CRIMES

Livro sobre mães que perderam os filhos em chacinas será lançado dia 3 na UMC

LIVRO ‘Memorial dos Nossos Filhos Vivos – As Vítimas Invisíveis da Democracia’, tem lançamento local programado para o próximo dia 3 de setembro, na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). (Imagem: divulgação)

“Mais do que feito para conscientizar, é uma denúncia das mães e de uma sociedade violentada pela polícia”. É assim que a suzanense Cecília Helena Goulart Francisco define o livro ‘Memorial dos Nossos Filhos Vivos – As Vítimas Invisíveis da Democracia’. Divulgada em maio na Universidade de São Paulo (USP) e com lançamento local programado para o próximo dia 3 de setembro, na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), a obra discorre sobre o drama que viveram e vivem as Mães de Maio, organização relacionada a crimes cometidos em São Paulo em 2006, e as Mães Mogianas, cujos filhos foram assassinados em chacinas na cidade entre 2013 e 2015.

META Cecília Francisco conta que o livro denuncia os crimes. (Foto: divulgação)

O material foi, na verdade, organizado por Débora Maria da Silva, coordenadora do Movimento Independente Mães de Maio, mas é Cecília quem cuida da promoção do mesmo. O envolvimento dela com os casos teve início como interesse acadêmico, já que ela produziu um artigo científico sobre criminologia feminista e passou a ter contato com as mulheres que sofreram nos homicídios da capital. Com o passar do tempo, porém, as relações entre as partes se estreitaram e ficaram “intensas”.

A cada página o leitor pode conhecer o perfil das mães e também das vítimas, num “recorte histórico”. O objetivo não é relatar exatamente como foram as chacinas, como faz o livro ‘Caputera – Chacinas em Mogi das Cruzes’, lançado pelo jornalista Renan Omura em 2018. Aqui, segundo ela, vale o “contexto humanizado e político sobre como surgiram os dois movimentos”.

Dessa forma, são apresentados depoimentos não somente dos familiares diretamente relacionadas aos crimes tratados, mas também de pessoas da Guatemala, da Argentina e outros locais. “Fala-se sobre filhos tirados do seio familiar por conta da violência”, explica Cecília.

No entanto, o perfil das vítimas é o mesmo relatado antes por Omura. Numa síntese, a apoiadora do projeto diz serem “jovens, com média da idade até 26 anos, periféricos, com baixa escolaridade e negros”.

A motivação para dar continuidade ao tema na mídia tem origem política, mas não política partidária. “Vemos que a conscientização em Mogi é muito pequena. Sentimos isso em atos como o que realizamos no Largo do Rosário na semana passada, quando percebemos que poucas pessoas sabem ou se lembram do que aconteceu”, diz Cecília, que encara o texto como uma maneira do tema “não cair no esquecimento”.

Por isso, na opinião dela, instituições de ensino superiores são o palco ideal para a promoção de ‘Memorial dos Nossos Filhos Vivos’. “É preciso trazer essa realidade para jovens e professores entenderem a violência policial, afinal, é muito mais difícil isso acontecer com universitários brancos e de classe média”.

Alinhada aos interesses das mães, Cecília diz que anteontem elas puderam se sentir “acalentadas” e novamente com “um pouco de esperança na Justiça” pelo resultado do julgamento dos acusados Cardoso e Messias, que foram condenados à prisão. “Mesmo assim nosso trabalho não tem fim. Além do evento na UMC estamos tentando uma reunião na Ordem dos Advogados do Brasil e novos livros devem surgir”.

‘Memorial dos Nossos Filhos Vivos – As Vítimas Invisíveis da Democracia’ estará disponível ao público no evento de lançamento, ao custo de R$ 40,00, valor que ajuda a criar um fundo de caixa para as organizações envolvidas. Também é possível adquirir exemplares pelos telefones (11) 99569-5757 e (13) 9.8124-9643.

Mãe encontra paz após psicografia

Natan Lira

MEMÓRIA Aparecida Martos diz que publicação dá voz ao que os filhos foram mortos. Foto: Eisner Soares)

Entre os perfis publicados no livro “Mães de Maio – Memorial dos Nossos Filhos Vivos” está o de Diego Rodrigo Marttos, de 33 anos, morto 1º de janeiro de 2015. Para a mãe dele, a aposentada Maria Aparecida Alves Marttos, 62 anos, a publicação dá uma oportunidade rara: de se falar sobre a vítimas não a partir das execuções, mas antes do acontecimento dos crimes que unem as mulheres retratadas na obra. “A história começa sempre a partir dali (das mortes), como se tudo o que aconteceu para traz desse momento tivesse se apagado. No livro tem a foto do meu filho pequeno, eu falo das nossas vivências, de como ele foi meu companheiro”, ressalta.

Além de Diego, a aposentada teve o filho Ruan. Ela conta que os dois sempre foram bem diferentes. Diego mais arteiro, e Ruan quieto e responsável. No entanto, era do mais agitado que ela diz ter recebido mais carinho, até porque o outro se casou e foi morar em outro lugar. Diego também se casou, mas voltou a morar com a mãe, após se separar. Na época do ataque, a filha de Diego, Nell Izabela tinha 10 anos e morava com a avó.

Em uma psicografia obtida em uma sessão espírita, veio o alento. “O tempo que ele passou comigo foi mágico. Passado dois anos da morte, ele psicografou uma mensagem. Assim que ele morreu, eu já queria que ele falasse comigo, mas eu sei que leva um tempo para ele conseguir se comunicar. Eu esperei por dois anos. Quando veio uma mensagem, fiquei muito feliz, chorei muito, e foi dali que eu comecei a aprender a acomodar essa dor que eu tenho dentro de mim”, conta.

Apesar de o livro ressaltar as lembranças que Aparecida tem do filho, ela diz que o perfil não tem como terminar sem contar o dia em que Diego foi morto. “Na psicografia, ele fala muito em ação e reação. Eu acredito que aconteceu alguma coisa com ele na vida passada para agora ele ter ido dessa maneira. Ele tenta me acalmar, diz que perdoa o que aconteceu e que está bem. Mas isso é no plano espiritual. Aqui na terra a gente precisa que se faça justiça”, pontua. Apesar de quase cinco anos desde o assassinato do jovem, esse caso ainda está na fase de inquérito policial.

Ninguém cria filho para ser assassinado

Lucimara Santos conta que luta para que outras mães não percam os filhos. (Foto: Eisner Soares)

Lucimara dos Santos contou a própria história e a do filho Christian da Silveira Filho para o jornalista Renan Omura, autor de “Caputera – chacinas em Mogi das Cruzes“. Na última sexta-feira, no Fórum de Mogi das Cruzes, ela falou sobre o sentimento de desnorteio de uma mãe que perde um filho assassinado. “Com sete dias que o meu filho partiu, eu coloquei uma camiseta e fui para o meio da rua. Tinha umas pessoas lá, mas eu, na verdade, nem sabia direito o que estava acontecendo”.

Além da luta por justiça, Lucimara busca manter a memória de um jovem estudante morador do bairro do Caputera, que não tinha qualquer envolvimento com o tráfico de drogas. Trabalhava em um supermercado, estudava no Senai.

Após diversas manifestações nas ruas, Lucimara buscou no espiritismo um conforto. Seis meses antes da morte do filho, ela havia sepultado a mãe. “Eu estava há quatro anos limpa, porque faço tratamento contra a dependência. Parece muito tempo, mas para o tombo que a vida me deu, era pouco. Tive outras recaídas”, lembra.

Na doutrina espírita, diz ter encontrado sabedoria para lidar com a situação. Pouco mais de um ano frequentando assiduamente um centro espírita, Christian assinou uma psicografia.

“Eu entrei em tratamento no Centro, aí eu aprendi bastante, que realmente eu não sou vítima, que Christian não é vítima, até o lado religioso e filosófico, beleza, mas como mãe e ser humano, a dor é todo dia. A injustiça mora aqui dentro, porque eu acredito na justiça divina, mas vivo no mundo dos homens. Quando eu vim para cá hoje (Fórum), vim falando com o Christian. Se ele estivesse aqui, iria dizer para eu deixar pra lá, mas eu vim porque a gente precisa estar aqui, para que a minha sobrinha possa crescer, andar na rua, para que a minha irmã e outras mães não percam os seus filhos”, disse.

Em um ato de empatia, Lucimara conversou com a mãe do ex-policial Fernando Cardoso antes do júri iniciar. “Fui dizer a ela que não tenho problemas com ela e nem com o filho dela. E que acredito que ela sofra tanto quanto nós. Porque ela não colocou filho no mundo para matar os outros, e eu também não criei o meu para ser assassinado” enfatiza.