ENTREVISTA DE DOMINGO

Jonatas Pereira Diniz, o padre da cura e libertação

Padre Jonatas Pereira Diniz. (Foto: Eisner Soares)
Padre Jonatas Pereira Diniz. (Foto: Eisner Soares)

Sabaúna poderá ganhar nos próximos anos um Santuário de Nossa Senhora Desatadora dos Nós e uma clínica para atendimento a pacientes com depressão e doenças psicossomáticas. Este é o plano do padre Jonatas Pereira Diniz, 27 anos, pároco da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, do distrito. Se depender do carisma que conquistou nestes dois anos em que trabalha lá, o sonho tem grandes chances de se tornar realidade. Nascido em Resende, no Rio de Janeiro, onde passou a infância com os pais, o pedreiro Jorge Luiz Diniz e a manicure Ana Maria Rodrigues Diniz, e os irmãos Júlio César, Júnior e Kelly, aos 15 anos ele ingressou no Seminário Diocesano de Volta Redonda (RJ) e depois completou os estudos na Faculdade de Filosofia e Teologia Paulo VI, em Mogi das Cruzes. Ao chegar em Sabaúna, ainda como seminarista, acompanhou o então pároco, Orlando Cruz. Depois de ordenado padre, ele assumiu a paróquia e há seis meses passou a reunir cerca de 3 mil pessoas, vindas de várias cidades, nas noites de quinta-feira para as animadas missas de cura e libertação, assim como nas celebrações em louvor a Nossa Senhora Desatadora dos Nós, toda última quinta-feira do mês. O movimento é tanto que as orações tiveram de ser transferidas do interior da paróquia para o pátio externo, a fim de que todos tivessem pudessem acompanhá-las. Além disso, recebe dezenas de pessoas por dia que o procuram para bênçãos, conselhos, orientações, desabafos e confissões. Andando pelas ruas todo de preto, com batina e chapéu desde cedo até a noite, ele atende a todos e defende que é papel da Igreja acolher as pessoas, ouví-las e entendê-las. Na entrevista a O Diário, ele, que tem os padres Marcelo Rossi e Jonas Abib, da Canção Nova, como ídolos, fala de suas metas, de assuntos polêmicos abordados pelo papa Francisco, como celibato, aborto e homossexualismo e conta sua história de vida:

Como chegou a Sabaúna?

Aos 15 anos, entrei no Seminário Diocesano de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, onde estudei nove anos. Vim para Mogi das Cruzes e fiz mais dois anos na Faculdade de Filosofia e Teologia Paulo VI. Morei na Cúria, fiz estágio em algumas paróquias com o bispo dom Pedro e há dois anos chegue a Sabaúna, onde acompanhei o padre Orlando Cruz. Depois da minha ordenação como padre, continuei aqui e quando ele foi transferido para Jundiapeba, assumi primeiramente como administrador e depois como pároco, em fevereiro deste ano. Tenho compromisso aqui até 2025.

E a ideia de celebrar as missas de cura e libertação?

Cresci neste movimento carismático e desde a infância acompanho isso muito de perto, que é um produto da igreja, resultado do carisma dado pelo próprio Espírito Santo. Isso sempre me atraiu e durante os anos do seminário nunca mudei meu jeito de pensar.

Quais as recordações da infância no Rio de Janeiro?

Minha família é simples. Meu pai é pedreiro e minha mãe manicure e tenho orgulho da profissão deles. A infância foi tranquila. Desde os 13 anos, eu trabalhava na farmácia e como sempre gostei de química, me identificava com as atividades de farmacêutico e creio que se não fosse padre, essa seria a profissão que seguiria. Meus pais nos ensinou a lutar e batalhar para conseguir as coisas. Aos 15 anos, decidi entrar para o seminário e nesta fase meus pais se separaram, mas isso nunca foi um empecilho e jamais desanimei. Eles sempre me apoiaram.

De que forma descobriu a vocação?

A aproximação com a igreja começou quando da minha casa ouvia os sinos e dizia para minha mãe que queria ir onde eles estavam estavam tocando. Ela me levou para a igreja, era um domingo. Gostei, voltei no outro domingo e ela me colocou na catequese. Aquilo foi tão envolvente que quando vi já fazia parte de várias coisas na igreja e logo me tornei coroinha. Aliás, a maioria dos padres foi coroinha, porque a vocação nasce no altar. Fui caminhando cada vez mais ajudando a comunidade. Conheci o padre Carlos Augusto, que era um exemplo, muito simples, humilde, extremamente atencioso e cativava sua fé na eucaristia. Ele tinha uns 60 anos e não deixava de atender a todos. Chegava cansado de andar pela estrada de terra, com a batina suja de barro. Fui me inspirando nesta vocação e seguindo os estudos. De 34 seminarista da minha turma, ficaram apenas eu e mais um. Não é fácil. Alguns desistem, outros a Igreja vê que não têm condições de continuar a caminhada vocacional.

Como vem sendo a receptividade ao seu trabalho, com missas inovadoras de cura e libertação, em Sabaúna?

A receptividade vem sendo boa. Aqui é um local de tradições, de famílias conservadoras, mas sempre gostei de festas. No seminário, quando se falava de uma festa, eu era o primeiro a me candidatar para cuidar da organização. Quando cheguei a Sabaúna, vi que era um distrito bem pacato e que mesmo a vida da igreja era um pouco parada, então procurei movimentar. A missa é uma festa e a eucaristia significa ação de graças. Claro que no começo houve um pouco de dúvida, não digo resistência. Os ministros da Eucaristia são 30 a 40 anos mais velhos que eu e é normal que isso aconteça, mas a receptividade do povo foi boa porque me simpatizei com as pessoas e isso foi recíproco. E cada dia é uma nova conquista. A cada dia você conquista um coração. Não se conquista todos no mesmo dia. Uma jornalista perguntou a Madre Teresa de Calcutá como ela havia salvo tantas almas. Ela respondeu que foi uma por vez, porque em um dia só era impossível. O trabalho na paróquia é assim e eu preciso ter a docilidade de me adequar a este tradicionalismo e conservadorismo. Por isso, as quintas-feiras as missas são carismáticas, mas aos domingos são tradicionais. Preciso atender todos os públicos. Aqui tem missas de terça a domingo e apenas nas quintas-feiras, às 19h30, há a missa de cura e libertação.

Como são estas missas?

Vem gente de todos os lugares, do Paraná, Bahia, Rio de Janeiro, Vale do Paraíba, São Paulo, Minas Gerais…. Todas as quintas-feiras, às 19h30, celebro a Missa de Cura e Libertação, que é bem animada, onde todos cantam e participam bastante, desde as crianças até as pessoas de mais idade. Já na última quinta-feira de cada mês, faço a Missa de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, que é minha santa de devoção e colocou um desejo no meu coração para que distribuíssemos a oração, o óleo santo e um cordão com três nós para que as pessoas desfaçam. Esse óleo tem feito milagres na vida das pessoas, que podem passá-lo nos doentes, inclusive animais, na porta da casa, no local de trabalho, e até fazer comida com ele. O óleo é para necessidade espiritual, emocional, humana, física e financeira. Disponibilizo meu WhatsApp para todo mundo e recebo uma média de 200 a 300 mensagens por dia de pessoas relatando milagres e testemunhos desse óleo santo.

As missas reúnem cerca de 3 mil pessoas. Como vê esta repercussão?

O número de pessoas foi aumentando a cada quinta-feira. Não esperava isso, mas vejo como um presente, uma dádiva de Deus e ação do Espírito Santo. Durante o dia, atendo as pessoas, converso, ouço o que têm a dizer e procuro entendê-las. Há muita gente que vem desabafar, confessar, pedir benção ou relatar milagres. E esse trabalho que está acontecendo só me faz acreditar na graça de Deus e não nos meus méritos, porque sou pecador como todos que vêm aqui. Hoje atendi uma mulher de 36 anos que me disse que não queria mais viver, começou a chorar, e falou que queria se suicidar. Deus já colocou muitas pessoas com depressão para eu atender e busco especializações e formação constantes para usar nesta área. Temos 45 suicídios por dia no Brasil. Estamos no Setembro Amarelo, dedicado ao combate ao suicídio, mas ainda é necessário fazer muito mais. Não sou um mágico e a pessoa não entra aqui e tiro da cartola algo para resolver os problemas dela. Mas Deus me usa na minha vocação para fazer alguma coisa na vida delas para que saiam daqui transformadas. O que acontece aqui não é natural, é algo sobrenatural.

Por que há tantas pessoas em depressão ou com doenças emocionais hoje?

As pessoas estão carentes, precisam de uma palavra, de alguém que as ouça. A Igreja é uma casa e na nossa casa, a gente quer se sentir bem. Os responsáveis pela casa são os pais. Na Igreja, é o padre, que precisa acolher e amar as pessoas. Tenho um ano como padre e já batizei 253 crianças, incluindo casos de filhos de mães solteiras, de pais divorciados e outras situações consideradas irregulares. Outro dia me criticaram, mas tive o cuidado de sentar e escutar família por família para entender seus motivos. Isso é acolher. Hoje ninguém se importa com a dor dos outros e ainda falam que depressão é frescura. A dor deve ser respeitada e entendida. Tenho feito isso sem pressa. Assim como as missas de cura e libertação, que duram três horas. Quem vem doente pela manhã volta curado à noite. Também sou devoto de São João Bosco e tem uma frase dele que diz que Deus nos colocou no mundo para os outros e eu acredito nisso.

A tecnologia aproxima ou separa as pessoas?

Hoje não tem mais aquela coisa dos vizinhos irem na casa dos outros tomarem café e das crianças brincarem na rua. Todo mundo, desde muito cedo, está conectado com a tecnologia. Tem muito fiel que diz que vai à missa porque a assiste pelo Facebook. Tem o lado bom e ruim. O bom é que doentes ou impossibilitados podem acompanhar a missa pela live, mas o ruim é que os que não estão nestas condições não aparecem nas missas. A maioria dessas crises é justamente por causa disso. Os jovens chegam da escola ou do trabalho e se isolam. Não têm contato com os pais e quando fazem as refeições com eles estão com o celular na mão. Não sou contra usar as redes sociais, porque eu também uso. Mas é preciso dosar, caso contrário tem feito muito mal às pessoas, porque a rede social não te faz críticas e é uma fuga. Você vê e curte o que quer e o que te incomoda você bloqueia. Na vida real você não consegue bloquear as pessoas e você pode tentar se esconder, mas uma hora será encontrado. São mundos diferentes.

Qual sua posição sobre temas polêmicos que vem sendo abordados pelo papa Francisco, como celibato, aborto, homossexualismo…

O nosso papa é maravilhoso e é uma resposta ao tempo de hoje. É o papa do diálogo, que quebra protocolos, se reúne com líderes de outras religiões, procura entender as pessoas e acolhê-las. Assisti ao seriado “Pode me chamar de Francisco” e me emocionei com a história vocacional dele. Rezou missa em cima de caixote na favela. Sobre algumas polêmicas, como o celibato, é claro que ele não vai ser extinto, porque é bíblico. Jesus não casou e é por isso que os padres não se casam. Nesta questão o papa não vai mexer. Há pessoas falando sobre isso, mas são achismos. Agora, sobre o aborto, o papa é contra, assim como nós, mas há inúmeras razões de alguém que provoca aborto. O papa Francisco procura entender cada caso porque não é possível dar uma sentença única sem saber o que se passou na vida da pessoa. A questão do homossexualismo, não se pode jamais dizer que é doença. Todos são filhos de Deus.

Quais seus planos?

Quando nascemos já temos um projeto definido para nós. Meu sonho é construir um Santuário de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, igual do padre Marcelo Rossi. Quando era criança eu já me espelhava nele. Se Deus quiser eu vou conseguir. E será um santuário internacional. Ainda não tenho terreno, mas o bispo dom Pedro já abençoou o projeto e já tenho o mais importante, que é o santuário humano, que são os fiéis. O restante vai vir aos poucos. Entreguei nas mãos de Deus e de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, assim como fiz na época em que estava no seminário diante das dificuldades. Sempre fui recebendo sinais e em janeiro deste ano, no Cerco de Jericó, durante sete dias, o número de pessoas aumentava a cada dia até chegar à multidão de fiéis no último deles, debaixo de chuva. Acredito que em cinco anos este santuário e a clínica possam estar prontos. Quero que tudo siga os caminhos normais, nada de errado. Quero morrer usando batina e sapato. Não quero roupa de marca, carro caro, mas sim uma vida modesta e saber acolher e ajudar as pessoas. São Tiago nos disse que em vez de palavras e pedras preciosas é preciso mostrar obras concretas, senão fica apenas no discurso ideológico. Ao lado do santuário será a clínica para pessoas depressivas e com doenças emocionais, que poderão passar ali uma semana, um mês, o tempo que for necessário para se sentirem acolhidas e amadas. Quero salvar vidas.

O padre Marcelo Rossi é um ídolo. Pretende cantar e escrever livros também?

Não tenho vocação para cantar. Com o grupo de música da igreja eu seguro as pontas, mas sozinho não. Mas estou escrevendo um livro e quero lançar até o final desse ano. Chama-se “Desertos não duram para sempre” e fala que todo sofrimento tem começo, meio e fim, que o deserto é um lugar muito quente durante o dia, mas muito frio à noite. Ele vai de um extremo a outro. É um livro para pessoas depressivas, que precisam caminhar pelo deserto, às vezes rastejando e sem forças para ficar em pé, mas assim como no deserto, existe um oásis no final. Com o sofrimento humano também é assim. Passa.

A batina é usada o dia todo?

Faça chuva ou faça sol, quando acordo já visto batina e coloco o chapéu barrete e assim fico até o final do dia. Esta é minha identidade e como tenho 27 anos, se colocar calça jeans e camiseta vou parecer um jovem qualquer. A batina me identifica como padre e as pessoas já me reconhecem. E o chapéu indica a missão do padre de governar santificar e reger.

Já namorou na adolescência?

Posso dizer que tive um namoro de criança, quando era apaixonado por uma menina e levava presentinhos para ela. Era algo bem infantil, porque entrei para o seminário aos 15 anos e sabia que a vocação era maior do que isso.