Marco Guerra: Contando histórias em ambiente virtual

Arte educador Marco Guerra produz vídeos em que não só lê como interpreta os acontecimentos de fábulas clássicas. (Foto: Fábio Aguiar)
Arte educador Marco Guerra produz vídeos em que não só lê como interpreta os acontecimentos de fábulas clássicas. (Foto: Fábio Aguiar)

É muito comum que as escolas proporcionem às crianças acesso a fábulas, composições literárias curtas em que os personagens são animais antropomorfizados, ou seja, apresentam características humanas. Agora que as instituições de ensino estão fechadas, arte educadores como Marco Guerra utilizam a internet para contar essas histórias. Assim como nos vídeos em que ele publica, é válido começar pela introdução: “Senhoras e senhores, respeitável público, crianças, crianços e crianças, com vocês, a aula aberta do professor Guerrinha”.

Além de arte educador, Marco Guerra é ator, agitador cultural, professor, defensor e estudioso da figura do palhaço. Criado Mogi, já apresentou por aqui o espetáculo ‘Circo de Brinquedo do Palhaço Melancólico’, e tem muito carinho pela cidade, tanto que espera, com suas leituras, atingir crianças e adolescentes mogianos.

O conceito é simples e democrático. “É para todos e todas, qualquer um que queira se utilizar daquele vídeo, sejam educadores, pais ou mães. E é exatamente o que está acontecendo, pelo número de compartilhamentos”, diz Guerra, que começou a produzir os vídeos como uma demanda do trabalho como professor do Centro Comunitário Intergeracional de Tiradentes.

Segundo ele, a devolutiva foi tão boa que o material acabou sendo postado publicamente. “Foi a melhor coisa que fiz, agora sinto que estou contribuindo mais efetivamente com minha arte nesses dias tão sombrios e solitários”, resume, sobre a experiência.

Mas o que há de tão interessante nos vídeos? Um personagem lúdico, divertido, que entretém a garotada com tiradas engraçadas, como quando finge esquecer “onde foi parar a fábula”, para, na sequência, encontrá-la no livro e ficar empolgado em poder ler um dos contos de Jean de La Fontaine.

É claro que a literatura nacional também tem histórias interessantes, como as dos personagens folclóricos. Mas há justificafiva para escolher as de um poeta e fabulista francês. “Em princípio, as escolhi porque foi sugerido que fizéssemos vídeos curtos, e as únicas histórias curtas que conheço são as fábulas e as parábolas. Preferi as fábulas às parábolas, que são muito complexas. Elas surgiram na Grécia, com o escravo chamado Esopo, e La Fontaine foi quem as resgatou na idade média e as reescreveu”.

O gênero literário pode ser escrito em prosa, mas no acervo de Guerra aparece em verso, “adaptado por grandes poetas brasileiros e portugueses, como Barão de Paranapiacaba, Machado de Assis e Bocage”.

A cada aula, são selecionados os contos com mais “facilidade de entendimento”, e depois da história entram em cena os personagens ‘Fubá’ e ‘Estrela’ para explicar tudo o que foi recitado em rimas.

Como muitas outras soluções desta época de quarentena, os fantoches foram improvisados com o material que o professor tinha em casa. Contudo, as duas luvas térmicas de silicone, feitas para pegar em panelas quentes, não deixam nada a desejar quando comparadas a bonecos de meia ou outros materiais, já que são temáticas de bichinhos.

Há um ponto extra que torna classifica a atividade como “lúdica/pedagógica”. A cada palavra incomum encontrada durante a leitura, Guerra faz uma anotação num caderninho. Ao final, sugere que as crianças, ao lado da família, pesquisem os significados dos termos desconhecidos no dicionário.

“As fábulas que conto são adaptações de poetas do século XIX, com palavras muito difíceis. No começo eu mesmo procurava no dicionário sinônimos mais palatáveis, porém, na maioria dos casos, essas palavras faziam rimas com outras, tornando-se impossível a substituição. Esse é um outro motivo para trazer o ‘Fubá’ e a ‘Estrela’ como comentadores das fábulas”, explica Guerra, que nas duas primeiras aulas dava aos fantoches a missão de “traduzir” os vocábulos.

Depois, porém, ele teve a ideia de deixar para as crianças procurarem o significado como “forma de tarefa de casa” e também como “uma continuação da história em família, juntando pais e filhos em uma tarefa tão antiga, tão necessária e tão enriquecedora”.

Com tantos conceitos envolvidos, o criador explica que os vídeos atingem a audiência como se fosse presencialmente, ou seja, em “três níveis”. “No primeiro nível, eles são puramente recreativos, e seu objetivo é divertir e distrair. No segundo, o conto é um suporte de ensinamento para a iniciação às regras morais, sociais e tradicionais da sociedade, na medida em que revela o comportamento ideal de um ser humano no seio da família ou da comunidade. E no terceiro é dito iniciático na medida em que ilustra as atitudes a imitar ou a rejeitar, as armadilhas a discernir e as etapas a vencer quando se está engajado no difícil caminho da conquista e da realização de si mesmo”.

Atividade que pode envolver toda a família

Arte educador, agitador cultural e realizador de uma porção de outras atividades, Marco Guerra sugere como atividade familiar a contação de histórias, para todas as idades.

“Sugiro a contação de histórias para adolescentes também, porque se tem a impressão de que essa atividade serve somente para entreter crianças, mas quando a história começa, todos entram no reino do imaginário”, diz ele, que chama atenção para um detalhe importante: “Contar histórias é uma arte recheada de muitas técnicas, que vão desde a escolha do conto para cada ocasião e faixa etária, até as nuances de olhares, modulação da voz e gestual adequado”.

Segundo Guerra, praticar este exercício é fundamental para a “formação do universo simbólico das crianças e adolescentes”. “Treinamos, com a contação, a capacidade de escutar, que é o sentido mais importante para a aprendizagem e, ao mesmo tempo, o mais atrofiado. Também treinamos a capacidade de imaginar, que se encontra muito mais atrofiada nos seres humanos modernos”.

Por isso, além das “aulas abertas” com fábulas lúdicas ele tem outro projeto, com crônicas escritas por Gonçalo Fernandes Trancoso. “Sou herdeiro deste gênero e aprendi todas com minha mãe, que por sua vez aprendeu quando criança no interior do Ceará. São narrativas compridas, recheadas de imagens e contadas pelo personagem ‘Véio Truão’, que estão disponíveis no canal Estúdio Limoeiro”, convida.

Leitura tira crianças da “mesmice”

Entre as várias dicas que Marco Guerra repassa aos pequenos em suas “aulas abertas” nas redes sociais, uma se destaca. “Saiam da mesmice da quarentena”, diz. Mas o isolamento social provocado pela presença do novo coronavírus é uma realidade recente. Já houve tempo para que se criasse uma mesmice?

“Sim, a mesmice pode ser encarada como essas atividades eletrônicas que pouco ou quase nada valorizam para a formação da dimensão simbólica da criança e do adolescente, tão atrofiada neste século. Deixá-los livres para navegar na rede é muito perigoso, deve haver mediação sempre que possível porque sem a capacidade de simbolizar, que é fazer a capacidade de fazer a leitura do mundo por trás dos fatos e dos fenômenos, eles sofrem com as perguntas filosóficas que vão surgir”, diz o arte educador.


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