EDITORIAL

Longa espera

De tempos em tempos, a situação dos cemitérios da cidade volta ao noticiário. Nesta semana, da pior maneira: a queda de um pedaço de 15 metros do muro e de 20 nichos desocupados no Cemitério da Saudade, localizado na Vila Lavínia.

Os problemas de infiltração, afirma a Prefeitura, eram conhecidos e uma obra prevista para coibir o pior não foi feita a tempo de proteger a estrutura. Felizmente, não houve vítimas, como pedestres que poderiam estar passando naquele momento na calçada do cemitério.

Porém, o fim de parte dessa murada fratura, pouco mais, valores pessoais e sociais: o respeito e a proteção da memória de quem viveu no passado e participou da construção individual (pai, mãe, avós, tios) ou social de todos os mogianos (o professor que ensinou as primeiras letras, a parteira ou o médico, o agricultor, o padeiro, o industriário, o industrial etc e etc).

O descuido com o muro alinha-se a outros abandonos, como o fim de jazigos centenários do Cemitério São Salvador. Essa realidade é efeito colateral da destruição da memória, das identidades familiares, da história da cidade. Quem deveria zelar por esses valores? Tanto o poder público, no ordenamento desse equipamento social e de saúde pública, quanto a sociedade civil organizada, que tem o poder de pressionar o governo a cuidar do patrimônio coletivo.

O vacilo do poder público municipal integra um contexto conhecido nessa e em outras searas ligadas aos serviços municipais. A saturação e as condições dos cemitérios locais são enfrentadas com atraso ou intervenções paliativas, como a ampliação dos ossários, o redesenho das sepulturas e a redução do tempo de permanência dos corpos nos jazigos públicos.

O número de sepulturas existentes na cidade não companhou o crescimento populacional de Mogi das Cruzes. Todas as recentes administrações municipais trataram o assunto com ações pontuais. Nada que agregasse em assunto de interesse de todos. O argumento mais usado pelos prefeitos é a dificuldade de se aprovar licenciamento ambiental em um terreno livre das imposições das legislações sobre a proteção de mananciais.

Mas, e então? Essa demanda tende a crescer com a expansão imobiliária natural em uma cidade como a nossa, que sofre a pressão por moradia e a implantação de novos negócios e possui boa oferta de terrenos desocupados.

Os dois principais cemitérios (São Salvador e Saudade) têm cerca de 20 mil sepulturas. Dois anos atrás, para combater a falta de lugar para os sepultamentos, foram construídas covas nas calçadas. E só. O muro caído volta a lembrar: mais cedo ou mais tarde, esse assunto terá de ser tratado como prioridade.

E nada, absolutamente nada se fala sobre a instalação de um crematório em Mogi. Lamentável!