ARTIGO

Jujuba

Perseu Gentil Negrão

A “peste chinesa” (que além de gravíssima é política) me prende em casa. Foi só proibirem de sair, que me dá uma vontade danada de bater pernas. Saudades de ir ao supermercado comprar “porcarias” (a “cesta básica” eu deixava para minha querida esposa). Como era bom encontrar amigos e papear nos corredores.

Atualmente, compro pela internet. Semana passada, comprei “gordices”. Bolachas, chocolates… e um pacote de jujubas, com 30 tubos, o que motivou minha esposa a comunicar às filhas a respeito do meu exagero. As “meninas” adoraram e a Mariana observou: “Isso é bom para a estrada”. O comentário trouxe-me boas lembranças.

Na década de 1990 eu estava no auge da vida. 30 e poucos anos, promotor de Justiça, professor universitário, uma linda esposa e três maravilhosas crianças. Morávamos em Mogi das Cruzes e, frequentemente, viajávamos para Itápolis, para visitar meus pais.

Nossa “Santana/Quantum” possibilitava que o banco fosse “rebatido” e colocávamos um colchão para as crianças dormirem e brincarem.

No domingo à tarde, o difícil retorno, quer pela longa distância, quer por deixar a acolhedora casa de meus pais. Parávamos em um moderno posto e as crianças aproveitavam a “liberdade”, corriam, brincavam, ganhavam revistinhas, sanduíches, batatas fritas e sorvetes. Para encerrar, um pacotinho de “jujuba” para cada uma e um que eu dividia com minha esposa (como eram doces e saborosas as “jujubas” – até as de uva, que ninguém gostava). Com os rostinhos corados e as barriguinhas cheias, as meninas se acomodavam no colchão e logo dormiam.

O tempo passou, as crianças viraram mulheres. Papai e mamãe se foram. As viagens a Itápolis com a família acabaram.

Ontem, abri o pacote de jujubas e coloquei uma na boca, mas a achei amarga e salgada (pelas lágrimas…). Não vi os três rostos corados, caindo de sono… “O tempo não comporta retorno. A gente só pode caminhar para frente, sempre para frente, até o fim do caminho. É inútil a busca do tempo passado. Mas, não vou me entregar” (A Estrada da Vida – Rubens Sudário Negrao). Vou alugar um sítio e reunir a família. Comprarei um grande pacote de jujubas e, com certeza, vou gostar até mesmo das de uva. Como disse uma amiga: “Jujuba, sinônimo para saudades”.

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo


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