CHICO ORNELLAS

Lembranças de um mogiano

ANOS DOURADOS – Em uma torcida na Braz-Col (competição que reunia Liceu Braz Cubas e Instituto de Educação Washington Luiz), Sérginho Correa, de paletó branco, abraça Flávio Viana e apoia a mão direta sobre Antônio Carlos Lopes. Ao lado, Edicir Andreucci. Nada sobrou do fusca,
ANOS DOURADOS – Em uma torcida na Braz-Col (competição que reunia Liceu Braz Cubas e Instituto de Educação Washington Luiz), Sérginho Correa, de paletó branco, abraça Flávio Viana e apoia a mão direta sobre Antônio Carlos Lopes. Ao lado, Edicir Andreucci. Nada sobrou do fusca,

Fará 49 anos na próxima terça-feira (4.9.2018) que um Volkswagen sedã explodiu na Rua da Consolação, em São Paulo, marcando o fim da aventura de um mogiano insepulto. Era Sérgio Roberto Correa. Tinha 28 anos, teria 77 hoje. Mogiano, como toda sua família, Sérginho estudou no Instituto de Educação Dr. Washington Luís e obteve, na Capital, uma bolsa do grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

Foi ali que se aproximou dos movimentos de resistência ao regime militar e passou a integrar os quadros da Aliança Libertadora Nacional, um dos mais atuantes grupos da subversão armada no Brasil.

No dia 23 de fevereiro de 1970, um certo Hans Rudolf Jacob Manz prestou depoimento ao delegado Edsel Magnotti, policial que teve passagens pela delegacia de Mogi e era, então, responsável pelo inquérito que apurava a explosão da madrugada de 4 de setembro do ano anterior. No depoimento, Hans Rudolf disse que conhecia bem a Sérgio Correa, que o visitava constantemente. Antes de Hans viajar para a Bahia, disse que lhe entregou vários objetos que deveriam ser vendidos, entre os quais havia uma pistola Beretta, calibre 6.35. A mesma arma que a polícia encontrou nos restos do automóvel explodido. Hans disse ainda: não mais o encontrou e, em uma fotografia dos restos da explosão, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, reparou no “detalhe de um sapato, do tipo moderno com bico quadrado, idêntico a um par de sapatos que Sérgio Correa usava na última vez que o visitou”.

O objetivo do interrogatório de 23 de fevereiro de 1970 era confirmar a presença de Sérginho no automóvel que explodiu. Ocorre que, nesse mesmo dia, o delegado Edsel Magnotti enviou ao Instituto de Polícia Técnica a planilha datiloscópica de Sérgio e um dedo recolhido da explosão, solicitando a confirmação técnica de que o dedo pertenceria à mesma pessoa. A resposta da Polícia Técnica veio no dia 11 de março, assinada pelos peritos Geraldo Souza Brito e Paulo Vitale. Afirmavam eles: “Não se confronta o supracitado datilogramo com qualquer das impressões de Sérgio Roberto Correa, revelando, assim, tratar-se de duas pessoas diferentes”.

Pois é: amigos de Sérgio com os quais tive contato asseguram que ele, de fato, estava naquela Volks que explodiu há exatos 49 anos. Isso está afirmado, inclusive, no livro “A Revolução Impossível”, do jornalista Luiz Mihr. Mas não há, até hoje, pelo que eu saiba, um documento comprovando o fato.

À parte qualquer julgamento das ações políticas dos personagens destas lembranças, resta apenas a constatação de que uma família de mogianos – pais e irmãos – viveram durante anos a fio a incerteza do destino do filho e irmão. O rapaz que saiu de Mogi para estudar na mais importante universidade do País e nunca mais voltou.

Ele pode não ter sido um herói. Mas foi um idealista.

CARTA A UM AMIGO

Reminiscências 

Meu estimado pai

Tenho me surpreendido, nestas últimas semanas, em tempos de meditação que me levam a um passeio por nossa convivência. Curioso: vejo-me, de um momento para outro, a passear por eventos, viagens, encontros. Alguns muito distantes; outros muito próximos. Em poucos deles estávamos sozinhos, mas minhas recordações recentes nos isolam. Como naquela noite em que, primeira das lembranças que me sobram, você e mamãe me levaram ao meu primeiro filme. Foi no Cine Urupema, eu deveria ter no máximo 3 anos – você me carregava no colo. Não sei qual filme era, sei apenas que era uma produção da Metro-Goldwyn-Mayer porque, tão logo o leão rugiu na tela, eu desandei no choro. Voltamos. Eu chorava e continuei chorando pelos dois quarteirões da Avenida Pinheiro Franco, que separavam o Cine Urupema de nossa casa na Rua Isabel de Bragança. Esta cena me veio à mente anos atrás, quando levei meus filhos a uma sessão que exibia ET, em um cinema de São Paulo. Clarissa chorou e, de pronto, perguntei-lhe se queria ir embora. Ela disse que não.

LIÇÕES – Em 2011, com meu pai, na celebração do seus 100 anos.

Algum tempo depois da sessão de cinema que não houve, estávamos na estação de Mogi esperando o Trem de Aço, como conhecíamos o Santa Cruz e o Vera Cruz que cobriam o trajeto Rio-São Paulo e paravam em Mogi. Iríamos novamente a São Paulo para mais um dia de incursões por lojas, teatros, restaurantes. E o trem era o melhor transporte. Nesse dia, porém, algum motivo atrasou a composição e vocês decidiram que nós iríamos de ônibus. Quando entrei naquela jardineira me apavorei. No lugar do vagão com ar condicionado e poltronas beges e limpas, me vi em um ônibus barulhento, de janelas que trepidavam. Você me acalmou, disse-me que seria uma nova aventura. Acalmou tanto que eu dormi.

Acordei no Vale do Anhangabaú para incursões pela Casa São Nicolau da Praça do Patriarca, escala indispensável para um novo brinquedo. Depois, era só atravessar a praça e ir ter à Casa José Silva para encontrar uma roupa. Que, se não tivesse a contendo, seria encontrada do outro lado do Viaduto do Chá, na Casa Los Angeles, da Barão de Itapetininga, ali ao lado do Restaurante Fasano, onde almoçávamos quando a opção não fosse pela Leiteria Americana da Xavier de Toledo. Depois do almoço, tempo para uma vesperal de teatro ou cinema, antes do lanche de final de tarde no Salão de Chá do Mappin. Muitas vezes, com meus filhos pequenos, fiz incursões semelhantes. Por outros endereços, mas com o mesmo propósito – mostrar o mundo aos pequenos. Havia, como você e mamãe fizeram com seus filhos, que oferecer-lhes o capital acadêmico dos estudos, e também o capital social da convivência,

Eu já tinha 7 anos de idade quando o telefone do nosso apartamento no Hotel Califórnia, em Copacabana, tocou. Como fazíamos todas as férias de verão, estávamos no Rio. Era janeiro de 1955. Devia ser 5 horas da manhã. Em pouco tempo você e mamãe cuidaram de nos acordar – eu, Guilherme e a babá Adelina –, ajeitar as malas, acertar a conta, pegar um táxi e rumar para o Aeroporto Santos Dumont. Em um Scandia (correspondente civil do DC-3) da Companhia Real (antecessora da Vasp, que também já não existe) chegamos a São Paulo antes das 8 horas. Esperava-nos em Congonhas o Gerevini, chofer de táxi, como se dizia então, que nos servia sempre. Viemos direto para a Rua José Bonifácio 360, casa de vô Leôncio e vó Nenê. Vô Leôncio havia falecido, o velório era ali. Foi nessa viagem que, pela primeira vez, vi o Sol nascer lá do céu. Muitos anos depois, voltando de Salvador com meus filhos, coloquei-os na janela do avião para verem o Sol nascer.

Alguns anos, depois você me levou a visitar um amigo, o Isidro, no bairro de Santana. Eu deveria ter 10 ou 11 anos de idade e você, com Isidro ao lado, colocou-me no colo para que ‘dirigisse’ o carro. Não me lembro do modelo nem do ano, mas desde que meus filhos nasceram sempre cuidei para que, quando tivessem 10 ou 11 anos, saíssem comigo para algum descampado onde pudessem, no meu colo, ‘dirigir’ o carro. Em pouco tempo espero fazer isso com os netos.

Aos 16 anos de idade, a minha mais grave arte de adolescente: às escondidas apanhei o Simca Chambord, branco, de estofamento de couro branco e faixa branca nos pneus. Sai sozinho e andei não mais do que meia hora. Quando voltei para a garagem, não consegui evitar uma ralada na lateral. Sem ter como esconder, corri contar à mamãe. Não me lembro de uma represália severa, lembro-me sim de um recado seu: “não adianta fazer nada escondido, a mentira tem perna curta”. Se você perguntar aos meus filhos, eles dirão que esta frase é minha.

Com 18 anos incompletos, cheguei eufórico para o almoço em casa. Tinha novidades a contar: havia conseguido meu primeiro trabalho – repórter no Diário de Mogi. Você reagiu com uma lição: “o trabalho da juventude é o estudo”. Aprendi, entendi que seu recado era o de privilegiar o estudo. Sempre.

Alguns anos depois lhes contei dos planos de me casar. Apoiaram de pronto, você e mamãe, sob uma condição: teriam de ir à casa de Nanci para formalizar o pedido aos pais dela. Você entendeu a piscada que lhe dei, quando do noivado de Clarissa e Fábio; de Felipe e Cláudia e de Frederico e Talita. Se foi assim com vocês, assim comigo, por que não com eles?

Acho que esta carta está ficando longa. E seria interminável se eu fosse continuar relembrando detalhes de nossa convivência de 69 anos, interrompida por sua partida, aos 105 anos de absoluta lucidez. O que eu queria, na essência, é agradecer-lhe por tudo que nos legaste. E, junto ao forte abraço, seguem também muitos agradecimentos. A você por tudo que me fez, a Deus pelo privilégio de continuar tendo a sua companhia, o seu apoio, os seus conselhos. Sobretudo, as suas lições.

Beijo enorme do

Chico

GENTE DE MOGI
VELHA GUARDA – Ele era político da velha guarda, daqueles tipos que andam pela rua cumprimentando a todos e por todos sendo cumprimentado; a confiança é recíproca. Foi vereador entre 1952 e 1969, prefeito no segundo semestre de 1962 (era presidente da Câmara e substituiu prefeito cassado) e presidente da Liga Humanitária José Bonifácio. Oswaldo Regino Ornelas morreu em abril de 1997, tinha 74 anos.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… contar aos filhos – também a netos – os motivos pelos quais as salas de cinema do Mogi Shopping têm os nomes Urupema, Parque, Odeon, Avenida, Vera Cruz, Carlos Gomes e Central.