CIRCUITO

Jorge Guerra fala sobre o novo ciclo do basquete mogiano

Jorge Guerra. (Foto: Eisner Soares)
Jorge Guerra. (Foto: Eisner Soares)

Com mais de 40 anos dedicados à prática esportiva, o atual técnico do Mogi Basquete, Jorge Guerra, mais conhecido como Guerrinha, lidera um momento de reestruturação da equipe, que sofreu baixas importantes na última temporada. Como atleta ele defendeu a Seleção Brasileira por dez anos e participou de duas Olimpíadas (1988 e 1992) e dois campeonatos mundiais (1986 e 1990). Como treinador, conduziu o time local à conquista do título de campeão paulista (2016) e da Liga Sul-Americana (2017). Toda essa experiência torna Guerrinha otimista para a nova formação do time, que deve ficar mais agressivo e mais competitivo, como ele afirma nesta entrevista em que também comenta o cenário esportivo da cidade.

Como pode ser definido o atual momento do Mogi Basquete?

Estamos montando um grupo novo, com a leitura de que nossos jogadores são muito disciplinados. Os atletas de basquete vêm com muitos valores agregados de outras equipes, e da mesma forma os que saem daqui também já vão preparados para outros times. Eles já sabem que existem vários lados, como o treinamento, o preparo físico, as entrevistas, eventos e trabalhos com a comunidade. Antigamente era necessário um mês para colocar os atletas em forma, e hoje já chegam praticamente em forma, com consciência de boa alimentação. Esse profissionalismo e educação nos fez ganhar algumas semanas na última pré-temporada.

Então o foco é reestruturar a equipe?

Sim, estamos iniciando um novo ciclo. Devido às circunstâncias do mercado, praticamente toda a equipe foi zerada nesta temporada: ficaram um jogador titular (Luis Felipe Gruber, ala-pivô) e dois que vieram da base, (Guilherme Lessa, ala-armador, e Lucas Santana, armador). Temos também o João Pedro Demétrio, que atua como pivô de rotação/intermediário. Então trouxemos quatro jogadores novos (Danilo Fuzaro, ala-armador, ex-Tau Castello, da Espanha; Alexey Borges, armador, ex-Franca; André Goes, lateral e ala-pivô, ex-Franca; Alexandre Paranhos, pivô, ex-Minas) e precisamos de mais dois, provavelmente estrangeiros, para completar a base, que deve ficar mais nova, agressiva fisicamente, com boa rotação e competitiva, pronta para buscar os mesmos resultados da fase anterior, quando ficamos em terceiro lugar no Novo Basquete Brasil (NBB).

Falando em atletas de base, como está o trabalho?

Hoje temos garotos que ajudam a completar o treino, do sub-17 com rendimento de médio para baixo. Tem sido difícil formar jogadores profissionais, pois hoje costuma-se treinar também fora do país, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Na verdade, uma série de fatores torna complicada a contratação de jogadores de base, pois em termos de salário, apartamento, comida, escola e outras coisas eles saem mais caro do que jogadores adultos. Se não houver patrocínio e planejamento de três ou cinco anos, algo que é muito difícil no Brasil, depois de um ano os mais novos acabam indo para outros lugares, então compensa trazer um jogador adulto semipronto por um período mais longo.

Qual é o diferencial do basquete mogiano?

Gosto muito das pessoas que estão aqui, e também da estrutura, ginásio, logística da cidade e torcida, elementos que permitem a existência de uma equipe competitiva. Até tive propostas para ir para equipes com mais investimentos, mas preferi ficar aqui pois acho muito bom tanto para viver como para trabalhar. Este é meu perfil. Tanto que de meus 23 anos como jogador, passei 22 com a equipe de Franca. E dos meus 22 anos como treinador, 13 foram em Bauru e agora estou indo para a quarta temporada em Mogi.

O técnico faz a diferença num time?

Eu acho que sim, tanto quanto um jogador. Aliás, é até possível um time bom ser campeão sem técnico, mas sem jogadores é muito difícil. Da mesma forma, uma equipe muito boa e um técnico mais ou menos podem não ganhar. É importante que todos estejam entrosados e que haja química, além de respeito e as lideranças do treinador e de alguns atletas. Este último quesito é determinante em derrotas e momentos difíceis, como o de reformulação que vivemos hoje. Todos precisarão de um norte, e não só a comissão técnica como também o torcedor espera uma resposta do técnico, que tem uma responsabilidade muito grande.

Então qual é o trabalho de um técnico?

Vários, mas acho que o mais importante é capacitar, ser um gestor de pessoas dentro e fora da quadra. Quem está nesta posição tem que ter capacidade e habilidades para passar o que for necessário e ser entendido pela equipe. Eu mesmo não posso realizar as jogadas, tenho que fazê-las funcionar por meio de meus ensinamentos. Mas não depende só da técnica. Tem gente que tem conhecimento e mesmo assim não consegue transmitir. Temos que tocar as pessoas, passar uma mensagem em que acreditamos.

Como fazer isso num time que tem jogadores jovens na mesma quadra que outros mais velhos e até atletas estrangeiros?

É preciso tratar a todos de forma igual, porém diferente. Por exemplo, era mais fácil lidar com o JP Batista e o Shamell Stallworth, jogadores experientes, do que com os meninos novos. Isso porque, embora precisem de direcionamento, eles sabem o que querem e o que precisam, enquanto os mais jovens querem fazer e ser tudo, então é preciso impor limites. Ou seja, uma equipe é feita de funções e limitações, como fazemos com nossos filhos, com quem temos que ser verdadeiros e ensinar valores.

A torcida e a imprensa fazem muita pressão?

Acho que ninguém quer ser criticado ou vaiado, todos querem ser felizes e elogiados, mas nos momentos difíceis os próprios jogadores, que são competitivos, e também os técnicos se cobram. Imagina alguém numa sequência de 10 jogos sem ganhar, o quanto não está se sentindo mal consigo mesmo. Nesses casos a pressão vai depender da estrutura, da experiência e da vivência de cada um, pois ela pode atrapalhar ou ajudar. O treinador quando pressionado, por exemplo, pode repassar isso à equipe e acabar fazendo besteira. Por isso, eu penso assim: quando o time está numa fase ruim, cobro menos dos jogadores, procurando passar passar alternativas táticas, técnicas, emocionais, criar mecanismos para sair daquela situação. Agora, quando todos estão bem é a hora de forçá-los, pois aí é possível aguentar.

E como é a torcida local?

Todas as cidades com equipes bem estruturadas têm torcidas apaixonadas, que fazem parte do jogo assim como os jogadores e o técnico. Elas representam um elemento que não entra na quadra e não pode fazer cesta, mas está presente na vibração e na sintonia. Nós que estamos envolvidos com o esporte queremos ter sempre a quadra cheia, mas é preciso ter a consciência de que se a torcida for contra, isso não pode nos atrapalhar, e se for a favor também não pode nos tirar a concentração.

O senhor comentou sobre o amor à camisa na cidade, o envolvimento dos torcedores. Como assim?

Tirando as grandes equipes de futebol, esta é a cidade que eu mais vejo a população andando com camisa de time, até mais do que Franca, muito conhecida pelo basquete. É impressionante como sempre tem alguém com o uniforme do Mogi Basquete, seja na rua, no supermercado, no shopping e até mesmo crianças, orgulhosas como os adultos. Além deste aspecto, é uma fonte de renda que poderia ser até melhor se o povo brasileiro tivesse poder mais poder aquisitivo.

Como você avalia o esporte em Mogi, de modo geral?

A Prefeitura tem um trabalho muito legal com o esporte, inclusive o paralímpico. A administração pública tem o Núcleo de Avaliação Física e oferece rotas de ciclovias, esportes nas praças e parques com boa estrutura, como o Parque da Cidade. Às vezes as atividades não vão além pela própria modalidade, que também tem que ajudar no desenvolvimento, mas de modo geral é uma cidade que gosta de esporte.

E a participação da iniciativa privada?

Na minha opinião, a iniciativa privada ainda não entendeu que poderia fazer investimentos e business com o esporte, com retorno muito abrangente e até social. O apoio não é muito caro, pois há várias cotas, a depender do tamanho da empresa. Trata-se de uma questão cultural: o brasileiro aproveita muito mal o que tem, então é um problema de educação e uma série de outros fatores. Os patrocinadores acham que estão ajudando, mas na verdade estão fazendo negócios, levando seus nomes e o da cidade em nível internacional. Acredito que uma forma de conscientizar as pessoas é introduzi-las neste universo por meio das escolas, tanto municipais quanto estaduais, que poderiam ser abertas para a comunidade praticar esportes e atividades de lazer e educativas aos finais de semana.