ENTREVISTA DE DOMINGO

Márcia Cristina é a guardiã dos móveis de Deodato Wertheimer

Márcia Cristina Arantes de Oliveira. (Foto: Elton Ishikawa)

A sala de jantar com móveis robustos esculpidos em madeira escura por anos disposta em um dos cômodos do casarão da esquina da avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco e rua Campos Salles, que pertenceu ao médico Deodato Wertheimer e foi comprado ainda no início do século passado pelo casal Ana e Horácio de Oliveira, está na residência de Márcia Cristina Arantes e Marcos Fernando de Oliveira – ele é neto do comerciante que por anos comandou a Casa Oliveira. O conjunto de relíquias formado por uma mesa acompanhada por oito cadeiras de encostos e assentos em couro trabalhado, dois bufês, uma cristaleira e dois guarda-roupas – estes últimos estão desmontados e guardados no sótão da casa – é motivo de orgulho não apenas para o casal, que o herdou da família, mas também para as filhas, a médica Márcia Fernanda – casada com Roberto Iglesias -, e a engenheira elétrica Luciane, além do neto Arthur, de 2 anos. Na sala de jantar, cenário que conta parte da história da cidade e que fazem questão de preservar, eles se reúnem para as refeições. A mobília chama atenção na casa da Vila Oliveira há mais de duas décadas, mas antes estava na residência dos pais de Marcos, Marina e Horácio de Oliveira Júnior – ambos já falecidos – após o casarão da avenida ter sido demolido para dar lugar a uma agência bancária. A história é contada por Márcia, que costuma recolocar na tradicional mesa os porta-talheres em prata que nela eram usados pela avó do marido, Ana, de quem também guarda o binóculo adornado em madrepérola que a matriarca utilizava para assistir às corridas no Jockey Club de São Paulo. Na entrevista a O Diário, Márcia compartilha mais de suas lembranças com os leitores.

Como os móveis da sala de jantar do casarão que pertenceu ao Dr. Deodato Wertheimer vieram para sua casa?

Os avós do meu marido, Ana e Horácio de Oliveira, que desde menina, antes mesmo de namorar com o Marcos, também chamava de meus avós, moravam no casarão da esquina da avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco) e rua Campos Salles, que pertenceu ao Dr. Deodato Wertheimer. Quando a casa foi demolida para a construção da agência bancária que ainda funciona lá, os móveis ficaram com meus sogros (Marina e Horácio de Oliveira Júnior). Minha sogra sabia da admiração que eu e meu marido tínhamos por estas peças, então, ela nos deu quando deixou a casa no centro e foi morar em um apartamento. Há mais de 20 anos eles estão conosco e fazemos questão de conservá-los.

De que forma conservar a mobília de mais de 100 anos?

Uma vez por ano meu marido e minha filha Luciane desmontam tudo e tratam a madeira para evitar cupins. Na sala de jantar estão a mesa com as oito cadeiras em madeira escura, a cristaleira e os dois bufês que têm chaves nas portas. Já os dois guarda-roupas desmontamos e guardamos no sótão de casa. Jamais pensamos em nos desfazer destas peças, que fazem parte da história da família e passam de geração a geração. Muita gente já falou para trocarmos, principalmente porque estes móveis, como a maioria dos antigos, são feitos em madeira escura e hoje em dia a tendência é usar tons mais claros. Já sugeriram até fazer pátina para clareá-los, mas queremos deixá-los do jeito que sempre foram, mantendo suas características originais. Gostamos muito de preservar tudo isso e nossa casa também tem guarda outra parte da história de Mogi, porque o alicerce e a estrutura do andar térreo foram feitos com os tijolos antigos da demolição do salão de bailes 1º de Setembro, que ficava ao lado da casa dos meus sogros, na rua Barão de Jaceguai.

A senhora se recorda do casarão da avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco?

Conheci o casarão ainda criança, porque ia com meu pai (João Batista Augusto Arantes, o João da Farmácia) comprar materiais de construção na Casa Oliveira, que era do seu Horácio, avô do Marcos, e funcionava na rua Coronel Souza Franco. Como o seu Horácio falava que queria que eu fosse sua neta, o chamava de vô. Da mesma forma, frequentava a casa onde ele e a vó Ana, como também sempre a chamava, na avenida, esquina com Campos Salles. Ela pegava toda aquela área, passando pela área onde até pouco tempo funcionou o Colégio Objetivo, já na rua Coronel Santos Cardoso, e passava um pouco mais até o outro quarteirão. O quintal era enorme, com pomar formado por várias árvores frutíferas, incluindo cinco jabuticabeiras. Três delas ainda estão lá e têm mais de 100 anos. Havia um espaço onde a avó Ana criava abelhas. O sobrado, com vários quartos e salas, ficava de frente para a avenida. As festas de Natal e final de ano eram lá. No quarto da vó havia uma sacada, de onde assistíamos de camarote aos desfiles de aniversário da cidade, no dia 1º de setembro, e aos carnavais. Meu marido, que jogou na Seleção Mogiana de Futebol, fez parte da Banda Acadêmica, com os amigos, que também saía pelas ruas da cidade, sempre com inspiração em temas de novelas da Globo que estavam na moda.

O que mais havia nesta avenida?

Além deste casarão, que tenho uma foto do ano de 1926 pendurada na parede da sala de jantar de casa, havia outros na avenida que também chamavam a atenção pelo capricho com que foram construídos e pela beleza. Lembro que o médico de sobrenome Straube morava em um deles, mas várias outras famílias da cidade também tiveram casarões na avenida.

Qual sua avaliação sobre a preservação destes casarões históricos na cidade?

Aqueles que ficam no raio de 300 metros das igrejas do Carmo precisam ser mantidos, mas os demais, que estão caindo, poderiam ser modernizados desde que mantivessem algumas de suas características originais. Em vários países é comum ver a fachada preservada e, na parte de trás do imóvel, um prédio novo construído. Sou a favor da modernidade, mas não é certo derrubar um casarão antigo para se fazer algo de mau gosto e de qualquer jeito, sem o mínimo de capricho. A revitalização da Vila Helio, por exemplo, ficou ótima. É isso que precisa ser feito em vários pontos da cidade, unindo o passado à modernidade para dar utilidade a estes prédios.

Depois de casada, a senhora se envolveu nos trabalhos voluntários desenvolvidos pela sogra com a cunhada, Maria Aparecida de Oliveira Briquet. Como foi esta experiência?

Minha sogra e a tia Cida faziam parte das Oficinas de Santa Rita de Cássia, da capela da rua Ipiranga, e eu sempre ajudava. Ali, com a dona Jandira, montávamos enxovais para filhos de mães solteiras que faziam o cadastro conosco durante o ano todo. Nós íamos para São Paulo fazer compras de grande quantidade de tecidos, lã e outros materiais para produção das peças. Com a ajuda de voluntárias, preparávamos os kits que tinham tudo o que os recém-nascidos precisam. Era um trabalho muito bonito, que ajudava bastante gente da cidade. Geralmente, eram as mães que levavam as filhas grávidas e solteiras para fazerem o cadastro. Elas deixavam a data provável do nascimento da criança e depois vinham buscar o enxoval completo para o bebê.

A senhora também participou da organização dos bailes de debutantes que marcaram época no Clube de Campo?

Elas (Maria e Cida) eram envolvidas em várias atividades na cidade, como na Irmandade de Santana, e também faziam estes bailes. Eu as acompanhava, levando as meninas para treinar a dança na Academia do Barro Branco, em São Paulo. Os cadetes vinham para participar dos bailes, no Clube de Campo, que realmente marcaram época na cidade. Lembro que quando fiz 15 anos não participei porque havia sofrido um acidente na escola e estava com a perna engessada, mas minhas amigas passaram em casa para me dar um abraço e foram participar do baile. Era tudo muito lindo e o colunista Mutso Yoshizawa, do Diário de Mogi, registrava e depois publicava as fotografias em sua coluna. Fui fazer aulas com o Fábio Arruda, em São Paulo, para ensinar etiqueta às debutantes, que praticamente passavam o ano todo conosco, envolvidas em reuniões e várias atividades. Depois, até dei aulas de etiqueta social na escola CDI, em Mogi, graças aos ensinamentos desta época.

O que mais ficou desta época?

A convivência com as jovens era gratificante e ainda hoje encontro com várias delas, que já são médicas, advogadas, engenheiras, etc, e param para conversar e relembrar aquele tempo que também ficou na memória delas, porque realmente era o primeiro baile noturno do qual participavam e a primeira vez em que usavam sapato de salto alto. Minhas filhas e sobrinhas participaram deste baile, mas atualmente, infelizmente, as garotas não querem este tipo de festa para comemorar o aniversário de 15 anos. Algumas até preferem viajar do que a festa. É uma pena, porque esta lembrança fica para sempre.

Quais outras recordações dos tempos de infância?

Nasci em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, mas me considero mogiana, porque quando tinha de 2 para 3 anos, meus pais (João Batista Augusto Arantes e Terezinha de Oliveira Arantes) vieram morar em Mogi das Cruzes, onde ele trabalhou como balconista na farmácia São Benedito, na rua Dr. Paulo Frontim. Logo, meu pai estudou Farmácia em São Paulo e comprou, com um sócio, a Farmácia São Sebastião, em frente à antiga Maternidade Mãe Pobre (hoje Mogi Mater). Após alguns anos, vendeu a parte dele ao sócio e adquiriu a Farmácia Santa Rita, em Jundiapeba, onde ficou um bom tempo. Lá, eu o ajudei bastante.

Em quais regiões da cidade sua família morou?

Primeiramente, com meus pais e meu irmão Adalberto, moramos em uma vila de casas da rua Dr. Corrêa, em frente à antiga fábrica de tecidos Mogitex, no Shangai. Depois de uns três anos, meu pai comprou uma casa no bairro dos Remédios, mas logo construiu uma na rua Antônio Nascimento Costa, atrás do cemitério, e outra na rua Dr. Ricardo Vilela, a dois quarteirões do Clube de Campo, onde moramos mais tempo. Na época, eu já era sócia e não saía de lá. Nos Carnavais, fazia uma roupa para cada noite e, em 1979, fui eleita rainha do Carnaval do Clube. Meu sogro foi sócio-fundador e, já casada, eu fiz parte do Conselho Feminino.

Onde a senhora estudou?

Fiz o primário no Instituto de Educação Dr. Washington Luís e no ginásio fui para o Liceu Braz Cubas, onde estudei o científico e no quarto ano optei pelo Normal. Lá, participei da fanfarra da escola, que vivia uma rivalidade com o Instituto de Educação, onde meu marido estudava e também fazia parte da fanfarra de lá nesta época, mas no final, todos se encontravam nos bailinhos na casa das famílias aos finais de semana e eram amigos. Além disso, a juventude da época se reunia nas missas das 10 horas aos domingos na Catedral, nas sessões do Cine Avenida e nas matinês do Clube Náutico Mogiano. Depois, me formei em Relações Públicas no curso de Comunicação Social e em bacharel em Direito na Universidade Braz Cubas (UBC).

A senhora lecionou?

Comecei como professora substituta na escola estadual Maria Isabel dos Santos, em Jundiapeba, perto da farmácia do meu pai. Nesta época, o ajudava pela manhã e à tarde ia dar aulas. Depois, trabalhei como caixa na agência de Braz Cubas do banco Bradesco e no antigo BCN (Banco de Crédito Nacional), onde o gerente era o seu Nelo Boratto. Na época que meu pai comprou a farmácia em Jundiapeba, eu estava com 16 anos, não tinha carteira de motorista, mas já dirigia o Fusca verde dele pela estrada de paralelepípedos com postes no meio que ligava Mogi a Suzano. Só que os guardas da Polícia Rodoviária, que ficavam no posto de Jundiapeba, eram amigos e clientes do meu pai, então, só me pararam uma vez para pedir carona até a farmácia. Quando meu pai precisava de algum medicamento, eu buscava e levava até a farmácia. Foi assim até me casar, quando passei a me dedicar aos trabalhos voluntários com minha sogra e a tia Cida, que infelizmente já faleceram. Hoje, continuo participando dos eventos da Rede Feminina de Combate ao Câncer e dos bazares beneficentes realizados na cidade, seguindo o exemplo delas.

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