CIRCUITO

Irmãos Nunes e a dedicação ao Divino

Fernando Carlos Nunes e José Carlos Nunes Júnior. (Foto: Eisner Soares)
Fernando Carlos Nunes e José Carlos Nunes Júnior. (Foto: Eisner Soares)

Fernando Carlos Nunes tem 56 anos e é oficial de justiça. Seu irmão, José Carlos Nunes Júnior, tem 52 e é consultor empresarial. Apesar de terem seguido carreiras diferentes, eles estão unidos pela dedicação a um dos maiores eventos religiosos e folclóricos do País: a Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes. O primeiro a se envolver com a programação foi Fernando, que atuou como festeiro em 2008 e depois se tornou diretor de eventos na Associação Pró-Festa. Hoje ele é coordenador de quermesse, responsável pela documentação, montagem e desmontagem de todas as 31 barracas que podem ser conferidas no Mogilar. Já José Carlos assumiu o café da alvorada em 2008, foi capitão de mastro em 2011, festeiro em 2013 e agora atua também como tesoureiro da diretoria. Como eles dizem, a agenda “está enraizada na família desde que a alvorada envolvia de 15 a 20 pessoas”, e sendo assim, nesta entrevista ambos compartilham histórias e sentimentos colecionados ao longo de tanto tempo como voluntários.

Na visão de quem está há tanto tempo envolvido, qual é o significado da festa?

José Carlos (À direita): A festa é uma preparação para o dia de pentecostes, então existe a parte religiosa, a cultural e folclórica e também a social, que consiste em ajudar diferentes entidades. Claro que a religiosidade é muito importante, mas as outras atividades têm adquirido muita força. Esta é a maior festa do Divino do Brasil, e por isso há uma obrigação em manter as tradições. O poder público ajuda, mas se não houver pessoas com vontade e benevolência não dá para continuar. Ainda que a realidade não seja mais a mesma, muita gente confunde o passado da agenda com o atual. Antigamente, quando era realizada em frente a Catedral de Santana e acontecia somente num final de semana, as coisas eram realmente doadas. Para se ter uma ideia, a Associação Pró-Festa comprou, nesse ano, seis toneladas de abóbora, e as doações para a quermesse representam agora cerca de 1% do total. O que prevalece é a fé.

O que acham que fez a festa de Mogi tornar-se tão grande?

Fernando (À esquerda): Toda Igreja Católica festeja Pentecostes, mas Mogi faz isso aparentemente com mais fervor. É preciso ter um cuidado muito grande para propagar o amor. Não só na festa, mas principalmente nessa época, temos que estar mais revestidos de amor. Exemplo desse sentimento são meus pais, José Carlos Nunes e Elisabete Santos Nunes, que ano passado decidiram receber o Divino na casa deles. Minha mãe viria a falecer alguns meses depois, e portanto, estava muito debilitada. Perguntei a ela se realmente queria isso, mas ela insistiu e aconteceu. Quando cheguei lá era como se eu tivesse cinco anos de idade, vendo tudo aquilo. Ao ver meus pais fazendo tudo como há muitos anos, passou um filme da minha infância, e foi maravilhoso.

Como a Festa do Divino entrou na vida de vocês?

Fernando: Nossa avó materna, Emília Pinto de Godói, sempre participou da festa em Mogi, mas antes a mãe dela, Tereza Maria de Jesus, já era ligada às atividades do Divino Espírito Santo em Biritiba Ussu. Quando veio para o Centro nossa bisavó continuou devota, e daquelas que fazia a bandeira na mão. Depois que ela faleceu, nossa avó se tornou mais participativa, e uma das alegrias dela era me levar para a novena. Como sou mais velho nessa época eu ia sozinho, e entre o final da década de 1970 e começo da década de 1980 comecei a participar das alvoradas, que não tinham mais do que 50 pessoas. Em 1987 tive que dar uma parada, porque meu cunhado se envolveu num acidente em que faleceram minha cunhada e meu concunhado, mas no próximo ano voltei para as alvoradas, e aí o Júnior (José Carlos) já começava a ir também.

E quando vocês se tornaram voluntários no evento?

Fernando: Em 2001 fui convidado para ajudar no café da alvorada, quando a coordenadora era a Dona Rita. Deixava ela à frente, mas corria atrás de pão, café e mortadela. Foi assim até 2008, quando eu e minha esposa fomos chamados para ser festeiros. Então ofereci a responsabilidade do café para meu irmão, que aceitou de pronto. Ao longo da vida há alguns sinais que temos que fazer como Maria e responder “sim” ao invés de ficar indagando, e aquele foi um destes momentos.

Aliás, como é ser voluntário?

José Carlos: Ser voluntário é doar parte do próprio tempo, então a partir do momento que se aceita essa proposta, descobre-se uma correria que na hora pode até deixar a gente meio nervoso, mas é uma coisa boa, pois nos sentimos bem em ajudar. Em 2008, quando eu entrei no café da alvorada, a média era de 500 à 600 pães por dia, e hoje o número passou para 1800 pães por dia. Aliás, hoje posso dizer que 95% do que acontece no café é doado, como os 500 quilos de mortadela. Atuar como voluntário é muito gratificante, não só pelo meu envolvimento mas também pelo de toda a equipe, que soma praticamente 55 pessoas. Nosso objetivo é servir, então atendemos com um sorriso todos que estiverem na fila.

A palavra que fica então é “dedicação”?

José Carlos: Sim. Vejo tudo com bons olhos. Não são todos que saem de sua casa de madrugada para rezar e pedir. Muita gente acorda cedo para agradecer, e ouvimos muitas histórias, principalmente quando se é festeiro, quando pessoas vem conversar e explicar promessas feitas ao Divino Espírito Santo. A dedicação e devoção desse pessoal é muito forte, e isso acaba transferindo para nós.

E como é poder contribuir para a manutenção de diferentes entidades?

Fernando: Sem amor não há nada disso. Por isso não dá para se prender nos preços dos produtos da quermesse, que as pessoas insistem em comparar, dizendo que estão caros. É preciso parar para saber como as vendas ajudam as entidades, como para o Instituo Pró+Vida São Sebastião, em que a renda contribui para o pagamento dos funcionários que ajudam os idosos. É muito fácil doar algo, como uma blusa, mas a maioria das pessoas não se preocupa em saber quem vai usar aquela peça de roupa, como é o dia a dia das entidades. “Oração” é orar e agir, então não se pode esquecer de agir. Por isso nesse ano temos 27 entidades divididas em 31 barracas de alimentação, 12 de expositores e 9 da administração, já incluindo polícia, sala médica e expediente.

A festa provocou mudanças em vocês?

Fernando: Sim. Em 1987, quando faleceram minha cunhada e meu concunhado, fiquei na porta da catedral e não entrei. Todos temos momentos de revolta, e eu estava olhando para uma imagem de Cristo na cruz, conversando baixinho com ele, pensando em várias coisas ruins que tinham acontecido comigo, como este acidente e uma queda que deixou meu avô em coma por 30 dias. Mas a gente esquece que é preciso estar preparado para a vida, que não é só feita de coisas boas. Existem situações que contribuem para o crescimento da gente, e enquanto eu brigava com a imagem senti uma pessoa me cutucando. Era o Mário, sacristão da época, que me entregou uma oração do papa Paulo VI em louvor ao Espírito Santo, texto que pedia por um coração grande e forte para poder suportar a tudo e a todos. Então me lembro como se tivesse levado um tapa na cara. Mudou minha vida, tanto que na festa de 2008 coloquei esta oração em meus santinhos.

E o que dizer sobre as experiências com os devotos?

José Carlos: São muitos relatos, muitas coisas, mas o que mais me toca em relação aos devotos é que eles param para conversar conosco dentro da igreja e no café, contando de doenças, por exemplo. Me lembro de uma senhora, na novena, que não enxergava, e fazia questão de pegar a bandeira e passar no rosto todo dia. Ela ia fazer uma cirurgia na vista, e depois de seis meses do término da festa encontrei-a na rua, agradecendo ao Espírito Santo pela volta parcial de sua visão. Outra passagem é do ano passado, quando uma rezadeira, Dona Albertina, estava muito mal, hospitalizada, e o médico disse que ela não tinha muito mais tempo de vida. Meu maior espanto foi encontrar com ela no primeiro dia de alvorada, andando e dizendo “Você acha que eu ia perder isso aqui?”. Depois da programação ela voltou a ser internada e hoje continua muito debilitada, mas sentia que precisava estar ali naquele momento.