CIRCUITO

Larissa Naruse fala sobre o papel dos jovens na manutenção do legado dos japoneses

Larissa Lika Naruse. (Foto: Eisner Soares)
Larissa Lika Naruse. (Foto: Eisner Soares)

Hoje o Bunkyo de Mogi das Cruzes e a Associação dos Agricultores de Cocuera prestam homenagens aos 100 anos da imigração japonesa na cidade. Nesta data, não por acaso, quem participa do Circuito é Larissa Lika Naruse, formada em gestão ambiental e integrante da comissão organizadora do Grupo Integração, que promove um encontro anual no Cocuera, uma espécie de retiro de jovens de todos os tipos de cultura, inclusive os descendentes de japoneses, como ela, que é sansei (da terceira geração). Aqui, além de explicar como funciona este trabalho, ela fala da importância de se manter o legado dos primeiros imigrantes e também defende a inserção de novos conceitos na cultura oriental.

Como o trabalho em grupos de jovens reverencia e mantém vivo o legado dos primeiros imigrantes japoneses?

O trabalho em grupo parte muito dos nossos antepassados que vieram do outro lado do mundo e precisavam de força, de união e deixaram o legado do trabalho, do esforço e da responsabilidade. Como o Integração surgiu de jovens que participaram de seinenkais (grupos de jovens descendentes de japoneses) acabamos herdando muitas coisas, mas cada um traz um pouco da sua casa também, da sua família.

O compartilhamento de experiências, inclusive entre culturas diferentes, poderia se configurar como uma nova tradição?

Os eventos deste tipo foram surgindo um sob influência de outro, o que mostra força e quanto a cultura japonesa impactou na vida de cada pessoa. Acredito que possa sim virar uma tradição, não só para os japoneses mas para todos os povos, até mesmo porque muita coisa muda com o tempo, e é preciso conversar sobre os problemas da sociedade, que estão cada vez maiores.

Então você defende a inserção de novos conceitos na cultura japonesa?

Sim, acho importante o envolvimento dos jovens e o diálogo deles com os mais velhos da comunidade. O seinenkai de Cocuera não existe mais, mas há outros eventos que tem muito a colaborar um com o outro, há muita troca a ser feita. Claro, sem esquecer toda a parte da tradição e cultura.

Qual a principal característica dos japoneses que deve ser disseminada?

Além do trabalho e responsabilidade, a união. Por isso chamamos integrantes de comissões de outros eventos, para perpetuar o compartilhamento. Os jovens têm muita importância em relação a isso e também em relação ao legado dos primeiros imigrantes. É fundamental somar forças, e não podemos parar de chamar pessoas novas, pois se não o evento acaba. É um ciclo, e a tendência é que ele seja mantido, como em nossas participações em festivais como o Furusato Matsuri e o Sukiyaki, quando ajudamos na cozinha e limpeza e aproveitamos para reencontrar os amigos.

Em sua visão, qual a importância do evento em comemoração aos 100 anos da Imigração Japonesa que o Bunkyo de Mogi das Cruzes e a Associação dos Agricultores de Cocuera realizam neste domingo?

Eventos assim são importantes para valorizar cada cultura, porque assim se dá mais significado a diversidade. Se deixarmos a tradição se perder vai chegar uma hora que não teremos um norte. Na verdade a cultura japonesa que temos aqui é muito influenciada pela vivência no Brasil, ou seja, é algo próprio daqui, diferente do que há no Japão. E justamente por isso é preciso saber valorizá-la, assim como os costumes de todos os outros povos, que são o que nos formam.

Qual o trabalho do Grupo Integração?

O Grupo Integração existe para realizar um evento anual de três dias sempre em janeiro, de sexta-feira à domingo. Mas a programação já começa no meio do ano, quando nos reunimos semanalmente para decidir o próximo encontro. A proposta é tornar o mundo melhor a partir de pessoas melhores, e para isso é preciso estar bem como a gente mesmo para podermos compartilhar experiências, afinal, o que estamos vivendo agora pode ser o que mais pessoas estão passando, e podemos servir como referência.

Como funciona este compartilhamento?

O evento começa com dinâmicas para quebrar o gelo, pois todo mundo chega ansioso e meio travado. Depois fazemos algumas dinâmicas e trabalhamos com reuniões sobre temas específicos, como autoconfiança, que duram entre uma e duas horas. Também fazemos teatros, dinâmicas com música e dança e alguma atividade “de sujar”, com tinta ou água. Quando participei, por exemplo, um dos exercícios era conversar com os outros estando vendada, para que não houvesse nenhum tipo de julgamento e pudéssemos nos abrir.

Quantos jovens estão envolvidos no evento?

Neste ano temos 27 pessoas na comissão, que é dividida em grupos, sendo que alguns vão apenas no dia do evento para ajudar na cozinha ou nos bastidores. Já em relação aos participantes, em 2019 tivemos 60, e estamos trabalhando com 50 para 2020. Na verdade não há um limite e o número vai de acordo com quantas pessoas há na organização naquele ano e quantas elas conseguem convidar e dar atenção.

É possível traçar o perfil dos participantes?

Aceitamos jovens a partir dos 15 anos, e temos muitos de 16 e 17anos também. Mas participam pessoas de até 35 anos. Deixamos aproximadamente metade das vagas para residentes de Mogi, e o restante vem de outras cidades da região, de São Paulo e até mesmo de Brasília.

Qual é o objetivo do Integração?

Como disse, nossa essência é tornar o mundo melhor a partir de pessoas melhores, e por isso nosso objetivo é compartilhar experiências. Tudo funciona como se fosse uma semente plantada: talvez o que o participante vai escutar só fará sentido para ele em outro momento da vida, mas sempre tem alguma coisa que o toca. E se a pessoa sair motivada, nosso trabalho valeu.

Que temas a programação aborda?

Todo ano há um tema principal. Em 2019 foi “Desperte”, já que falamos muito sobre sonhos e objetivos, que todos podemos ter metas e correr atrás delas. Também falamos sobre família e amigos, que acabam sendo nossa base, sobre linha de sentimentos e provocamos o protagonismo, ou seja, fazemos o participante pensar o que tem feito para atingir as metas. Para 2020 ainda não temos o tema principal definido, mas já estamos começando a pensar.

De que maneira o envolvimento com este projeto te tocou?

Sempre tive vontade de participar do evento. Tentei por uns dois anos não consegui. Mas quando fui, em 2018, estava com a mente aberta, para aproveitar ao máximo e fazer novas amizades. Foi maravilhoso. Saí muito inspirada, principalmente pela comissão, que é um grupo de amigos que se organiza voluntariamente. Aliás temos algumas regras, e uma delas é que todos devem ir com o coração aberto, para não julgar os outros.

Quando surgiu o grupo?

O Integração foi formado em 2002, influenciado por outras iniciativas parecidas que acontecem na Argentina e no Peru. Um dos jovens fundadores participou de um programa de outra associação, gostou e quis recriar aqui no Alto Tietê, vinculando ao seinenkai de Suzano. Depois disso, a entrada de pessoas de outras culturas foi natural, porque quem já conhecia queria chamar os amigos para também sentir como era.

Você acredita que deveriam existir mais iniciativas como essa?

Acho muito importante ter esses espaços em que as pessoas que querem possam falar, expôr sentimentos ou compartilhar lembranças. Talvez faltem grupos assim, mas a gente já vê alguns no Brasil, só que a maioria formada exclusivamente por descendentes japoneses.

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