ENTREVISTA DE DOMINGO

Joel Rodrigues Alves, um professor que vive o século XXI

Joel Alves é o entrevistado de domingo. (Foto: Eisner Soares)

Professor de inglês quem migrou da carteira de aluno para a de diretor de uma escola de línguas, Joel é o décimo primeiro dos 12 filhos de Tercília e Ademar Rodrigues Alves. A mãe, dona de casa, entre outros valores, ensinou o olhar para o outro: cuidadosamente ela amassava a beirinha das latas de marmelada, onde servia o almoço quando alguém batia à porta e pedia um prato de comida. O pai, chefe dos Correios, legou ao filho o gosto pela literatura, poesia, a curiosidade pelo mundo. A grande família morou de aluguel, em endereços na Ponte Grande, Mogilar e Vila Industrial. Joel chegou a Mogi aos 40 dias, quando o pai foi transferido de Cambuí (MG) para cá. Estudou nas escolas estaduais Adelino Borges Vieira, Leonor de Oliveira Melo e Francisco Ferreira Lopes. Cursou duas faculdades nas universidades Braz Cubas (UBC), Tecnólogo em Processamento de Dados, e de Mogi das Cruzes, (UMC), Letras. Um dos primeiros empregos foi aos 12 anos: porteiro da perua escolar dirigida pelo primo, João Galvão Alves. Nos anos 1990, ele e a esposa, Maria Helena Lanci da Silva, reservavam parte dos salários que recebiam na rede pública estadual para cursar o inglês. Seria um caminho sem volta para ambos. Proprietários da unidade do Yázigi na Vila Oliveira, Joel e Helena acompanham a terceira geração de estudantes e as mudanças no perfil do ensino que transformaram o aluno em protagonista e o professor em orientador, num papel completamente diferente do que viveram, quando alunos do ensino público e particular. A O Diário, o professor Joel traça um panorama da educação e da transformação provocada pela tecnologia, uma realidade que infelizmente, acredita ele, demora a chegar a toda rede pública brasileira. “O professor não deve falar ‘guarda o celular’, ele deve dizer, ‘pega o celular e vamos pesquisar tal coisa, criar um projeto’”. Confira a entrevista:

Como seu pai chega a Mogi?

Meu pai, Ademar Rodrigues Alves, era supervisor, o chefe dos Correios, e sempre era transferido de cidade a cidade. Quanto eu tinha 40 dias, ele veio para Mogi, onde viveu a maior parte do tempo, depois dos anos 1960. Meus avós paternos (Maria do Carmo e José Alves) e maternos (Maria e Benedito Alves de Toledo) eram de Cunha. Meus pais tiveram 12 filhos. Eram de um outro tempo, me lembro de minha mãe, e também do meu pai, amassando a beirinha das latas de doce de goiabada, onde minha mãe servia a comida a quem batia na porta e pedia um prato de comida.

Seu pai foi revisor do jornal?

Sim, do jornal O Diário, no período de jornalistas como o Moura Santos, depois que deixou os Correios. Ele foi um leitor voraz, gostava de literatura, conhecia autores, mas não de maneira superficial, gostava de música clássica e também de violino. Hoje, ele seria a minoria que tem facilidade para aprender. Com a minha mãe, eu aprendi sobre a simplicidade, o cuidado com o outro, em um tempo que as relações permitiam isso

Como nasceu o gosto pela língua inglesa?

Trabalhei na Corning, em Suzano, de 1990 a 1996, e fui funcionário público concursado, durante a implantação do Escritório Regional de Saúde (Ersa13), e ali eu coordenei, quando a enfermeira Olívia Nisie, era a diretora, os concursos públicos que criaram a estrutura anterior à implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). No final dos anos 1990, eu me matriculei, e a Helena, também, na escola Yázigi, do professor Paulo Serteck. E fiz o caminho a partir do gosto das músicas e bandas inglesas. Gosto de rock. Começamos pensando em aprender um pouco, o básico. Mas vieram os cursos “intermediário” e “avançado”, e fomos continuando, até que um dia recebi o convite do Paulo (Serteck) para ser professor. Não planejei essa atuação, aconteceu. Algum tempo mais tarde, estava na coordenação da escola. Quando ele decidiu deixar o negócio, em 2007, assumimos a escola. Hoje, ele vive no Canadá.

Qual é a diferença da sala de aula que você estudou inglês para a atual?

A forma de apresentar o conteúdo deixou o papel por causa da tecnologia. As aulas passaram a usar outros recursos, vídeos, o celular, e o aluno chega com uma bagagem porque ele vivencia a língua inglesa desde criança, muito mais cedo do que anteriormente, por vídeos, jogos, o acompanhamento de youtubers. A instalação da maioria dos aplicativos e equipamentos é feita com indicações em inglês. Além disso, uma parte da crianças, na escola, começava a ser alfabetizada nas duas línguas, ao mesmo mesmo. A partir dos três anos, com aulas usam linguagem oral, as figuras e a escuta. Quando uma criança tem essa experiência de ensino mais cedo, com 13, 14 anos, ele obtém a proficiência.

Como era o aluno nos anos 2000, e como ele é agora, a seis meses de 2020?

Em 2000, ainda valia a máxima de que o professor era o protagonista, tinha uma posição acima do aluno, tinha a oratória, era colocado em um pedestal. Hoje, não, o aluno requer um professor que viva do século XXI, que usa a tecnologia, e saiba que não é apenas ele o detentor do conhecimento. Ele também aprende com o aluno. A um clique no celular, os conhecimentos estão no ‘Google’, então, o professor não pode dizer, “guarda o celular”, ele deve dizer, “pega o celular e vamos pesquisar como surgiu tal coisa”, como criar um vídeo sobre uma questão atual. E esse parâmetro, encontrado na educação 3.0, desconstrói o mito do professor como autoridade máxima. Ele é o orientador, está à frente ao aluno, mas também aprende com o aluno. E aqui a educação encontra a resistência, inclusive, de muitos professores.

Na educação regular, essa defasagem ainda é mais sentida?

Sim, mas em um momento, a educação irá se atualizar, mudar. Países na vanguarda da educação, Finlândia, Coreia do Sul, outros, mostram que a educação tem de ser para o aluno e o aluno da geração atual é outro, é tecnológico, busca respostas rápidas.

O seu público é, em grande parte jovem e em uma fase de mudanças. Como é trabalhar com as gerações atuais?

Ele é um jovem que requer escuta, muita escuta, porque vivencia momentos que podem ser temporários, como o uso da bebida, a descoberta do sexo. Eu sempre trato as questões sem preconceito e oriento, sobretudo sobre os riscos que determinados comportamentos podem trazer. Também é um jovem que se engaja em ações sociais ou discussões importantes quando convidado a fazer isso. Na escola, nós trabalhamos a campanha “desencanude-se”, que acabou de se transformando em lei, inclusive em nossa cidade. E quando nós propusemos aos alunos a fazerem vídeos, a pensar sobre o assunto, a maioria se engajou. O mesmo fizemos com outra ação pela proteção do planeta, que foi o fim o uso do copo plástico dentro da escola. Eles sabem que isso não é frescura, é uma necessidade para se preservar a terra e é algo que precisa ter um início. A educação tem o papel de transformar positivamente a realidade.

Você começou a trabalhar com que idade?

Aos 11, 12 anos. Era o “porteiro” do meu primo que possuía uma perua escolar e ele precisava de alguém para fechar e abrir a porta da Kombi. Depois, aos 15 anos, trabalhei como auxiliar de escritório da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial), mas eram outros tempos.

Há pessoas que não conseguem falar em inglês?

Entre os adultos, há os que têm dificuldades. O ritmo, por exemplo, de quem nunca estudou uma nova língua aos 60 anos, por exemplo, será outro. O aprendizado também depende da disciplina e vontade do aluno.

Há pessoas mais idosas estudando?

Nós nunca usamos essa palavra (idoso), são pessoas adultas que procuram uma nova língua. Há mais pessoas aos 60, 80 anos, que buscam o aprendizado para fazer viagens. A interação dos brasileiros em outros países mudou muito nos últimos 10, 20 anos. São pessoas que convivem com netos e filhos que passaram a trabalhar e a viver em outros países, e as visitas aos familiares passaram a exigir esse aprendizado. É uma característica da nova maturidade, e dos hábitos dos cidadãos do mundo. Nós tivemos um aluno, um empresário que recebia estudantes de outros países em casa, por meios dos intercâmbios internacionais que, aos 80 anos, começou a estudar para se comunicar com os jovens de outros países.

O inglês é a língua de domínio internacional. Isso se manterá?

Eu não consigo responder isso. Hoje é, e há alguns estudiosos que apontam para o crescimento do mandarim, no futuro. Hoje, é a língua franca para a ciência, a comunicação e a interação social. Na verdade, eu sou um purista e não gosto dessa ideia, de mudanças na língua portuguesa, por exemplo. A língua é um recurso de comunicação para as pessoas de todas as classes sociais. Nas nossas famílias, brasileiras, há os tios e avós que dizem, “nós fomo”, e exercem a comunicação, que não exige a linguagem formal. Na questão nacional, os países têm e devem conservar suas identidades , a língua une um povo, confere a unidade de uma nação.

O domínio da língua influencia o mercado de trabalho?

Cada vez mais e para determinados campos de atuação é fundamental. Nós recebemos retornos de alunos que se destacam em vestibulares, concursos e disputas de postos de trabalho por causa do conhecimento e domínio da escrita, fala e escuta da língua. Quando um pai ou uma mãe, chega na escola, para dizer ‘o meu filho’ conquistou algo por causa do inglês, eu fico orgulhoso, quero dizer, eu fico feliz.

As escolas físicas estão ameaçadas pelos cursos online?

Eu penso muito nessa questão e acredito nos resultados de um bom professor que detenha conhecimento e a sistematização do ensino. Tive um caso de um estudante que fez um teste online, e o resultado era de um aluno de um nível muito superior à média. Na entrevista pessoal, ele contou que teve apenas o inglês na escola, mas acompanhou aulas online, e os resultados dele foram surpreendentes. Mas, essa não é a regra.

O que falta em Mogi?

Um povo mais humano, que conviva mais em espaços públicos dedicados à cultura. Um novo Sesc será muito importante para oferecer programação cultural de qualidade gratuita ou a preço baixo. Nós temos alguns espaços novos, como o Parque Centenário, que precisam ser levados para outros pontos da cidade. A cultura, a arte, podem humanizar a cidade.

E o que tem Mogi de bom?

A familiaridade. Aqui eu conheço tudo, todas as ruas, isso faz a cidade possuir uma identidade, e tivemos lutas importantes como a proteção da Serra do Itapeti, e eu gostaria muito de ver, um dia, o Rio Tietê limpo, e o nosso centro histórico preservado. Infelizmente, a cidade crescer em proteger registros que encantam os visitantes de outras tão antigas como a nossa. Mas, Mogi, tem essa familiaridade, os amigos feitos até aqui, como o Antonio Almeida Correia Junior, que trabalha no Ibama, no Paraná, o Waldemar de Sá Azevedo, a Fernanda e o Carlinhos Barrence, e Helena, que sempre estão por perto.

Você disse que está eliminando a palavra orgulho. Por quê?

Nós somos o que falamos, e o orgulho, eu tenho aprendido no Cáritas (Entidade Espírita, que irá completar 50 anos no ano que vem), não é bom, é negativo, porque coloca alguém acima do outro. Por isso, eu estou trocando por ‘eu fico feliz’ diante de algum reconhecimento ou com a alegria do outro.