Marcello Cusatis, o Téo: Somente a vacina trará ‘normalidade’

Téo Cusatis é ex-secretário de saúde de Mogi.
Téo Cusatis é ex-secretário de saúde de Mogi.

Ele deixou a Secretaria Municipal de Saúde de Mogi das Cruzes no início de 2019, mas o mogiano Marcello Delascio Cusatis, mais conhecido como Téo, continua ativo na área da saúde. Formado em Biomedicina pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e especializado em Administração Hospitalar, nesta entrevista ele fala sobre a Covid-19, em especial sobre vacinas que estão sendo estudadas no Brasil. Além disso, comenta o fato de o infectologista e professor em Mogi Jean Gorinchteyn ter sido nomeado secretário estadual de Saúde e opina ainda sobre o trabalho da administração municipal no combate ao novo coronavírus.

Nessa semana o diretor executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS), Michael Ryan, disse que o mundo deve começar a ser vacinado contra a Covid-19 “na primeira parte” de 2021. Podemos depositar esperanças nisso?

Tive a oportunidade de conversar, através de entrevista nesta semana, com o Dr. Arnaldo Medeiros, que é o atual secretário nacional de Vigilância em Saúde (SNVS), departamento que fica hierarquicamente abaixo apenas do ministro da Saúde referente a ações de vigilância e imunização em todo país. A SNVS está a frente do estudo da vacina do convênio realizado entre o Governo Federal e Universidade de Oxford, no montante de 127 milhões de dólares, e ele se mostrou muito otimista, pois a vacina entrou na fase três de testes (a última com milhares de testes em humanos em larga escala para assim avaliar eficácia e segurança e prever eventos adversos). A expectativa é de já poder produzir e entregar 34 milhões de doses entre os meses de dezembro deste ano e janeiro de 2021.

Além dessa vacina, existe outra sendo desenvolvida e testada no Brasil pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac Biotech. É para se comemorar o fato de que duas possíveis soluções para a pandemia estejam sendo estudadas no país?

Obviamente devemos apoiar e agradecer todas as medidas de vanguarda, sejam no desenvolvimento da tecnologia da vacina como na aquisição pelos governos federal, estadual ou municipal. Aliás, é isso que esperamos dos governos em um momento como esse: que sejam protagonistas de soluções.

Nesta semana o governador João Doria definiu o mês de novembro para o início da produção das vacinas do Butantan. Acha isso viável?

Gostaria muito que isso se tornasse uma verdade segura e acessível, mas pelas informações que temos, como as fases que todos estão acelerando para obter uma vacina segura e eficaz, e como os testes desta vacina estão começando neste momento, tenho dúvidas de que até novembro já esteja disponível em larga escala. Afinal, são as pessoas mais vulneráveis e dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) ainda com perfil de risco que devem ser priorizadas.

O que deve acontecer quando enfim houver uma vacina eficaz contra o novo coronavírus?

Além dos ambulatórios especializados em pós-Covid e atenção especial para a reabilitação pulmonar, renal, hepática e neurológica, que já são realidades para acompanhamento, com a vacina eficaz contra a Covid-19 já amplamente oferecida à população, acredito que enfim possamos voltar a maior “normalidade” das atividades econômicas e de lazer e poderemos avaliar o tamanho do aprendizado que esta pandemia nos deixa.

Considerando sua experiência na área médica e também como gestor público, qual sua opinião sobre imunidade de rebanho, ou seja, a imunidade adquirida após certa porcentagem de uma população se contaminar com algum vírus?

O efeito da imunidade de rebanho é interessante, pois com grande porcentagem de pessoas imunizadas (entre 60% e 80%) o vírus para de circular. Porém, para uma doença nova como a Covid-19, para a qual até o momento não há vacina e sequer tratamento padronizado com medicamentos específicos, a imunidade de rebanho pode ser altamente perigosa, com efeitos desastrosos.

O senhor acredita que ter como secretário estadual de Saúde o infectologista e professor em Mogi das Cruzes Jean Gorinchteyn possa beneficiar a cidade e a região de alguma maneira?

Sim! Toda oportunidade de uma cidade ou região contar com um profissional que conhece mais de perto a sua realidade é válida, pois torna mais fácil o entendimento das solicitações. Ele inclusive fez medicina na mesma turma que a secretária-adjunta de saúde de Mogi das Cruzes, a Dra. Rosangela Cunha. Obviamente essa proximidade com gestores da cidade traz também maiores expectativas de resolução de demandas antigas, como ampliação de leitos e implantação do heliponto no Luzia de Pinho Melo, mais vagas no AME, colocar o HC de Suzano para atender a população do Alto Tietê, maior aporte de recursos na Santa Casa e Hospital Municipal, por exemplo, além de maiores investimentos que dependem de mais apoio do Governo do Estado. 

Já há um ano e meio o senhor está longe da Secretaria Municipal de Saúde. Ainda assim, é uma pessoa ativa na cidade, tendo proposto recentemente a criação de um sistema nacional integrado de informações para agregar e mapear os resultados de exames para detecção da Covid-19. Como avalia então o trabalho da saúde mogiana no combate ao novo coronavírus?

Apesar de fazer tanto tempo que me desliguei da Secretaria Municipal de Saúde, minha escolha de vida foi ser um profissional na área de saúde, então tento sempre estar atento a tudo que acontece em nossa região e principalmente em nossa cidade, pois aqui convivo com minha família. A integração de dados e de informações me parece muito necessária na gestão em saúde, principalmente num momento de pandemia nacional. A Saúde municipal e suas unidades contam com corpo de profissionais de alto conhecimento técnico, comprometidos e principalmente, que gostam de pessoas, e isso faz toda a diferença na cultura de uma Pasta tão importante. Acredito no resultado positivo que o Dr. Henrique (Naufel) e toda equipe vem mostrando nesta pandemia, principalmente por manterem funcionando um importante parque de equipamentos de saúde que Mogi construiu ao longo dos últimos anos, além de buscar o melhor de toda rede do SUS para combater o novo coronavírus.

Acredita que o Alto Tietê, em especial Mogi das Cruzes e também Suzano, onde o senhor atua como diretor Comercial e de Expansão do Hospital Santa Maria, tem testado um número satisfatório de pessoas?

Assim como no restante do país, infelizmente testamos muito pouco. O Brasil está entre os piores países em oferta de testes para Covid-19, uma falha brutal. Começamos a melhorar nas últimas semanas devido ao aumento de exames pela iniciativa privada, e o Ministério da Saúde iniciou a oferta de grande quantidade de testes para detecção da doença na fase aguda, sendo 50 mil para Mogi. Porém, ainda me parece que não chegaram na cidade até o momento.

Falando sobre testes, a OMS emitiu um alerta para a subnotificação no Brasil. Como o senhor enxerga isso e também como vê a testagem em massa?

Obviamente a pouca testagem nos leva a subnotificações, principalmente nos casos leves. Acredito que ainda há necessidade de testagem em massa da nossa população, ou seja, conhecer por etnia, região, cidade, bairro, rua e doenças prévias, para entender como verdadeiramente caminha a pandemia. Assim, com mais informações, poderíamos determinar medidas específicas com mais segurança para cada região.

O senhor acha que as áreas médica e científica terão maior credibilidade no pós-pandemia?

Tenho a convicção que os profissionais de saúde estão sendo mais valorizados, que verdadeiramente quando perdemos a saúde tudo em nossa vida para. Espero que aconteça uma revisão funcional e de categorias que possam olhar mais por nossos profissionais de saúde. Que se perceba que a preparação de um sistema de saúde deve ser valorizada não apenas quando se utiliza, mas quando se pensa também a medicina preventiva. Teremos mudanças importantes na relação médico-paciente, veremos a consolidação da telemedicina e a inteligência artificial como ferramenta de gestão populacional.


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