ENTREVISTA DE DOMINGO

João Sartorato, o homem que viu Mogi crescer

A uma semana de completar 84 anos, João Sartorato conta como foi a expansão do centro urbano de Mogi. (Foto: Eisner Soares)
A uma semana de completar 84 anos, João Sartorato conta como foi a expansão do centro urbano de Mogi. (Foto: Eisner Soares)

Houve um tempo, João Sartorato mesmo não viu, mas ouviu dizer, em que as águas do rio cobriam o chão da cidade até onde está a Estação de Trem. Em uma das últimas casas da rua Cabo Diogo Oliver, ainda batizada pelo nome do verdadeiro dono do pedaço, o Tietê, a vida da família criada pelo italiano Angelo Sartorato, o Angelim, pai dele, era marcada pelo avanço e recuo do abraço dado pelo rio à parte baixa cidade. Era uma localização estratégica. A rua Tietê estava no corpo de um dos antigos caminhos de passagem de cargas levadas no lombo de animais com uma preciosidade, a exclusiva ponte de madeira que unia Mogi das Cruzes, rota entre o litoral e o planalto paulista, e as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro. Do Sertão dos Freires, na Serra do Mar, saíam madeira e carvão, fontes da economia mogiana. Essa era a única ponte da cidade. Ali foi aberta a primeira “bigorna do Angelim”, a oficina de ferragem chamada pelo nome do instrumento manejado para aparar os cascos dos cavalos usados para o transporte de mercadorias e pessoas até a chegada das quatro rodas. Apague do pensamento o que se tem hoje nesse território central. Não tinha o Mogilar, nem o seu recheio de ruas. As charretes estacionavam em frente ao Hotel Carioca, acima de onde agora passam os carros, no Complexo Viário Jornalista Tirreno Da San Biagio. Os peixes eram fartos. Os meninos brincavam na rua. As visitas a casas de parentes, aos domingos, e evento como a Semana Santa, eram os programas das famílias. Na seguinte Entrevista de Domingo, João Sartorato, um dos primeiros assinantes de O Diário, compartilha a história pessoal que, na semana que vem, ganha novo dado, os 84 anos de vida, e tece uma colcha de memórias e saberes sobre Mogi das Cruzes:

O senhor nasceu em Mogi?

A minha família morava no Sertão dos Freires. Os meus avós paternos (Gervásio e Candinha) vieram da Itália, primeiro chegaram em Itu e depois se instalaram em Mogi. Os meus avós maternos eram espanhóis (João e Josefa Gimenes), trabalhavam com o carvão e a madeira. As duas famílias eram vizinhas. Quando eu nasci, minha mãe deu à luz, em Mogi, na casa de minha avó, na Rua Engenheiro Gualberto. A parteira foi a dona Garcia. Os dois primeiros anos eu vivi na fazenda mas, depois disso, minha mãe veio morar em definitivo na Rua Tietê (a atual Cabo Diogo Oliver).

Como era essa rua?

Era tudo várzea, campo, quando chovia muito, água tomava conta de tudo, e só depois de alguns dias, o Tietê ia embora. A nossa casa era uma das últimas, e tinha alguns moradores, como a família do Mauricio de Sousa, em uma vila. O meu avô teve uma primeira oficina e depois construiu uma maior, um pouco mais para frente, onde se estabeleceu até os anos 1960, quando se aposentou. Ao lado tinha a Vila Ferreira, com algumas casas, havia uma lagoa, onde funcionava uma olaria e se retirava areia ao lado do Tietê. Hoje, é onde está o estacionamento do Clube Náutico.

Por causa da profissão, o senhor Angelim era muito conhecido?

Sim, porque ele ferrava os cavalos e também abriu um bar, ao lado. Então, os sitiantes do lado da Serra do Itapeti, e também quem chegava a cavalo ou tinha animais, o procuravam. Ele também fazia outras ferramentas, usadas por pessoas, como os trabalhadores da estrada de ferro. Perto da oficina dele, tinha uma coisa sinistra. Ali ficavam amontoadas as mortalhas, normalmente cobertores e panos usados para carregar quem morria longe e vinha para ser enterrado na cidade. Quando chegava naquele ponto, os corpos ficaram esperando os caixões serem feitos, e, depois disso, as mortalhas eram jogadas fora. A meninada e todo mundo tinha muito medo, era um lixão de mortalhas.

Na Rua Tietê, ficava a única ponte da cidade?

Era isso mesmo, não tinha nada, nem o Mogilar e nenhuma outra das pontes que hoje cruzam o rio (José Meloni, Cavalheiro Namie Jafet, Carlos Ferreira Lopes). Essa ponte era de madeira, mas isso era muito antes de ser construída a Rodovia Mogi-Dutra, aquilo era um caminho de burro, animais de carga e dos carros de bois, que seguiam pela estrada Rio-São Paulo. Eu passava por ali para ir para a minha primeira escola. Antes de estudar no (grupo escolar) Coronel Almeida, a minha mãe pediu para a professora Iraci, e eu fui estudar em uma casa do outro lado da ponte (hoje o bairro da Ponte Grande), onde havia o Armazém do Margarido e a igrejinha.

Até quando, o seu avô trabalhou com os cavalos?

Até se aposentar, por volta de 1960. Ele era muito conhecido, por isso, quando o Chico Ornellas, falou sobre ele, na coluna do jornal, da semana passada, muita gente se lembrou. As charretes e as carroças ficavam em pontos estacionados, como os de táxis, alguns anos depois. Um desses pontos era no Hotel Carioca, em frente à estação, onde funcionou, depois, um posto de gasolina (e agora está a passagem subterrânea). Naquela região funcionavam uma fábrica de farinha de milho, e uma outra, de fubá, passando um pouco a Rua Casarejos.

E a família, como era?

Quando eu tinha 12 anos, a minha mãe, Francisca Gimenes, morreu, e as minhas irmãs cuidaram de tudo, da casa, de mim, durante dois anos, até que o meu pai se casou, mas a segunda mulher logo faleceu. Depois, ele se casou pela terceira vez. Meus irmãos são Flora, Leila, Gloria, Angelino (já falecidos) e Isabel. Quando minha mãe era viva, a casa era sempre cheia, aos finais de semana, quando meus tios e avós vinham de São Paulo para nos visitar e almoçar. Depois que a mãe morreu, desapareceu todo mundo.

Como era a oficina de ferragem?

Meu pai não deixava a gente entrar lá, porque era um trabalho perigoso. Ele mesmo sofreu acidentes, quebrou o braço, os animais ficam assustados, e ele tinha de ser duro, com o chicote. E como saía a faísca do fogo, criança não chegava perto.

O que mais se lembra da infância?

Das festas, da procissão do Encontro (na Semana Santa), entre a Matriz e a Igreja do Rosário. Todos eram católicos. Quando eu era criança, os estudantes eram obrigados a ir à missa, e cada uma ganhava uma carteirinha e tinha de receber os carimbos para, no final do ano, ganhar um brinquedo das freiras do Instituto Dona Placidina. Eu ia pouco à missa, mas fui com os três carimbinhos. Eu ganhei um passarinho, com uma varetinha. Quem ia sempre à missa, ganhava bola, boneca, eu não (risos). Também me lembro de acompanhar a passagem de muitas pessoas, que vinham de São Paulo, no dia 1º de Maio, Dia do Trabalhador, para ir até a Gruta de Santa Terezinha, na Serra do Itapeti. Eram muitas pessoas que desciam do subúrbio, e subiam pela Rua Tietê, passavam a ponte, e seguiam a pé, para o Jardim Aracy.

E quais eram os seus passeios?

Minha avó, Josefa, era mascate. Ela comprava tecidos, roupas, camisas, toalhas, em São Paulo, e vendia, na caderneta, aos moradores da roça, no Sertão dos Freires, e de outros lugares de Mogi. Quando eu tinha uns 10 anos, ela me levava para fazer compras em São Paulo. Íamos de trem.

E as cheias do Tietê?

Antes, as águas – eu não vi, mas diziam – chegavam até a Estação de Trem. Eu vi chegar até antes desse ponto. Mogi era uma baixada e as enchentes começaram a diminuir somente depois da construção da primeira barragem, em Salesópolis. Eu tive tanto trauma que, quando fui comprar a minha casa, fui morar na Vila Lavínia, que era um lugar mais alto, e na minha rua, só havia duas outras casas já construídas.

O que se lembra dos períodos da Segunda Guerra?

Dos blecautes, da falta de energia, de um soldado tomando conta das ruas, e todo mundo ficando dentro de casa, no escuro, depois que o Brasil entrou na guerra. As pessoas tinham medo de bombardeios aqui, ficou todo mundo amedrontado.

Quando se casou?

Em 1962, com a Odete, que morava em Guararema, na Freguesia da Escada, mas veio morar em Mogi. Nos conhecemos nos passeios ao redor da Praça Oswaldo Cruz, e os amigos foi que me empurraram para ela. Sempre fui muito, muito tímido, calado.

E foi morar onde?

Construí dois cômodos nos fundos da casa do meu pai e quando chovia, saíamos de casa. Nós tínhamos um esquema, fazíamos comportas, colocávamos os móveis em cima das mesas e da casas. Quando chovia muito, eu pegava o colchão da cama, colocava em cima do carro, e ia com a minha família para a casa de meus sogros, Estel e José Pinto. Era muito sofrimento. Eu queria morar o mais alto possível.

Como era o Mogilar?

Não tinha nada, um campo. Aquilo tudo pertencia ao Avignon, que loteou o Mogilar, quando diminuíram as enchentes. Eu mesmo comprei um lote, para ajudar o time do Tietê, que para conseguir o campo, prometeu vender os lotes, como parte da troca. Depois, o Avignon teve uma morte trágica. Ele tinha um sítio, na serra, e foi cobrar do vizinho, que construiu o muro em uma parte do terreno dele. Os dois discutiram e ele acabou levando um tiro. Quando o corpo dele veio para a cidade, os pés ficaram de fora da carroça, porque ele era um homem muito alto. Era uma morte ou outra apenas. Outro caso que provocou revolta foi quando um menino que estava pescando no rio Negro, antes de chegar no Tietê, numa boca de cano. Ficava uma fila com mais de 20, 30 pescadores, e baixaram uma lei dizendo que não podia pescar ali. O povo se revoltou e as pessoas queriam derrubar a delegacia. Era um menino, de 11 anos.

Onde o senhor trabalhou?

Trabalhei na fundição da Cosim, onde o Waldemar (Costa Filho, ex-prefeito) foi diretor, e também em empresas como a Pianos Schwartzmann, a Vergara, a Indústria Maluf, em Suzano, e também em São Paulo e em Guarulhos. Estou aposentado, mas até dois anos atrás, eu ainda trabalhava.

O senhor viu a construção da Mogi-Dutra, da Mogi-Bertioga, a construção da vila de casas dos trabalhadores da Mineração Geral do Brasil…

Vi mesmo. Se for comparado a hoje é como ver o vazio ao lado da Avenida das Orquídeas, aberta na semana passada, se encher de casas e ruas. Antes, ao lado da Rrua Tietê, era tudo mato, não tinha rua, não tinha nada. E aí alguém falava, vão construir uma estrada entre Mogi e São Paulo, a Mogi-Dutra, e depois, uma outra até a praia, até Bertioga. E a gente esperava. Depois, íamos visitar a obra porque ir para Santos era muito longe, era uma aventura. Mogi teve bons prefeitos, o Carlos Alberto Lopes, a família do Jacob Lopes, e o Waldmar, que foi um dos principais

O que mais gosta de Mogi?

Sou apaixonado por Mogi. Tive de morar, a trabalho, em Santo André, e não gostei nada. Aqui eu conheço tudo.

O que falta em Mogi?

Limpar o rio Tietê. A gente nadou no Náutico, tinha canoagem, natação, aquilo ali tinha muito peixe, ninguém vê a poluição do rio, não há interesse dos políticos. Também falta terminar a Via Perimetral.

Jogou futebol? Tinha um apelido?

Fui goleiro e joguei pelo Tietê, Vila Santista, Kosmos, o Mogiano do Socorro. O pessoal me chamava de Batata. E quando tinha uma partida, me chamavam em casa e eu ia. E as comemorações eram no Bar do Norton, na esquina da Casarejos com a Tietê, perto da casa onde minha esposa morava. Joguei muito, mas parei com tudo, quando casei. Havia um campo do Kosmos, no Mogilar, onde está hoje o supermercado Extra. Só depois o clube dos japoneses foi para a Via Perimetral.