMPRE À FRENTE No Hospital Ipiranga, uma festa de aniversário será feita hoje para comemorar os 100 anos de Lina Duccini, que se trata da Covid-19; com humor apurado, ela foi uma das primeiras mulheres a trabalhar em um açougue, no Mercado Municipal. (Foto: divulgação)

Os 100 anos de dona Lina da Mata Duccini serão comemorados hoje de uma maneira muito especial. Em vez de dividir sua contagiante alegria e permanente alto astral com os seis filhos, 10 netos, 13 bisnetos e dois tataranetos, ela estará recebendo o carinho das enfermeiras e médicos do Hospital Ipiranga, que nos últimos dias se encantaram com a vitalidade, brincadeiras e até cantorias daquela senhora, sempre risonha, que lá chegou, na madrugada de 29 de junho, uma segunda-feira, com os sintomas características da Covid-19.

Dona Lina – registrada Isolina, no Cartório de Barra Bonita, onde nasceu –, estava no Recanto Santana, um abrigo para idosos da rua Duarte de Freitas, próximo ao Clube de Campo, que ela própria escolheu para viver, quando foi detectada uma queda na oxigenação de seu sangue, aliada aos sintomas ainda fracos de um resfriado, situações pouco comuns para quem sempre teve uma saúde de ferro.

Tais indícios foram suficientes para que ela fosse levada ao Hospital Ipiranga, onde os exames preliminares indicaram sinais de uma pneumonia, e outros, mais aprofundados, confirmaram: dona Lina havia contraído o novo coronavírus e estava com a Covid-19.

A idade avançada recomendava que ela fosse internada na UTI. Mas ficou lá apenas por um dia. No segundo, ela já estava no quarto, respirando com a ajuda de oxigênio. A entubação não havia sido necessária. Os medicamentos surtiram efeito e, no sábado daquela semana, dona Lina, completamente lúcida, já estava se alimentando e conversando com o pessoal do hospital e com a enfermeira que sua família contratou para estar permanentemente ao seu lado.

Como ela contraiu o coronavírus, continua sendo um mistério para médicos e familiares, já que na casa de repouso onde ela viveu seus mais recentes quatro meses, nenhum outro idoso apresentou sintomas da doença, segundo Nília Duccini, uma das filhas, com quem dona Lina viveu, por cerca de 30 anos.

Com a centenária paciente oferecendo, a cada dia, sinais mais positivos de recuperação, a família começou a preparar para hoje uma festa à distância, com direito a bolo para ser dividido com as enfermeiras e médicos, quando recebeu um comunicado. O Hospital Ipiranga iria se encarregar da comemoração, com bolo, bexigas… tudo do jeito como ela gostaria que fosse.

A família também poderá festejar em conjunto, por meio de uma transmissão via internet. Mas haverá muito mais.

Dona Lina certamente irá se emocionar quando lhe for apresentado o vídeo que está sendo preparado por filhos, netos e bisnetos. Todos gravando mensagens de feliz aniversário à matriarca, com votos de que venha a deixar o hospital o mais breve possível, já definitivamente livre da Covic-19.

Boiada e casório

A gravidez de uma irmã, Alvira, que morava na cidade desde que se casou, em Barra Bonita, foi quem trouxe a bela Isolina para Mogi das Cruzes. Tão bonita que já havia vencido um concurso de miss em sua terra natal. Lina, como já era chamada entre os familiares, passou a morar numa casa da rua Ipiranga, onde era comum a passagem de boiadas, conduzidas por guapos rapazes.

Um deles, que costumava passar por ali com seus bois, com certa frequência, chamou a atenção da jovem, então beirando os 20 anos. Os dois se conheceram e logo começaram a namorar. Ernesto Duccini, o Chito, de descendência italiana, era dono de um açougue no Mercado Municipal e, apesar da aparência jovial, era viúvo e pai de duas filhas. Nilce e Nair, de 9 e 10 anos, que logo se encantaram com o jeito carinhoso da nova namorada do pai. E se tornaram as maiores incentivadoras do seu novo casamento, que não tardou a acontecer.

Lina e Chito – ele, um dos fundadores do Centro Espírita Antonio de Paulo, ao lado de Álvaro Carneiro – tiveram mais três filhos – Nilton, que viria a ser administrador do Hospital Ipiranga; Nília e Nilde – e adotaram um quarto, Adalberto.

Dona Lina era a típica dona de casa italiana, que cozinhava muito bem, gostava de ter sua residência, um sobrado na rua São João, próximo da Cardoso Siqueira, sempre cheia de parentes e amigos, especialmente em seus famosos almoços de domingo, que ela sempre fazia questão de preparar.

Uma mulher submissa ao extremo? Nem pensar. Afinal, ela foi, segundo a filha Nília, a primeira mulher a trabalhar num açougue no Mercadão, numa época em que isso era quase impensável. E ainda cuidou de um bar e leiteria que o casal mantinha, nas proximidades de sua casa, também na rua São João.

Chito morreu, aos 67 anos, em 1970. E Lina ainda continuou, por algum tempo, cuidando do açougue, até que seus filhos a aconselharam a parar. Ela foi, então, viver com Nília e seu marido, o professor Pedro Nunes Neto.

Durante três décadas, ela dividiu sua permanente alegria e empolgação com todos dali. “Quando eu acordava, ela já havia limpado a casa e me contava isso com a maior naturalidade”, conta Nília.

A convivência entre mãe, filha e genro agregava parentes e amigos que costumam aparecer para o aperitivo, antes do almoço de domingo. Amigos, como o professor José Cardoso Pereira, o Cardosinho, para quem dona Lina costuma dedicar versos de antigas marchinhas carnavalescas como aquela que dizia: “Se você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não”. Pura brincadeira entre grandes amigos.

Cá, entre nós, dona Lina, que sempre se vangloriou de não ter colesterol alto, diabetes ou pressão alta, sempre comeu de tudo e fazia questão, especialmente aos domingos, de uma cachacinha para acompanhar o almoço.

Mas alguns problemas surgiram diante dela, na reta final para o centésimo aniversário. Nília, a filha com quem vivia, veio a enfrentar um grave problema de coluna que a impedia de dar à mãe a assistência necessária. Nilde, a outra filha, passou por uma operação num dos ombros. E dona Lina acabou indo passar os dias no Recanto Santana, onde outra parente sua já vivia. O envolvimento com aulas de danças, pinturas e outras atividades levou a própria Lina a decidir que dormiria por lá mesmo e passou a visitar a filha às quintas e domingos, para os inevitáveis almoços com a família e amigos.

Foi lá no abrigo para idosos que os sintomas da Covid-19 foram detectados na forma de uma gripezinha.

Hoje, familiares e amigos vão fazer contato com dona Lina pela internet. Todos desejando uma coisa só: sua cura e a consequente alta hospitalar, o mais breve possível. Afinal, ela sabe que precisa estar em forma e pronta para outros tantos aniversários que ainda deverão vir por aí.


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