MÉDICO DO CRESAMU

Luiz Bot: um trabalho que salva vidas

Luiz Bot é coordenador-médico do Cresamu. (Foto: Eisner Soares)
Luiz Bot é coordenador-médico do Cresamu. (Foto: Eisner Soares)

Há três anos coordenador médico do Cresamu, consórcio que inclui o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Mogi das Cruzes, Luiz Bot é formado em medicina e pós-graduado em administração em medicina de urgência. Dedicado a esta área desde 2006, ele possui vivência em atendimentos como socorrista e conta algumas histórias nesta entrevista, espaço em que também explica como funciona o serviço e como é o treinamento da equipe que atende também outras cinco cidades da região.

Para que não se confunda com o Corpo de Bombeiros, pode explicar o que é o Samu?

É um projeto federal do Ministério da Saúde, e o próprio nome ajuda na definição – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. A ideia é iniciar o atendimento do paciente já na casa dele, ou na rua se for um acidente. Existem alguns estudos provando que este atendimento aumenta muito a chance de este paciente não ir a óbito. Ou seja, é um atendimento, rápido e móvel que faz o diagnóstico e inicia o tratamento antes do paciente ser atendido no hospital.

A base de Mogi atende a quantas cidades?

O Samu de Mogi participa do consórcio regional Cresamu, composto por Mogi das Cruzes, Salesópolis, Biritiba Mirim, Guararema, Arujá e Santa Isabel. A base de todas estas cidades é a daqui, onde fica a central de regulação. Isso quer dizer que em qualquer um destes seis municípios ao discar 192 a ligação cai aqui.

Isso faz com que o atendimento seja mais rápido em Mogi?

Não. Apesar da base de atendimento telefônico ser no mesmo endereço dos bombeiros, no Shangai, o tempo é igual. Isso porque temos 15 viaturas, das quais três são reservas técnicas, ficando 12 em movimento. Elas são divididas em duas categorias: suporte básico, compostas por condutor e técnico de enfermagem com treinamento de socorrista e as SAVs (Suporte Avançado de Vida) – que tem, além do condutor e enfermeiro, um médico e equipamentos como respiradores e monitores, funcionando como fosse um leito de UTI móvel. Das 12, há uma em cada uma das cidades e sete em Mogi das Cruzes, já que representamos 70% da demanda do consórcio.

Quem faz o atendimento telefônico?

A sala de regulação é composta por três tipos de profissionais. Primeiro, quando alguém liga, vai falar com uma atendente TARM (Técnica de Atendimento Pré-Regulação Médica). Ela vai fazer algumas perguntas técnicas como o nome e idade de quem está falando, o que está acontecendo de forma sucinta e o endereço. Esta etapa dura até 60 segundos e depois disso ela encaminha para um médico regulador. Sempre há duas pessoas de plantão nesta função, para entender o que está acontecendo no local e agir de duas formas: fazer uma orientação por telefone ou liberar uma ambulância para atendimento no local. E ainda há os rádio operadores, que fazem a gestão da localização das nossas ambulâncias em tempo real, por meio de GPS e localizador.

Como é o treinamento desta equipe?

Todos os nossos TARMS e médicos que têm contato com a população passam por uma avaliação pela coordenação. Posso dizer que todos que estão trabalhando têm treinamento e avaliação psicológica adequada para não entrar no stress e sim acalmar a pessoa que está do outro lado, fazendo-a entender que se não tivermos as informações necessárias não será possível ajudá-la. O treinamento psicológico permite que os médicos inciem o tratamento a distância, inclusive em casos de convulsão, que assustam muito mas são extremamente simples para nós. Nesses casos, basta proteger a cabeça do paciente e afastar tudo o que estiver a seu redor para não que se machuque, e aguardar a chegada da ambulância.

Quantas pessoas integram a equipe, e qual a formação delas?

Ao todo são 200 pessoas, sendo 20 da parte administrativa e 180 socorristas, dentre os quais médicos, enfermeiros, técnicos e condutores. São homens e mulheres de todas as idades que passam por capacitação específica, com duração aproximada de seis meses. Além disso, faço pessoalmente avaliações dos atendimentos, ouvindo gravações de ligações de forma aleatória e apontando erros quando necessário e também elogiando quando é preciso.

Como os socorristas lidam com as situações que presenciam?

Todos nós somos treinados para sermos frios. Eu mesmo já vi muita desgraça e fui chamado de “coração de pedra”. Na hora prestamos atendimento e temos que ser o mais precisos e frios possível, mas depois que a situação acaba, choramos e passamos a sonhar com a situação. Mas, de modo geral, somos treinados não a absorver, mas sim a passar pelos acontecimentos.

Quais são as principais ocorrências?

Em todo o ano recebemos aproximadamente quatro mil ligações por mês, e algo em torno de 86% desse número vira atendimento efetivo, sendo mil chamados para remoções inter-hospitalares. Do restante, 70% são chamados clínicos, principalmente infartos, acidente vascular cerebral (AVC) e paradas cardiorrespiratórias. Também há ocorrências de menor gravidade, como quadros compulsivos, dores, problemas respiratórios, alterações de doenças crônicas e outras comorbidades que podem gerar desconforto. E os outros 30% são traumas, acidentes automobilísticos que em sua maioria envolvem motociclistas.

Qual a importância do Samu para a população?

Certa vez atendi um caso de briga entre dois irmãos, no qual um esfaqueou o outro. Cheguei até o local, e um dos rapazes tinha sofrido uma facada no tórax, que pegou no coração. Ele teve parada cardiorrespiratória, então o reanimei e fiz drenagem para depois levá-lo ao centro cirúrgico, onde foi operado. Fui visitá-lo na semana seguinte, e estava vivo na UTI. Tinha 19 anos. Essa história resume a importância do Samu. Se não chegássemos rápido para iniciar o atendimento no local, ele teria morrido.

Que outras histórias você pode contar?

Tenho várias. Um dia fui chamado logo de manhã para um atendimento que consistia num trauma crânio encefálico de uma criança recém-nascida. Achei que ela tinha caído do berço, mas não. No local descobri que a mãe acordou e foi tomar banho e então nasceu o bebê. Ela não sabia que estava grávida e deu a luz no chuveiro. O trauma foi a criança ter caído no chão. Terminei de fazer o parto e levamos a criança com vida para a maternidade.

E teve outra vez que, numa comunidade japonesa, fui atestar o óbito de uma senhora de 102 anos. Quando cheguei na casa, a família estava toda na porta e me disse para ir ao quarto mais ao fundo. No caminho, saiu andando uma senhora atrás de mim, de não sei quantos anos, vestida com camisola branca. Tomei um susto, pensando que era a mulher que deveria estar morta. Ao ver minha expressão, a família me disse que aquela era a avó, de 80 e tantos anos, e não a bisavó, de 102. Todos riram, apesar da situação triste.


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