CHACINAS

Mães de jovens mortos em Mogi pedem justiça no julgamento de policial acusado pelos crimes

Mães e familiares e amigos das vítimas se mobilizam em vários atos desde que os crimes aconteceram. (Foto: Arquivo)
Mães e familiares e amigos das vítimas se mobilizam em vários atos desde que os crimes aconteceram. (Foto: Arquivo)

Mães e familiares dos jovens mortos na série de execuções ocorrida entre 2013 e 2015, na periferia de Mogi das Cruzes, realizam um ato público nesta segunda-feira (29), às 11 horas, no Largo do Rosário, um dia antes do primeiro júri do policial Fernando Cardoso Prado de Oliveira, acusado pelo Ministério Público por homicídio qualificado por atividade típica de grupo de extermínio.

O julgamento será sobre uma das primeiras chacinas, que matou Matheus Aparecido da Silva, de 16 anos, Felipe Buono Ferreira, e feriu uma terceira vítima, um jovem que se fez de morto, e conseguiu escapar com vida. Pelo menos 21 jovens morreram nas mesmas condições.

O processo corre em segredo de Justiça. O júri acontecerá no Fórum de Braz Cubas. A defesa do policial irá negar a autoria do crime.

O protesto, amanhã, deverá reunir integrantes do grupo Mães Mogianas, inspirado no movimento Mães de Maio, surgido em São Paulo após a histórica série de mortes ocorridas entre 12 e 15 de maio de 2006, quando 564 pessoas morreram no Estado. A maioria desses casos em situações que indicavam a participação de policiais. Integrantes do grupo paulista deverão participar do ato mogiano.

A professora Inês Paz, que deu aulas para alguns dos jovens mortos, moradores nos bairros do Caputera, Vila Natal e Jardim Camila, crê na condenação, embora se mantenha com os pés no chão. “Nós não sabemos quem são e o que pensam os jurados, e a conjuntura atual, onde muitos pregam que ‘bandido bom é bandido morto’, deve ser levada em consideração”, argumenta.

Nos últimos cinco anos foi a articulação das mães que deu visibilidade à série de chacinas, e pressionou as autoridades a investigarem os casos que ocorreram em situações semelhantes.

Além do policial Cardoso, também foi denunciado o policial Wanderlei Messias de Barros, que não foi expulso da corporação e cumpre prisão domiciliar. Barros chegou a ser preso, mas atentou contra a própria vida, e teve graves sequelas desse ato.

O policial Fernando Cardoso está preso há três anos e foi expulso da Polícia Militar.

Uma das lutas do grupo Mães Mogianas, além da condenação dos acusados, é a continuidade das investigações para se chegar aos demais autores das execuções. Nas cenas dos crimes, sobreviventes (mais de uma dezena) afirmam que mais homens desciam de carros ou motos, atirando contra as vítimas.

Mãe

Uma das testemunhas que será ouvida durante o júri é a mãe de Matheus, Claudete. Com 39 anos, ela estava grávida do filho mais novo, João, quando recebeu uma ligação, por volta de uma hora da madrugada, com a notícia de que o filho havia sido atingido por disparos.

O garoto, com 16 anos, sobreviveu 13 horas aos ferimentos e morreu no Hospital Luzia de Pinho Melo.

Claudete preferia não ir ao julgamento. Também não pretende ir ao manifesto de amanhã. E se justifica: “É muito sofrimento. Eu fui às reuniões do grupo, em encontros internacionais do Mães de Maio, mas sempre sofria muito. Então, eu parei de ir”.

A mãe confia na justiça. “Eu estou esperando justiça. Ele (o policial Cardoso) está preso, foi expulso da PM, e isso já foi uma vitória porque mais jovens estariam mortos agora, se eles não parassem”.