CIRCUITO

Médica Fabiana Fonseca defende a atenção especial aos idosos na quarentena

A médica geriatra Fabiana Santos Fonseca recomenda o diálogo, o carinho e atenção especial para com o idoso neste período de distanciamento social, exigido pela pandemia do novo coronavírus. Nesta entrevista, ela fala quais são os cuidados que a população deve ter com essa parcela da população pertencente ao grupo de risco da doença. Gerente do núcleo de urgência e emergência do Complexo Hospitalar Padre Bento, em Guarulhos, e professora universitária, destaca ainda as medidas de segurança fundamentais no cotidiano desse público.

Faiana Santos Fonseca. (Foto: divulgação)

Por que é importante cuidar dos idosos, em especial neste momento de pandemia do novo coronavírus?

A principal razão para cuidar mais dos idosos durante e após a pandemia é para que não propaguemos a doença, a ponto de que tenhamos índices de pacientes contaminados como os países europeus e asiáticos. Além disso, infelizmente notamos que estão aumentando os índices de depressão, e o cuidado faz com que eles não se sintam totalmente isolados, já que fazem parte do grupo de risco.

Como as famílias devem fazer isso?

Como estamos no início de uma pandemia em nosso país, precisamos ter cuidados com todos, inclusive com os mais jovens. Por isso, uma das medidas a serem realizadas são as vídeochamadas, ligações diárias. Se o idoso necessitar de cuidados maiores, deve utilizar máscaras e luvas para realizar as tarefas do dia a dia, mas o carinho é fundamental.

Quem tem pessoas mais velhas em casa, como os avós, deve ter cuidados redobrados de higiene e segurança sanitária?

Sim, é sempre bom que todos mantenham bons hábitos de higiene e segurança sanitária. Usar produtos para limpar sapatos que foram utilizados fora da casa e até mesmo trocar roupas que mantiveram contato com ambiente externo são alguns dos exemplos de medidas que devem ser tomadas, considerando que peças de vestuário necessitam de cuidados maiores nesse momento.

O que mais deve ser observado junto a esse público?

Vale a pena lembrar também da importância dos equipamentos dentro do domicílio, como a retirada de tapetes e instalação de iluminação adequada e barras de segurança, independentemente do período da pandemia. Além disso, usar produtos para limpeza adequada do ambiente domiciliar é fundamental. As roupas de cama devem ser trocadas semanalmente, enquanto as roupas de uso pessoal devem ser trocadas a cada saída para área externa, como supermercados, padarias e ainda convém lembrar da assepsia dos calçados, afinal, roupas e os calçados de uso de externo necessitam de cuidados maiores, para que não sejam propagadores de doenças indesejadas.

E para quem está distante, videochamadas e mensagens são uma boa solução para manter o contato? O que mais pode ser feito para que esta população se sinta menos solitária?

Devemos pensar o quanto o isolamento social traz preocupações e lembranças amargas. Vídeochamadas e mensagens são o ideal e algumas famílias estão usando jogos e atividades lúdicas e descontraídas nestes momentos, para o qual é ideal que todos participem ativamente, proporcionando ao idoso conforto e segurança. Existem alguns grupos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPQ) que utilizam vídeochamadas para contar histórias do passado em pacientes com quadros demenciais. É uma grande oportunidade de aproximar famílias e saber mais sobre todos. Como disse antes, infelizmente notamos crescimento importante do número de pacientes com quadros depressivos e de pacientes com ideação suicida, então é importante que os idosos não se sintam isolados.

Qual a melhor forma de cuidar da saúde mental dos mais velhos?

Além de uma boa conversa, a melhor forma de cuidar da saúde mental dos idosos é a atividade física. Algumas academias já estão fazendo isso com os pacientes, gravando aulas e enviando para que possam ser realizadas em domicílio. É fundamental mantermos a calma e a tranquilidade deles, procurando notícias com outro foco. Normalmente estamos acostumados a ver idosos ativos e independentes, e a atual condição provoca uma mudança muito grande dos hábitos. Quando falamos de idosos com maior dependência, precisamos lembrar mais uma vez da necessidade de uso de luvas e máscaras para a realização dos cuidados essenciais, mas sem se esquecer de proporcionar a eles carinho e atenção.

E não se deve esquecer das doenças pré-existentes, certo?

Exato. As doenças pré existentes necessitam de cuidados intensos e rígidos, e alguns pacientes estão deixando de lado e não realizam os cuidados necessários neste momento. Muitas das vezes até abandonam segmentos médicos ambulatoriais e os tratamentos, o que provoca descompensação de doenças de forma desnecessária.

Qual o papel do geriatra nesse momento? Aliás, é recomendado que os idosos mantenham suas consultas e exames de rotina?

O papel do geriatra é ser o médico do idoso, o grande gerenciador. As consultas de segmentos médicos devem ser mantidas para que não ocorram descompensações dos quadros e para não gerar ansiedades e dúvidas a respeito da pandemia. Quanto a realização de exames de rotina, estes podem aguardar a pandemia passar quando os pacientes estiverem estáveis, mas se os pacientes estiverem sintomáticos, julga-se necessário a realização e retorno em consultas. Tudo isso para evitar ao máximo o risco de exposição.

A recomendação geral é que as pessoas fiquem em casa, sobretudo os idosos. Como garantir então que eles continuem ativos?

Sim, existe realmente grande necessidade de permanência em domicílio, é importante lembrar de que quando há a necessidade de realizar atividades fundamentalmente necessárias, deve-se usar medidas de segurança, como máscaras. O mesmo vale para cuidados com roupas e sapatos, como dito anteriormente. Tenho certeza que mesmo permanecendo em suas residências, os idosos não perderam a oportunidade de manter a vitalidade assim como a habilidade em realizar suas atividades de vida diária.

O que dizer do preconceito contra a população idosa?

Os maiores contaminantes são os mais jovens, a faixa ativa trabalhadora da população. Logo, são eles que muita das vezes acabam contaminando os nossos idosos. Preconceito contra o idoso não deve existir de forma alguma, pois eles possuem história de vida que deve ser compartilhada e até mesmo tentar ser seguida por nós, os mais novos. A melhor forma de combater o preconceito contra a pessoa idosa, com certeza, será mostrar a população de forma geral que não são eles os grandes contaminantes. Na verdade, eles são mais frágeis imunologicamente do que nós. Julgo que esse preconceito não deve existir, já que essa é a população que hoje mais permanece isolada e vulnerável ao vírus.

O cuidado para com os idosos era uma forte recomendação do antigo ministro da Saúde, mas não parece ser exatamente a prioridade do governo. Enquanto geriatra, como a senhora enxerga isso?

O idoso ainda permanece como prioridade do governo, apenas mudaram o foco, tanto que não se reduziu os cuidados a ele. O governo ainda investe grande parte dos seus cuidados na população idosa, como vacinação e mudança na dispensação de medicamentos, para que o contato seja menor e mais eficaz.

É recomendado a filhos e netos irem à casa dos pais e avós para passar a quarentena?

Devemos medir de que forma será o contato. É importante que haja menor contato possível, para que não ocorra contaminação, porém o contato visual dos idosos com filhos e netos engrandece e fortalece a relação familiar nesse momento tão difícil.

A quarentena poderia ser encarada como um momento para aprender com as experiências dos mais velhos? Talvez ouvir as histórias da juventude dos pais, o conselho dos avós…

Com certeza a quarentena poderá nos proporcionar momentos de muitas alegrias, revivendo momentos passados e até mesmo recordando com fotos antigas. Aprender com os mais velhos nos proporciona o crescimento como pessoas e nos traz experiências jamais vividas. É uma oportunidade de demonstrar e reafirmar o verdadeiro valor da instituição familiar.


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