ENTREVISTA DE DOMINGO

Julio José de Godoy conta histórias da carreira como garçom e maitre em Mogi

O maitre Julio José Godoy é o entrevistado deste domingo. (Foto: Eisner Soares)

A afinidade com a culinária vem da infância, quando Julio José de Godoy acompanhava a mãe, Faustina de Souza Silva, cozinhando na Fazenda Santa Rita, conhecida como Ponchão, em Guararema, onde ele nasceu e o pai, Marcílio José de Godoy, era o administrador. Ali aprendeu as primeiras letras na escolinha instalada na propriedade rural e passou parte da infância marcada por dificuldades ao lado dos sete irmãos – Maria de Lourdes, Rosa, Antônio, Benedito e Afonso (hoje já falecidos) e José e Waldemar. Em 1961, a família se mudou para Mogi das Cruzes e Julio conheceu o trabalho cedo para ajudar no sustento da casa. Aos 13 anos, acordava às 4 horas e ia para o antigo armazém de secos e molhados do comerciante Acrísio de Oliveira Silva, na avenida Japão, seu primeiro emprego. De lá, foi para a imobiliária do patrão e, em 1964, conheceu o ofício que o acompanha neste meio século. Começou como atendente de balcão no bar e restaurante do Clube de Campo de Mogi, onde preparava bebidas. Nas horas de folga, usava talheres velhos e pedregulhos para treinar ‘servir’ às mesas. Até que surgiu a oportunidade de ir para o salão, onde acompanhou bailes de debutantes, formaturas, Carnavais, entre outros. Paralelamente, fazia trabalhos extras em eventos da cidade, como no Itapeti Clube, e em casas de famílias tradicionais. Também foi garçom da diretoria da empresa Aços Anhanguera, dos restaurantes Estância dos Reis, Piatto D’oro, Antártica, Panela Preta e Recanto Holandês, atuou mais de duas décadas no Morumbi e há 15 anos é maitre do Mirante do Paraíba, em Guararema. Já serviu o ex-governador Laudo Natel, ex-prefeitos da cidade, como Waldemar Costa Filho, vários outros políticos, empresários e artistas, como o ‘rei’, Roberto Carlos. Apaixonado por música, sempre é requisitado para tocar violão e cantar, relembrando os tempos de infância, em que formava dupla sertaneja com o irmão, Waldemar, e tocava nas festas religiosas. Na entrevista a O Diário, Julio relembra histórias vividas na profissão:

Quais as lembranças da infância em Guararema?

Foi uma infância muito simples e de dificuldade porque meu pai, que quando nasci era administrador da Fazenda Santa Rita, conhecida pelo apelido do dono, que era Ponchão, mudava muito de emprego e nem sempre onde íamos morar havia o mínimo de conforto. Naquela época, os filhos mais fortes sobrevivam, mas os mais fracos morriam ainda crianças, porque não havia recursos e tudo era precário.

Quando a família veio morar em Mogi das Cruzes?

Em 1961 viemos para Mogi porque acabou tudo no sítio onde morávamos, até a lenha, porque todo o mato já havia sido cortado. As plantações não davam mais e pegávamos oito a 10 porquinhos por dia, colocávamos no lombo da mula para sair vendendo, mas voltávamos com todos porque ninguém comprava, já que todo mundo criava porco no quintal de casa. Então, ficamos sem meio de sobrevivência e meu pai veio para Mogi trabalhar no antigo Curtume Mogiano.

O senhor estudou?

Comecei a estudar na fazenda, onde havia uma escolinha. Mas depois ela foi fechada e terminei o terceiro e quarto anos do curso primário na própria cidade de Guararema. A diretora era a dona Irene e a professora era Emy Mazucatti, a filha dela. Nesta época não tive mais condições para estudar porque precisava trabalhar e ajudar em casa, mas depois de adulto fiz cursos técnicos de manipulação e produção de alimentos, garçom e maitre. Além disso, sempre estou estudando, lendo e assistindo a tudo sobre culinária para me manter atualizado na profissão.

Como surgiu a gosto pela culinária?

Isso veio da mãe, mas também não havia muito escolha na época. Quando chegamos aqui, meu pai distribuiu os filhos. Eu fui trabalhar no armazém de secos e molhados do seu Acrísio de Oliveira Silva, que ficava na avenida Japão. Este foi meu primeiro emprego, aos 13 anos, quando acordava às 4 horas da madrugada para receber o pão, trazido pelo padeiro, e o leite, que ainda vinha em litros. Não tinha arroz tipo I e II e nós mesmo fazíamos esta seleção. O dono comprava o saco de arroz agulhinha, outro inferior e o catetinho, misturava os três e nós separávamos o que era tipo I, II e III. Os produtos eram vendidos a granel e pesados na hora. Fazíamos tudo manualmente, até a marcação de preço. Havia uma clientela muito boa lá, porque era o tempo da Mineração Geral do Brasil e havia vários funcionários que moravam no morro, no Alto Guaianazes, e compravam no armazém. A Mineração emprega muita gente e movimentava bastante a economia da cidade. Foi nesta época em que trabalhava no armazém que conheci a Margarida, filha do alemão Frederico Lawitschka, com quem fiquei casado 46 anos.

E depois do armazém?

O comércio foi vendido, mas como o Acrísio também era corretor, fui trabalhar na imobiliária dele, na rua Dr. Ricardo Vilela. Eu tinha 15 anos e aprendi a vender imóveis na raça, trabalhando. De lá, em conversa com um amigo, fiquei sabendo que no bar e restaurante do Clube de Campo estavam precisando de uma pessoa para trabalhar como atendente no balcão e no preparo de bebidas, como caipirinha. Por coincidência, quem adquiriu a concessão foi o seu Acrísio e ali começou minha vida de garçom, em 1964. Era o início do Clube de Campo, com o dr. Milton Cruz, que havia sido o fundador, como presidente. Havia um quartinho nos fundos e eu morava ali para cuidar do bar e restaurante. Tudo na cidade acontecia no clube e era bem concorrido, como os bailes mensais, os de aniversário de 15 anos, de formatura e, principalmente, os de Carnaval.

Quando o senhor passou de atendente a garçom?

Um dia, um dos garçons mais antigos, o Balá, que também era sapateiro, falou que eu deveria sair do balcão e treinar para trabalhar no salão. Então, contei a ele que já estava há uns seis meses treinando, praticando com talheres velhos da minha mãe e pedregulho. Naquele tempo, o garçom servia à francesa, precisava ter habilidade para pegar os alimentos com colher e garfo servir à mesa. Eu observava os mais antigos trabalharem e ficava treinando. Foi assim que aprendi. O que também me ajudou foi que quando comecei a namorar minha mulher, meu sogro me deu aulas de alemão e usei no trabalho como garçom para atender alemães que tinham dificuldade de ser compreendidos pelos outros profissionais.

Como era ser garçom quando o senhor iniciou a carreira?

Tenho minha primeira foto como garçom, ao lado de profissionais renomados na cidade, como o Balá, Vicentinho, Zezinho, Edi e Oswaldinho, em um banquete que foi feito para o bispo dom Paulo Rolim Loureiro, no Itapeti Clube, nos anos 60. O garçom se vestia de forma elegante, vivia engomadinho, chique e bem apresentável. A calça geralmente tinha friso preto, o sapato e a meia eram pretos, havia a faixa, camisa de piquê, gravata borboleta e um summer em cima. Hoje trabalham com a manga da camisa arregaçada e de qualquer jeito. Alguns usavam até gravata quando saíam na rua, mesmo quando não estavam trabalhando. Na cidade, os restaurantes da época eram excelentes, serviam muito bem e eram bem frequentados. Além daqueles em que trabalhei, havia ainda a Cantina Mogiana, Maracanã, o Terraço Paulo, entre outros que ficaram conhecidos em toda a região e atraíam pessoas inclusive de São Paulo para cá.

Além do Clube de Campo, onde mais o senhor trabalhou como garçom?

No final de 1966, fui para a Aços Anhanguera, como auxiliar de cozinheiro, mas logo viram que eu tinha jeito para garçom e quando o profissional que havia lá foi embora, fiquei no lugar dele, servindo a diretoria. Lá fiquei quatro anos e acompanhei a visita de ministros, do cantor Roberto Carlos e de muitos outros. Não podíamos permitir que a pessoa a ser servida tocasse em nada. Tudo era servido por nós, desde água, suco, vinho, etc. Não podíamos deixar ninguém se servir sozinho. Era preciso muita percepção e regras. No caso do vinho, por exemplo, é preciso esperar a pessoa terminar aquele copo para repor, porque senão influi na temperatura, no sabor, em tudo. Por isso nunca parei de estudar e ver reportagens sobre gastronomia, lugares, bebidas e tenho até a Bíblia do Vinho. Desta forma, me sinto confortável para atender os vários tipos de pessoas e, entendendo do assunto, é mais fácil responder ao que perguntam.

E a passagem pelo Estância dos Reis e Piatto D’oro?

Neste mesmo período da Anhanguera, como trabalhava de segunda a sexta-feira na empresa, aos sábados e domingos ia para o Hotel e Restaurante Estância dos Reis, do seu Carlos Barattino. O Roberto Carlos ficou lá quando veio fazer show na cidade, assim como o time do Corinthians da época. A varanda do restaurante ficava longe, mas como eu era jovem, o pessoal me colocava para atender ali. Depois, o seu Carlos passou para o Piatto D’oro e eu trabalhei lá também. Todos restaurantes excelentes, bem frequentados e que exigiam um trabalho feito com cuidado e dedicação pelos garçons.

Como foi o trabalho os outros restaurantes da cidade?

Fiquei na Aços Anhanguera até 1970, quando fui para o restaurante Antártica, na rua Dr. Paulo Frontin, em frente à fonte luminosa. Ali sofri um grave acidente e tive as mãos e braços queimados. O patrão, Manuel Martins, foi trocar o botijão de gás, mas mexeu na válvula e ela espirrou gás para todos os lados na cozinha. Pulei pela boqueta, mas me machuquei e fiquei com várias feridas. Já era casado, tinha filho pequeno e passei um período no setor de rebarbagem da Valmet, para não ficar sem emprego. Mas logo fui para o restaurante Panela Preta, em Jundiapeba, do seu Thompson, que recebia muitos políticos e empresários que vinham até lá com automóveis Mercedes. Ficava à beira da antiga estrada São Paulo-Rio de Janeiro, então, era passagem de gente importante. O governador da época, Laudo Natel, esteve lá, assim como o cantor Wanderley Cardoso, e vários políticos, artistas e também empresários. Eu e o garçom Lourival servíamos a comida dinamarquesa à la carte. No cardápio havia bebidas importadas e como eu falava o alemão, também tive facilidade para decorar os nomes. De lá, trabalhei no Recanto Holandês, da dona Margô, na avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco), também com culinária excelente. Ali, o seu Francisco Gil Eugênio, o Chico do Morumbi, me conheceu e levou para trabalhar com ele.

Como foi o trabalho lá?

Primeiro fiquei 6 anos no Morumbi e fui para a comunidade holandesa de Holambra, em Avaré, onde passei apenas oito meses. De volta a Mogi, retornei ao Morumbi e ao todo foram 20 anos lá, servindo clientes como Franz Steiner, Tico Arouche, Moacir Sapo, as famílias Borenstein, Simões, Lopes, Oliveira, Scavone, Nagib, Cury, entre muitas outras da cidade. A relação com os clientes era muito boa e a maioria acabava virando amigo e me chamava para trabalhar nos aniversários e festas da família. De tanto servi-los, eu já sabia o gosto de cada um. O seu Julio Simões, que me chamava de xará, gostava do bacalhau de porte médio. O ex-prefeito Waldemar (Costa Filho) preferia carnes. A mãe do seu Horário de Oliveira, dona Iolanda, gostava de conversar em alemão comigo.

O senhor também montou o próprio restaurante?

Depois do Morumbi, montei com minha mulher uma cozinha industrial no Socorro, que servia marmitex para construtoras e outras empresas. Ali também tínhamos o Cantinho da Costela, onde servíamos refeições, incluindo pratos alemães. Atendemos lá de 94 até 2003.

Nestes mais de 50 anos como garçom, quais histórias ficaram marcadas?

Tem muitas. Já vi de tudo, desde casal brigando na mesa, até mulher que chega ao restaurante e flagra o marido com a amante. Há ainda aqueles que provam o vinho, pedem e depois acham que não é o mesmo vinho que provaram e pedem para trocar. Aqueles que pedem o prato com uma expectativa e depois querem trocar por outro. Assim como troca de pedidos na cozinha em dias de muito movimento, como datas comemorativas. Tem também as pessoas que não querem esperar pelo tempo de preparo do prato e não entendem que vão saborear uma comida feita na hora, sem qualquer pré-preparo, o que garante mais saber ao prato. São várias situações embaraçosas, mas é preciso ter paciência, educação, elegância e tentar resolver da melhor maneira possível. E tem também as compensações, como clientes que valorizam o trabalho e fazem questão de dar gorjeta, além dos 10%. A maior que recebi até hoje foi de 400 dólares.


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