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Júri condena ex-policial e PM a mais de 80 anos de prisão por chacinas em Mogi

TRIBUNAL Após duas absolvições, júri condena ex-policial Fernando Cardoso, e o policial Messias. (Foto: arquivo)
TRIBUNAL Após duas absolvições, júri condena ex-policial Fernando Cardoso, e o policial Messias. (Foto: arquivo)

Um grito alto foi ouvido dentro do Fórum de Braz Cubas, logo após Regina Aparecida Simão Sarchi, mãe de Rafael, ler pelo celular a mensagem da filha que avisava sobre a condenação do ex-policial Fernando Cardoso Prado de Oliveira e do companheiro dele, Vanderlei Messias de Barros, ainda nos quadros da Polícia Militar de São Paulo por chacinas e homicídios, além de associação criminosa.

A sentença foi proferida pelo juiz Paulo Fernando de Mello por volta da meia-noite, após o segundo dia do julgamento.

O ex-policial Cardoso foi condenado a 132 anos e 5 meses de prisão por seis homicídios e três tentativas de homicídio. O policial Messias a 85 anos de detenção por três homicídios e duas tentativas de homicídios. A defesa irá recorrer da decisão em segunda instância.

Cardoso voltou para a Penitenciária de Tremembé, no Vale do Paraíba. Messias cumpre prisão domiciliar em Mogi, obtida após uma tentativa de suicídio.

Desde as 15 horas de sexta-feira, Regina Sarchi permaneceu do lado de fora do Fórum porque usava uma camiseta com a foto do Grupo Mães Mogianas, o que não era permitido no júri que agrupou processos das chacinas acontecidas entre 2013 e 2015. Foram mortos 26 homens, sendo dois adolescentes, e feridas várias vítimas.

A dupla foi absolvida nos dois primeiros tribunais, o que era temido pelas mães mogianas. Por isso, o grito forte e alto de Regina.

O júri acatou a denúncia do Ministério Público contra os ex-atuantes da PM pelas mortes de Marcus Vinicius dos Santos, Matheus Justino Rodrigues Costa e Thiago Nogueira Novaes e as tentativas de homicídio contra Leonardo Teixeira da Silva e Gabriel Graça Batista. Os jovens morreram na rua Professor Gumercindo Coelho, no Jardim Universo, em 8 de julho de 2015, a última das execuções encerradas após a pressão de familiares e os fortes boatos que passaram a circular nos bairros sobre a atuação de policiais, o que, inicialmente, era descartado pela Delegacia Secccional de Mogi.

Os crimes repetiam mesmo roteiro: homens encapuzados desciam dos carros e de moto (em alguns casos) e disparavam tiros nas vítimas em bairros periféricos.

O promotor José Floriano Silva e o advogado assistente da acusação Pedro Martines confrontaram vários depoimentos. O juiz Paulo Fernando de Mello também arguiu testemunhas em contradições.

Prevaleceu a tese do MP de associação criminosa tipicamente usada por milícia.

Cardoso e Messias foram apontados pelas mortes de Marcos Vinicius dos Santos, Mateus Justino Costa e Thiago Nogueira Novaes, além de ferirem Gabriel Batista e Leonardo Teixeira Silva. Além disso, o ex-policial foi condenado pelos homicídios de Reverson Otoni Gonçalves, Rafael Simão Sarchi e Renato José Nogueira, e por balear Lucas Vinicius Garcia, que sobreviveu.

Inês Paz, professora de vítimas mortas e integrante do grupo Mães Mogianas, comentou ontem que a atuação do MP foi determinante para um resultado que por pouco, segundo ela, não aconteceu do segundo dos júris, quando a votação dos jurados foi apertada – 4 a 3 pela absolvição. “Por pouco, no último julgamento, os acusados não foram condenados”, lembrou.

Um depoimento de acusação de peso foi dado pelo delegado Rubens José Ângelo, do setor de Homicídios de Mogi das Cruzes, responsável pela reunião de provas como os confrontos balísticos.

O Grupo Mães Mogianas tende a se manter mobilizado porque quatro inquéritos não foram concluídos, referentes às chacinas do Caputera, Jundiapeba (dois) e Vila Natal. “A luta segue para impedir o arquivamento dos inquéritos, conseguir a expulsão do policial Messias, e acompanhar os processos indenizatórios contra o Estado”, conclui Inês.