NO CASARÃO DO CHÁ

Livro sobre a vida e obra do artista Akinori Nakatani será lançado neste domingo

TRAJETÓRIA No livro é possível conhecer mais sobre o trabalho em cerâmica de Akinori Nakatani. (Foto: arquivo)
TRAJETÓRIA No livro é possível conhecer mais sobre o trabalho em cerâmica de Akinori Nakatani. (Foto: arquivo)

Akinori Nakatani Sua Obra e Sua Vida será lançado neste domingo, às 9 horas, no Casarão do Chá, onde uma mostra retrospectiva do artista segue aberta, aos domingos, até 24 de novembro. Cuidadosa e ricamente ilustrado, o livro conduz o leitor à história e cerâmica do artista japonês que reside em Mogi das Cruzes por meio da pesquisa e escrita do próprio artista, do crítico de arte Enock Sacramento e da ceramista e mestranda em História da Arte, Giovana Delagracia, e entrevistas e textos dos jornalistas Jairo Matos, Márcio Chaer e Eliane José.

No decorrer das páginas, conhece-se um pouco mais sobre a cerâmica de Nakatani a partir de sua origem e formação no Japão, as influências das viagens feitas por países das Américas Central e Sul entre 1972 e 1974 em seu processo criativo, a chegada ao Brasil, naquele mesmo ano e, algum tempo depois, à Estrada do Capixinga, em Mogi das Cruzes, a construção da casa, da oficina e do forno japonês Noborigama a quatro mãos, as dele e as de Mary, sua mulher.

Notas explicativas de Nakatani entremeiam as fotografias das peças, grande parte delas clicadas por ele mesmo, e a cronologia dessa jornada, um passo a passo dos 76 anos de vida, 44 deles dedicados à expressão artística nascida do movimento do corpo e das mãos na lida com a argila.

Diz Nakatani no livro, “movimentando o corpo, movimentando as mãos, o movimento das mãos amassa a argila. Assim começa o trabalho da cerâmica. Durante a produção de uma peça podemos escolher qual técnica iremos utilizar, isto é, o meio de que iremos nos servir para efetivamente produzir a peça; mas, acima de tudo, desejo que a peça tenha algo mais profundo, e que se encontra entranhado no meu sangue”.

Para o crítico de arte Enock Sacramento, Nakatani integra o grupo de “profissionais japoneses da cerâmica artística” que chegou ao País após a década de 1960 e deu “uma contribuição fundamental à cerâmica no Brasil”.

Se a primeira leva de imigrantes influenciou a produção agrícola, a chegada de ceramistas japoneses especializados na criação de peças e utilitários, décadas mais tarde, beneficiou a cerâmica brasileira.

Nascido em Osaka, Nakatani começou a fazer cerâmica no Japão. Formou-se em Educação Artística na Faculdade Pedagógica de Kyoto, em 1966. Em 1970, ele participou de um programa de intercâmbio internacional que o trouxe à América Latina. Essa viagem determinaria, em definitivo, a arte dele.

Releva Sacramento, Nakatani “considera que sua carreira de ceramista teve início no Brasil”.

“A primeira obra reproduzida neste livro é uma singela cerâmica que representa uma pequena capela com um crucifixo em frente, muito comum em pequenas localidades do interior o Brasil”, afirma o autor, acrescentando, “quem vê esta peça isoladamente não pode imaginar o desenvolvimento que sua cerâmica experimentaria no Brasil, a partir de um complexo processo de criação de que fazem parte as lembranças de ruínas de cidades, templos, monumentos de civilizações pré-colombianas, localizadas no México, Guatemala, Honduras e Perua, e que ele viu, com espanto, nos quatro anos que antecederam sua chegada ao Brasil”.

Após as primeiras paradas, em São Paulo e cidades como São Simão, é a partir da instalação em Mogi das Cruzes, com a construção do forno japonês Noborigama, que a “produção aumenta em qualidade e quantidade. De tal forma que, em 1979, ele já realizou mostra individual no mais importante museu brasileiro, o Museu de Arte de São Paulo, o Masp”.

Para o crítico, a cerâmica dele “é absolutamente original, competente e bela. E uma das mais singulares do notável grupo de ceramistas de origem japonesa que escolheu o Brasil para viver e trabalhar”.

O livro permite conhecer a beleza e singularidade, com fotografias que destacam as formas, cores, inscrições e texturas das peças. Serve ainda de guia para se conectar com o criador da obra que introduz conceitos próprios e significados sobre o que ele faz, o que pensa e como vive. “O intervalo que vai do nascimento até a morte de cada um de nós é preenchido por nossos sonhos e aspirações, nossas esperanças, nossas emoções, nosso desejo de viver uma vida que tenha algum sentido”.

Quem quiser conhecer a cerâmica de Nakatani pessoalmente tem uma oportunidade rara porque parte da coleção particular do artista, que não está à venda, e itens cedidos por poucos colecionadores, estão na exposição retrospectiva em cartaz no Casarão do Chá.

A mostra, o livro e uma palestra sobre cerâmica do artista fazem parte do projeto de incentivo cultural do Governo do Estado de São Paulo, o ProAC-ICMS, que contou com o patrocínio ainda das empresas JSL, Mineração Horii, Shibata Supermercados, Rinnai, Embu S/A e Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo.

Ideia nasce a partir de tese de mestrado

Akinori Nakatani conta que a ideia do livro nasceu durante o contato com a ceramista e mestranda em História da Arte Giovana Delagracia, autora da dissertação “A Ressignificação Nipônica na Casa da Cerâmica Nakatani”, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Depois de tomada a decisão, ele cuidou de todas as etapas para a conquista do fomento cultural.

Giovana Delegracia assina uma das apresentações do personagem e afirma que as obras “surpreendem pela engenhosidade: grandes proporções, estruturas aéreas, composições intrincadas, cores e texturas exuberantes, refletem os anos de aperfeiçoamento do artista”. Ela também delineia o processo de produção do artista desde a chegada ao Brasil, com as fases vividas na sequência.

Delagracia e Nakatani vão participar de uma mesa-redonda no próximo dia 26 de outubro, às 14 horas, no Centro Cultural de Mogi das Cruzes (Praça Monsenhor Roque Pinto de Barros). A entrada é gratuita.

Obra traz revitalização do Casarão do Chá

HISTÓRICO Casarão do Chá foi construído na década de 1940 para abrigar fábrica do produto. (Foto: arquivo)

O longo processo de revitalização e restauração do Casarão do Chá está no livro. A reabilitação desse prédio, construído na década de 1940, para abrigar uma fábrica de chá, marcou o período de vida do ceramista Akinori Nakatani, a partir da década de 1980, quando, aliás, ele freia a produção de cerâmica para cuidar de algo nunca feito por ele.

Monumento tombado como patrimônio arquitetônico e cultural brasileiro, o Casarão do Chá é o mais importante registro “de herança da imigração japonesa no Brasil, reconhecido nacionalmente”, segundo afirmam Nakatani e o jornalista Jairo Matos, no capítulo “Casarão do Chá – Uma obra Excepcional”.

“É uma joia arquitetônica de incomparável valor, não só pelo seu aspecto exótico, mas também pela circunstância história dos imigrantes japoneses da região na qual foi construída. O seu contexto adverso, que acompanha qualquer processo migratório em fase inicial de assentamento, não inibiu a expressão do espírito criativo. Aliás, este é o aspecto mais representativo do espírito do pioneirismo de mais de meio século, constituindo, assim, um exemplo singular de herança cultural”.

Após contar detalhes da operação de salvamento e proteção coordenada por ele, Nakatani compara que “o trabalho de restauro do Casarão do Chá é como o do ceramista que se dedica a fazer sua peça artística”, confirmando o poder de criatividade, inventividade e determinação deste morador da zona rural de Mogi das Cruzes responsável por legar um exemplar único de preservação da memória e da história da cidade.

O restauro do Casarão do Chá é exemplo raro de preservação de prédios antigos, na opinião de técnicos, pesquisadores e historiadores que o acessam ou visitam.

Essência da vida

Akinori Nakatani

Muitas pessoas que veem meu trabalho “Série: Forma Orgânica” imaginam um coral ou algo de fundo do mar. Mas quando comecei a série a que minha peça pertence, pensei numa forma que só seria possível realizar com o material orgânico. Aproveitando os recursos próprios da cerâmica, como esmaltação e queima, quero explorar ao máximo as possibilidades de criação através do barro, em busca de algo perdido na minha vida cotidiana de ceramista, na civilização atual, algo que fosse orgânico, botânico e primitivo. Nela está a minha imagem em busca de uma ligação com a essência da vida”.

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