EDUCADOR FÍSICO

João Gabriel Dias Clemente: ‘Exercícios são fundamentais durante a quarentena’

João Gabriel Dias Clemente é atleta e educador físico. (Foto: Elton Ishikawa)
João Gabriel Dias Clemente é atleta e educador físico. (Foto: Elton Ishikawa)

Além de lavar as mãos com frequência, evitar o contato físico com outras pessoas e ficar o máximo de tempo possível em casa, durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus, quem pratica atividades físicas deve manter este hábito, para manter a boa imunidade do organismo. Como, onde e quando fazer isso é o que explica, nesta entrevista, o atleta e educador físico João Gabriel Dias Clemente, que recomenda exercícios leves, principalmente atividades cardiorrespiratórias, como caminhadas e passeios de bicicleta.

Por que manter uma rotina de exercícios durante essa época de quarentena?

A prática da atividade física, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um dos fatores que vão em contrapartida ao coronavírus, como parte das medidas protetivas existentes. Além disso, ela aumenta a imunidade do corpo e libera hormônios que ajudam a manter a saúde em dia. A única ressalva é não se aglomerar, e não ter um treino com volume/intensidade muito altos, justamente para não abrir uma janela imunológica.

O que isso quer dizer?

Quando se pratica exercícios em excesso, abaixa-se a imunidade por um determinado tempo. Por isso, quem corre 42 quilômetros, por exemplo, precisa reduzir o volume de treino, porque é um algo intenso. Mesmo que seja condicionada, essa carga gera um stress e deixa mais vulnerável a ação de vírus, não só o coronavírus, mas outros que existem em tempos normais. É muito comum ver um atleta terminar uma prova e passar uma semana doente, com gripe.

Pode dar um exemplo mais cotidiano?

Uma situação que se encaixa para a maioria das pessoas: um senhor de idade, que vai na academia três vezes por semana. Primeiro, não se deve ir à academia; Segundo, se faz de três a quatro vezes, deve reduzir para duas, com intensidade mais baixa, tentando trabalhar outras variáveis. Quem faz musculação não tem mais onde puxar peso, já que até as academias dos condomínios fecharam, então precisa trabalhar flexibilidade, equilíbrio, propriocepção, o que pode ser feito no tapete de casa, ou num colchonete.

Então não deve-se deixar de fazer exercício, mas sim atentar para não o fazê-lo em excesso?

Isso mesmo, para não deixar essa janela imunológica aberta, mantendo todos os níveis em dia. Mas quem não treina não deve começar agora, para não sofrer as consequências do início do treinamento. Quem já tem esse hábito deve diminuir todas as variáveis, e ressalvo a necessidade de procurar de um nutricionista, pois é interessante manter uma dieta equilibrada, com alimentos que aumentam imunidade, que é a palavra da vez, como vitamina C, termogênicos, gengibre, oleaginosos, óleo de coco, e vegetais escuros, que são fáceis de fazer e têm mais ferro que os claros.

Onde e de que forma as pessoas podem treinar?

Em casa é tanto recomendado quanto na rua, mas existe uma diferença técnica. Quem é experiente vai conseguir treinar na sala de casa, pois vai ter criatividade e já sabe treinar. Agora, alguém iniciante e os mais idosos não vão ter essas técnicas para saber quais os exercícios mais apurados, então devem procurar uma praça e preferir caminhadas. Como o coronavírus ataca principalmente o sistema respiratório, a atividade cardiorrespiratória sem dúvida é a melhor, principalmente caminhada e bicicleta, que são de fácil acesso e podem ser feitas entre o caminho de casa e uma praça, mas nunca num ambiente fechado.

Quem não tem tanta experiência deve buscar ajuda profissional?

Deve procurar um profissional regulamentado pelo Conselho Regional de Educação Física (Cref). Isso porque antes do coronavírus devem ser consideradas outras coisas. Não dá para ficar “pulando em cima do sofá” ou fazer algo errado, porque a pessoa vai se lesionar, e depois terá de tratar a lesão. Claro que uma vez que o movimento é feito errado dificilmente vai gerar uma lesão. Mas se fizer repetidas vezes, em vários dias da semana, como ficará até o final da quarentena?

Em caso de treinar na rua, quais as recomendações?

Evitar horários de pico de público, como 7 horas, 19 horas e 20 horas e horários de pico de sol, mas aí já não é nada relacionado ao vírus, e sim um cuidado básico. Não adianta só pensar no Covid-19. Esses dias mesmo vi um senhor treinando ao meio dia. Expliquei que se ele fizesse atividades físicas ao sol abaixaria a imunidade, por causa do calor. Isso sem falar no câncer de pele, e de tantas outras coisas antes do vírus.

As Academias da Terceira Idade (ATIs) são opções?

Eu acho viável sim, principalmente se o praticante puder usar uma luva de academia. Além disso, é imprescindível seguir orientações de higienização com álcool 70% e lavar as mãos da forma indicada pelos imunologistas.

Existem particularidades para quem está inserido nos grupos de risco do coronavírus?

Sim. O público específico da zona de risco já tem patologias existentes, como hipertensão, diabetes e cardiopatia, e portanto está mais predisposto a contrair o coronavírus. Para essas pessoas, sem dúvida a recomendação é treinar em casa, sem exposição, e claro, continuar cuidando das patologias, não focando 100% da atenção no Covid-19. É preciso ter cuidado, porém, para que diabéticos não fiquem em casa comendo doces para aliviar o stress, ou que hipertensos comam churrasco todos os dias, além dee sempre tomar as medidas preventivas necessárias neste tempo de quarentena, que são bem simples.

Que exercícios são recomendados para se fazer dentro de casa?

Quem for treinar em casa precisa procurar exercícios mais fáceis, de execução simples. O abdominal é interessantíssimo, a prancha isométrica também, e de fácil execução. Para quem tem mais experiência é recomendado o agachamento, que pode ser o “sentar e levantar” para os idosos; também a flexão de braço, que pode ser feita num tapete ou numa almofada; polichinelos, subir a escada dos condomínios, desde que não estejam lotadas… E, se for possível, recomendo a compra de elásticos próprios para exercícios, que são muito baratos e permitem muitas técnicas diferentes.

Quais os benefícios proporcionados por uma rotina como essa?

As atividades funcionam como uma válvula de escape, vão abaixar os batimentos de repouso, trazendo mais calma. Também vão aumentar o fluxo sanguíneo, liberar serotonina e endorfina, mas neste momento é preciso ter cuidado para não exagerar e liberar adrenalina. Outro benefício é manter a massa magra ativa e ainda possibilitar momentos em família. Afinal, quando o filho começa a se exercitar, os pais passam a acompanhar, e se essa prática passar de 14 dias, vai virar um hábito, e depois da quarentena todos sentirão falta.


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