CIRCUITO

Lelis Gerson fala sobre musicalização das crianças de Mogi

Maestro Lelis Gerson. (Foto: Edson Martins)
Maestro Lelis Gerson. (Foto: Edson Martins)

Bacharel em Música com especialização em trompete e pós-graduação em regência, o mogiano Lelis Gerson é maestro da Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes, diretor artístico da Associação Sinfônica da cidade e responsável pelo projeto ‘Pequenos Músicos… Primeiros Acordes na Escola’, que educa milhares de crianças mogianas por meio da musicalização. Nesta entrevista, ele fala sobre todos estes projetos, que agora estão ganhando mais espaço nas comunidades a partir de uma iniciativa possibilitada pela Lei de Incentivo a Cultura (LIC) no bairro do Taboão.

Qual a importância da musicalização enquanto instrumento de ensino?

Desde que assumi o projeto ‘Pequenos Músicos… Primeiros Acordes na Escola’, em 2017, as bandas não tinham costume de desfilar no aniversário da cidade. Mas quando assumi, um dos primeiros desafios era levar um grupo de alunos para o evento. Conseguimos 200 alunos naquele ano, em 2018 foram 400, e este ano, 1 mil. Digo isso para mostrar a importância por meio de um depoimento de supervisoras de ensino, no último dia 1º de setembro. Ela disse “Parabéns, porque realmente hoje vejo que a música é muito importante na formação da criança. Com mil alunos, você não teve problema de organização, todas as crianças eram disciplinadas, sabiam onde tinham que parar, quando tocar, comiam o lanche e não jogavam papel no chão”.

Enquanto maestro, como você enxerga a música?

A música é a arte de manifestar os diversos afetos da nossa alma mediante o som. A gente sente, vivencia e escuta a música. Por isso, costumo falar para meus alunos e músicos dos grupos que a gente rege, que o músico tem que estar bem para tocar e/ou compor, porque nosso momento reflete no que fazemos. Resumindo, a música é indispensável para o ser humano, tanto que o acompanha em todos os momentos, desde aniversário, casamento até o velório.

Você trabalha apenas com música clássica?

Não, trabalho com todos os estilos e gêneros. Sou militar e trabalho na banda sinfônica do exército há 25 anos. Apesar de priorizarmos repertório sinfônico na orquestra, tocamos vários sons, principalmente músicas populares, porque acho que são importantes para a formação do músico. Essas canções soltam mais os integrantes e os ajudam na interpretação de um repertório sinfônico. Nesse sentido, procuro sempre colocar também nossos ritmos brasileiros, como samba, maracatu e frevo.

Como é trabalhar tantos gêneros diferentes em projetos sociais como o ‘Pequenos Músicos’?

Me preocupo muito em levar esses ritmos para as crianças, porque na maioria dos casos elas não têm acesso. E digo mais. No Brasil, infelizmente não é todo grupo que pensa assim. Se faz repertório latino-americano, mas não se faz a nossa música. Assim, quando um aluno é questionado sobre Chiquinha Gonzaga, por exemplo, não sabe quem foi. Aqui em Mogi temos um plano de divulgação da cultura brasileira, com a presença de especialistas nestes ritmos e estilos, com palestras, masterclass, e vemos grande resultado: hoje nossos alunos tocam com prazer ritmos nacionais.

Qual a história de seu envolvimento com essas atividades?

Faço parte dos trabalhos sinfônicos na cidade desde o início deles. Antes haviam fanfarras, mas essa nova etapa começou a partir de 2001, com o coral Canarinhos do Itapeti, que atuava em vários polos periféricos da cidade. Pouco tempo depois, em 2002, o maestro Marcelo Jardim veio a Mogi e começou a formular um projeto sinfônico. Na ocasião, a prefeitura me procurou, pois eu conhecia os músicos da cidade e também tinha muitos contatos em São Paulo. Começamos fazendo a seleção dos alunos do coral, verificando quem tinha aptidão para estudar instrumentos de corda. E então começamos a trazer os artistas locais para serem capacitados.

E como as ações se tornaram o que são hoje?

Em 2004 formamos a orquestra Minha Terra Mogi, com alunos, bem de base, e o trabalho foi crescendo, ainda vinculado à Secretaria de Cultura. Mas em 2011, com a saída do Marcelo, fui convidado para assumir a direção geral do projeto, que passou a formar a Orquestra Sinfônica de Mogi. Na sequência, em 2017, participamos do chamamento público para assumir o projeto ‘Pequenos Músicos’, da Secretaria de Educação, que já funcionava desde 2005, com bandas.

Hoje quantos alunos fazem parte do ‘Pequenos Músicos’ e da Orquestra Sinfônica?

São 11 mil alunos nessas atividades gerenciadas pela Associação Orquestra Sinfônica, sendo que no ‘Pequenos Músicos’ são crianças de 7 a 10 anos de 17 escolas municipais. Quando assumimos este último, implantamos nossa metodologia e colocamos cinco profissionais em cada ponto: um de madeiras, um de metais, um de percussão, um de musicalização e um coordenador. As aulas de instrumentos são feitas no contraturno escolar, mas a musicalização está presente em todos os momentos, e cada escola tem uma banda funcionando, fazendo concertos e até indo para concursos, como a do Cempre José Limongi Sobrinho, no Botujuru, que recentemente foi bicampeã estadual, no ano passado foi campeã nacional e agora em dezembro vai para o nacional novamente, em Goiás.

Que sentimentos trazem estas conquistas?

É muito bom, mas não deixa de ser resultado de nosso trabalho. Temos profissionais muito sérios fazendo as atividades, então temos chance de ganhar concursos, mesmo que o foco não seja competitivo. Inclusive converso com professores e alunos sobre isso, que mais do vencer o que vale é as crianças saírem e conhecerem outros grupos, socializarem, formarem amizades.

Você disse que o projeto de musicalização está em 17 escolas, mas há muitas mais na cidade. O que está sendo feito para ampliar a cobertura?

Para o ano que vem vamos ampliar em mais cinco escolas. Tudo tem que ser planejado com calma, pois precisa de estrutura, de profissionais, de instrumentos. Hoje em dia, Mogi das Cruzes já é uma referência para o Brasil inteiro na área musical, então vejo que estamos muito bem.

Mas vocês também têm intenção de levar a iniciativa para as comunidades, não é?

Sim. Fizemos uma apresentação na Agestab (Associação das Industrias de Taboão), e eles se interessaram muito por tudo o que fazemos e sugeriram a criação de algo para envolver os moradores e crianças do Taboão. Elaboramos então um novo projeto e o inscrevemos na Lei de incentivo a Cultura (LIC). Há um grupo de empresários que está muito animado para fazer isso acontecer, e em março de 2020 começaremos a dar aulas de violino, viola e violoncelo por lá. Vamos primeiro formar uma orquestra de cordas, mas já temos a intenção de depois formar o grupo de sopros, e aí sim vamos poderemos criar a Orquestra Sinfônica do Taboão, atendendo toda a comunidade daquela região.

Isso deve se repetir em outros bairros?

Queremos levar música para os quatro cantos de Mogi. Nosso interesse é promover este modelo que estamos implementado no Taboão em outros bairros, retomando aquilo o que fazíamos no início, nossas origens, lá de 2002, quando a Associação atendia a comunidade dos bairros periféricos da cidade.

Além de receber convidados de peso por aqui, a Orquestra Sinfônica de Mogi tem se apresentado em outros municípios. Como se sente ao levar o nome da cidade para fora?

Nossa orquestra está sendo reconhecida em todo o Brasil. Este é o segundo ano em que tocamos na Sala São Paulo, e o terceiro em que fazemos concerto em Campos do Jordão, o que é muito honroso e gratificante. Mas fico muito feliz também quando vamos nos bairros e encontramos crianças carentes, sem perspectiva para o futuro, que começam a aprender música e têm a vida transformada. Muitos inclusive se tornam músicos profissionais e passam a viver da arte.

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