PERSONAGEM

Lalala Dog ganha visibilidade na TV

NA TELINHA Um dos muros que a série vai exibir com a arte de Jaum é o da Nove de Julho, em SP; e o artista em seu trabalho atual. (Foto: divulgação)

Em 2013, João Ricardo, o Jaum, decidiu homenagear o animal de estimação da família, e pintou, numa parede da própria casa, a primeira versão da Lalala Dog. Depois, resolveu aprimorar os traços e registrá-los nas ruas da cidade. A partir daí, o bem-humorado desenho caiu nas graças dos mogianos e passou a estampar muros, prédios e até mesmo vitrines e fachadas de diferentes tipos de comércio. Mais tarde, ganhou espaços públicos de São Paulo e chegou a outros países. Hoje internacionalmente conhecida a cachorrinha ganha visibilidade também na TV, já que aparecerá na série ‘Todxs’, nova produção brasileira da HBO.

Várias serão as versões da Lalala exibidas pela série, porém a principal é a que está localizada na Avenida Nove de Julho, na capital (veja foto nesta página), feito em parceria com o também artista Elvis Mourão, de Guarulhos. É que as gravações aconteceram justamente no centro paulista, onde, além de outras dezenas de artes, há diversas de Jaum.

Segundo o artista, o convite surgiu de forma inesperada, via Instagram. “A produção do canal me encontrou por lá e explicou que estava realizando a série, e que em alguns trechos da gravação tinham captado trabalhos meus. Queriam saber se teria algum problema que estes pontos aparecessem na TV, e eu topei, porque é muito bom que isso aconteça”.

Depois deste momento, houve uma troca de e-mails para formalizar a autorização de uso de imagem e pronto. Basta esperar os oito episódios de 30 minutos serem liberados pela HBO para conferir todos os cenários utilizados. A produção contará a história de Rafa, jovem de 18 anos, pansexual e de gênero não-binário, que decide largar a vida e a família no interior e se mudar para a capital de São Paulo. Ou seja, além de temáticas LGBT, a série ficcional abordará questões como racismo e assédio.

Para Jaum, portanto, trata-se de uma oportunidade para se conectar ainda mais com o público LGBT, do qual já é próximo. “Nunca tive nenhum problema com essa temática, e inclusive participei da parada LGBT que aconteceu no último domingo em Mogi. Há alguns anos fiz um quadro da Lalala que acabou sendo muito bem visto por essa galera, por ter o fundo colorido como o arco-íris”, diz ele, que considera “uma honra” ter o reconhecimento do maior número possível de pessoas.

Alcance

Outro aspecto que precisa ser levantado é a exposição a nível internacional que será proporcionada pela série, que será disponibilizada também na plataforma de streaming do canal, ficando acessível de qualquer canto do planeta. Na opinião do artista, ver manifestações artísticas “sendo vistas e bem faladas é muito bom”, então isso significa uma “grande vitória para a arte de rua e o grafite”, pois diversos estilos poderão ser vistos na telinha.

Aliás, alcançar outros países não é exatamente uma novidade para a Lalala Dog, que já pode ser vista além-fronteiras em paisagens urbanas no Uruguai, na Argentina, no Chile e no México. “Eu estava viajando por estes locais e decidi procurar um espaço para fazer, sempre pontos que não vão causar problemas para ninguém, como imóveis abandonados em péssimo estado ou pontes depredadas”.

Mas de onde vem o retorno financeiro, considerando que estas intervenções não são remuneradas? Das oportunidades por elas geradas. Jaum explica: “A vida de artista de rua é assim, gastamos bastante, e quando possível recebemos alguma coisa. No meu caso, consegui sair na mídia de forma correta e acabei contratado por muitos locais, ou seja, é preciso entender a arte na rua como uma forma de propaganda também”.

A origem da personagem

Hoje com 36 anos, o primeiro contato de João Ricardo, o Jaum, com o grafite foi aos 13 anos, em 1996. Entre este ano e 2005 ele se manteve ativo na arte de rua, porém na sequência entrou num hiato que só foi rompido quando Dalila, a cachorra resgatada das ruas pela família dele,morreu, em 2013. Por considerar a dogue alemão como membro da família, o artista decidiu homenageá-la, e desde então não parou mais de pintar.

Ao longo dos seis últimos anos, a cachorrinha já teve diferentes profissões e apareceu em muitas situações inusitadas. Segundo o criador, existem aproximadamente 400 versões distintas da mascote, cujos traços foram sendo aprimorados com o tempo. Uma das mais interessantes versões está estampada num muro do Centro Cívico de Mogi das Cruzes, e outras podem ser conferidas andando pela cidade.

Até o momento, já são quase 900 Lalala’s registradas em diferentes pontos do planeta. E para a milésima Jaum tem uma ideia que envolve Mogi. “Gostaria de fazer na lateral de um prédio da área central, que tem uns 30 andares”, revela.

Jaum conta que em certo momento, principalmente entre 2014 e 2015, a procura pela personagem foi tão grande que ela virou adesivo, capa de caderno e muito mais. Ele chegou até a pensar na criação de toda uma turminha de colegas caninos, mas o projeto acabou não saindo do papel, pois o que o motiva a continuar é justamente o envolvimento emocional que tem com a Dalila.

No entanto, o momento vivido pelo artista atualmente é bem diferente. “Não é de hoje que viver de arte no Brasil é difícil. Voltei a trabalhar com meu ofício anterior, o comércio de veículos, e também mantenho o hobby de DJ”, diz ele, que embora tenha diminuído a frequência, não parou de pintar, a exemplo do trabalho de revitalização de fachada que está concluindo no Clube de Campo.