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Mateus Sartori, secretario de Cultura, defende um resgate digital para ‘conhecer mais da música mogiana’

MEMÓRIA Colecionador de músicas mogianas, Mateus Sartori acredita que seja tempo de “conhecer mais” sobre as produções locais, muitas das quais só estão disponíveis em vinis ou CDs. (Foto: divulgação)

Uma cidade com quase 460 anos, como Mogi das Cruzes, tem muita história. Por história entende-se, além dos costumes, contos ou lendas, a cultura e arte local. E isso é inegável que há de sobra por aqui. Mas, muitos dos materiais de música, por exemplo, “a gente não tem como ouvir”, como diz Mateus Sartori, que embora seja arquiteto e atue como secretário municipal de Cultura e Turismo, é também cantor, e como artista voluntário decidiu fazer um resgate a estas produções, lançando-as nas plataformas digitais.

Nas palavras de Sartori, é preciso “conhecer mais da música mogiana”. Por isso ele, que tem cinco discos lançados e disponíveis na internet e prepara o sexto, decidiu abrir a própria coleção de canções da cidade e colocá-las na internet, dando os devidos créditos aos autores responsáveis.

“Sou colecionador de músicas mogianas e tenho de três a quatro mil delas”, diz ele, que no passado “ia à casa das pessoas, ligava um microfone e gravava letras inéditas”, muitas das quais interpretadas por pessoas que já faleceram.

Até aí, o que ele tinha eram muitos registros, muitos contatos e muita vontade de agir. Mas, por um acaso, descobriu uma maneira simples e legal de publicá-los gratuitamente no Spotify, Deezer e outras plataformas.

Paulo Betzler, percussionista e educador musical, queria subir à internet o disco ‘Cacuriando’ (2012), da Cia. Batucaê. Para tanto, pediu ajuda a Sartori, que fez os trâmites necessários junto à distribuidora com a qual trabalha. Esse foi o primeiro álbum “digitalizado”, se é que assim pode-se dizer, e vieram alguns outros na sequência.

A distribuidora, Tratore, percebeu a movimentação incomum nos registros de Sartori, e o comunicou que, por conta da pandemia do novo coronavírus, eles estavam disponibilizando a todos os usuários um código que isentava a taxa necessária a ser paga para ter os trabalhos de um disco na internet. Para não entrar muito em detalhes, a cobrança existe por uma série de burocracias e processos.

O importante é que depois de ter essa informação, e sabendo que o tal código provavelmente perdure até o fim desta época de quarentena, Mateus Sartori resolveu agir. Pediu ao parceiro Betzler para que divulgasse a ideia a outros artistas: era o momento de fazer o upload (envio) do maior número de trabalhos possível.

Vale o lembrete de que a iniciativa nada tem a ver com a Secretaria de Cultura. É que com boa parte das atividades da Pasta paralisadas, Sartori ganhou tempo livre e decidiu investi-lo nisso. Mais precisamente, cerca de três horas para lançar cada disco na rede. E já foram 18, com expectativa de mais 25.

No início, Sartori conta que as pessoas insistiam em pagar pelo serviço, o que não era a ideia. “Foi aí que surgiu a ideia de que o pagamento fosse de outra maneira, contribuindo com outros artistas quando estes fizessem lives, por exemplo”.

Por ser um artista conhecido e também uma figura pública da cidade, Sartori tem inúmeros contatos. Logo formou-se uma espécie de “fila” para que os projetos aparecessem em ambiente virtual, o que é feito pelo próprio Sartori, nos computadores da família.

O principal argumento da ideia é que “tem vários discos que a gente não tem como ouvir, como o vinil ‘Coração Girassol’ do Celso Andrade, que é uma obra-prima, ou o CD das Rezadeiras do Divino, que costumam, neste período, rezar na casa das pessoas, o que agora não é possível”, explica ele, orgulhoso com o fato de que agora elas possam “rezar na casa das pessoas sem precisarem ir lá, ao mesmo tempo em que estão disponíveis para todo o mundo”.

Há também produções de outros artistas, a exemplo de um disco que põe em evidência a obra de Maestro Gaó (saiba quais são os 18 CDs nesta página). São composições que até então não tinham atingido a nova geração, e que permitem que qualquer estranho aos costumes mogianos sinta afeto pela cidade.

Além disso, como destaca o idealizador do projeto, “é a oportunidade de as pessoas ouvirem a voz de quem já não está mais aqui, como Dudu e Mariana Mendonça, que estão em ‘O Que Minh´alma Velha Guarda’, de Henrique Abib, agora acessível nos principais aplicativos de streaming”.

Emam pode substituir CD’s por streaming

Desde que foi inaugurado, em 2015, o Estúdio Municipal de Áudio e Música (Emam) vem fazendo o registro das diversas modalidades sonoras existentes em Mogi das Cruzes. Até então o processo de gravação, que tem início com um edital público, termina com o lançamento de um CD prensado, mas isso pode mudar no futuro.

“Isso a gente já discutiu no ano passado, de não fazer mais o disco físico pelo estúdio, e sim a Secretaria de Cultura custear um serviço para que pessoas produzam um videoclipe, criando a interface de novos negócios com a área do cinema, e também subir para as plataformas digitais”, explica Mateus Sartori.

A alteração faz sentido, já que computadores não vêm mais de fábrica com leitores para discos e é difícil quem tenha leitores de DVD ou BluRay em casa, ou até mesmo nos carros. E engana-se aqueles que pensam que o processo de “digitalização” é simples.

Sartori, que tem feito isso por iniciativa própria, relata que além das várias burocracrias como a necessidade da existência de um código de barras para que o produto seja comercializado, há uma série de regras e restrições quanto a qualidade do áudio e das imagens que acompanham os discos.

“Tenho escaneado a capa dos discos e tratado as imagens, masterizado os áudios e subido as faixas, mas isso porque tenho agora mais maleabilidade dos meus horários. Quando tudo voltar a normalidade não vai dar para ser assim”, diz ele, que não lucra com o projeto e corre para lançar na rede o maior número de trabalhos possível, sempre considerando “que cada artista deve se cadastrar para receber os direitos autorais de suas obras”.

Trabalhos já disponíveis em novo formato

Além dos 18 discos já disponibilizados por Mateus Sartori nas plataformas digitais, vem muitos mais por aí. Na “fila” estão vários trabalhos, como um sobre a Festa do Divino gravado por Rabicho, produtor cultural que fez história a frente da Associação Cultural Casarão da Mariquinha e outro do grupo cultural Jabuticaqui, além de algumas “surpresas”. Até o momento, a iniciativa lançou os seguintes discos:

‘Agora’ – André Luiz e Carlos Mello

‘Choro Mogiano’ – Nilton Delphim

‘Coração Girassol’ – Celso Andrade

‘Em Casa’ – Waldir Vera

‘Eurico de Souza – 80 Anos do Mestre do Choro Mogiano’

‘Serginho Machado’ – Serginho Machado

‘Sobrenome’ – Serginho Machado

‘Teu Nome’ – Henrique Abib

‘Um Cancioneiro Degustador de Palavras’ – Serginho Machado

‘Brega Sim, Trash Não’ – Big Charles Band

‘Brisa’ – Celso Andrade

‘Cacuriando’ – Cia. Batucaê

‘Casa de Pano’ – Rui Ponciano

‘Gaó, Bem Mogiano’ – Carlos Eduardo Zappile Albertini e convidados

‘O Que Minh’Alma Velha Guarda’ de Henrique Abib

‘Original’ – Sandra Vianna

‘Quarteto de Cordas e Quinteto de Metais de Mogi das Cruzes’

‘Rezadeiras do Divino’


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