DESABAFO

Mãe de mogiano morto em baile funk, na comunidade de Paraisópolis, diz que vai lutar por justiça

DESPEDIDAS Amigos e familiares participam do velório e o sepultamento de Bruno Gabriel, nesta terça-feira (03). (Foto: Natan Lira)

“Neste momento, eu entreguei o meu filho para Deus. A justiça divina será feita. Agora a justiça dos homens, enquanto eu tiver vida, eu vou correr atrás. Eles jamais poderiam ter feito isso com essas crianças. São assassinos”. O desabafo é de Graça Reis da Silva, de 65 anos, que por mais de duas décadas foi mãe adotiva de Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos, ao deixar a capela do Cemitério São Salvador, no Parque Monte Líbano, minutos antes do sepultamento do filho adotivo.

Bruno Gabriel dos Santos é uma das vítimas fatais da ação da Polícia Militar na comunidade de Paraisópolis, na zona sul da capital paulista, na madrugada do último domingo. Ao todo, nove jovens morreram e outros 12 ficaram feridos. Em Mogi das Cruzes também morava Gabriel Rogério de Moraes, de 20 anos, sepultado anteontem no Cemitério da Saudade.

Mais cedo, no velório do jovem, em uma sala do Cristo Redentor, o clima era de muita emoção, mas também revolta. Graça contou que começou a cuidar de Bruno com 11 meses, mas só aos dois anos ele foi de vez para a casa dela.

“Ele completou 22 anos na quinta-feira e mataram o meu filho no sábado. Eu digo mataram mesmo, porque se olhar para ele, você vê o estado em que ele está. A testa funda, a mão com três dedos quebrados, toda arrebentada. Uma pessoa pisoteada não fica neste estado. Ele só tem cicatriz do pulso até a mão, daí para cima, no braço, não tem”, afirma.

DRAMA Bruno completou 22 anos na ultima quinta-feira. (Foto: reprodução – redes sociais)

O sentimento de indignação da mãe era compartilhado pela irmã de Bruno, Vanine Cristiane Siqueira. Ela conta que foi até o Instituto Médico Legal (IML) Sul de São Paulo para fazer o reconhecimento do corpo, mas não teve autorização para ver partes do corpo do irmão, apenas o rosto.

“O atestado não está falando a causa da morte dele. Agora dá vontade de abrir aqui (o caixão) e revirar o corpo para ver como estão os hematomas. Eu estou agoniada porque não me deixaram ver o corpo. Mas sabe quando a pessoa pega você assim e te empurra, você já está meio assim com tudo o que está acontecendo, e uma pessoa disse que eu não poderia ver. Eu quero ver o corpo dele, porque quem estava com ele disse que ele parou para socorrer uma menina que estava no chão, e nisso chegou o policial e meteu a cacetada nele”, diz.

A versão da polícia de que os jovens morreram pisoteados não convence a irmã. Isso porque, segundo ela, não há arranhões e fraturas pelo corpo, mas machucados em partes específicas, como cabeça e mãos.

“Você vê que ele tentou se defender, porque está com as mãos toda arrebentadas. Isso que dói muito saber que não foi uma morte natural, e sim (uma vida) tirada. Ele não estava em um lugar adequado, e eu perguntei porque eles foram para lá, um lugar tão longe. Eles me disseram ‘tia, nós programamos o aniversário do Bruninho há uma semana. Foi a curiosidade. Eles me perguntaram se eu não tinha passado por isso”, contou.

Eu perguntei o que levou eles a irem para um lugar tão longe, tão perigoso, aí eles disseram que foi a curiosidade. Eles me perguntaram se eu não tinha passado por isso. Como era aniversário do Bruno, veio na cabeça que a gente ia comemorar. ”, finaliza a irmã.

Na causa da morte na certidão de óbito do rapaz consta “a determinar (aguarda resultado de exames)”. Segundo o cunhado da vítima, Gilliard de Noronha Santos, ele foi informado no IML que para saber a causa da morte, a famílila deveria esperar por mais 30 dias até a divulgação do resultado da perícia. “Eu acho estranho porque disseram que ele estava com vida quando chegou no hospital. Ele ficou em coma por um tempo, e como não sabem do que ele morreu?”, questiona Santos.

A Polícia Técnico-Científica informa que em nenhum momento, após a necropsia, a família é impedida de tocar no corpo. O que se restringe é a entrada de pessoas estranhas ao ambiente, em respeito às questões sanitárias exigidas pela legislação.

Já a Corregedoria das polícias informa que está à disposição para receber denúncias e reclamações em relação à atuação dos agentes públicos. Em relação aos fatos, as investigações seguem pela Corregedoria da Polícia Militar e pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Jovens viveram momentos de pânico, correria e medo

Os amigos de Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos, morto durante a ação da Polícia Militar na comunidade de Paraisópolis, relembraram os momentos que viveram na madrugada do último domingo. Eles contam que por volta das 4 horas, ouviram um disparo. Nesse momento, a multidão começou a correr. Daí em diante, eles encontraram pessoas pelo chão e jovens sendo agredidos por policiais.

“O que a gente via era as pessoas levando pancadas, caindo, encurralada nas vielas. A gente não está mentindo. Eles iam me dar uma cacetada, mas pegou em uma menina que eu nem conhecia. A gente quer que a irmã dele tenha justiça, para deixar e saber que teve justiça a morte do irmão dela”, falou Caio Bernardino, de 18 anos.

Vinicius Gonçalves Bianco, 19 anos, disse que a última vez que viu Bruno Santos, ele estava desmaiado e sendo levado pela multidão. Antes disso, ele tentou segurar na mão do amigo, mas não conseguiu. “Depois eles fecharam todas as entradas e eu não via mais ele. Ficou todo mundo em uma viela. Foi quando teve um espaço, eles tentaram me dar uma caceteta na cara, mas eu esquivei. O policial me disse que eu tinha me salvado, e que eu poderia salvar mais um. Nessa hora, a gente não quer salvar só um. Eu peguei um menino pelo braço e a gente saiu. Não achamos mais ninguém do nosso grupo”, afirmou.


Deixe seu comentário