NOVO CORONAVÍRUS

Médicos de Mogi avaliam a eficácia da utilização da cloroquina para pacientes com a Covid-19

ANÁLISE O cardiologista Paulo Saraiva e o pneumologista Luiz Henrique Frizzera Borges falam sobre o uso da cloroquina. (Foto: arquivo)

A falta de alinhamento de ideias entre o presidente Jair Bolsonaro e os então ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, levou os dois chefes a deixarem a pasta federal em menos de um mês durante a pandemia do novo coronavírus. O principal motivo da discórdia é sobre o uso da cloroquina no tratamento de pacientes com a Covid-19. Enquanto as autoridades em saúde defendiam que o medicamento fosse utilizado apenas em casos mais graves, o presidente quer que ele seja aplicado ainda em pacientes assintomáticos e em quadros leves, a fim de que não evoluam aos estágios mais graves. No entanto, as pesquisas mais recentes colocam em xeque o uso do medicamento e, consequentemente, a alternativa de tratamento perde força.

A reportagem de O Diário conversou com dois médicos para avaliar o resultado das últimas pesquisas. O pneumologista Luiz Henrique Frizzera Borges conta que a possibilidade da cloroquina ser a grande salvadora desta pandemia ganhou força no discurso do presidente dos EUA, Donald Trump, que veio a público anunciar que o medicamento estava surtindo resultado positivo na prescrição aos infectados pelo novo coronavírus.

“A partir daí, um dos estudos testou o uso da cloroquina em um grupo, em outro a hidroxicloroquina com a azitromicina, e ainda aquele que não usou nenhum deles. E o resultado foi parecido. Nenhum dos casos foi promissor para a cura da doença”, pontua.

O cardiologista Paulo Saraiva, que atua nas redes pública e particular de Mogi das Cruzes, explica que a cloroquina é um imunomodulador. Ela age dentro da célula, no lisossomo e é feita a degradação das partículas. A intenção era a de que ela agisse contra o vírus. Isso porque o novo coronavírus faz a célula de “escrava”, no momento em que ele entra e a obriga a trabalhar para multiplicá-lo. Além disso, houve a combinação com o antibiótico azitromicina. Neste caso, para impedir que, além da doença viral, houvesse uma bacteriana nos pulmões.

“Esses protocolos estavam sendo utilizados em pacientes em grau moderado, a fim de evitar que eles não precisassem da ventilação mecânica, e quem estava no quadro grave, para tentar reverter. O estudo mostrou que entrando com a medicação ou não, os resultados podem ser os mesmos. Em Manaus, por exemplo, suspendeu-se o uso da medicação porque estava aumentando a mortandade”, pontua.

Saraiva destaca ainda que os grandes laboratórios estavam a fim de encontrar em um medicamento a fórmula para curar a Covid-19 e ganhar dinheiro com isso. Já o presidente Jair Bolsonaro se antecipou e colocou os laboratórios do Exército Brasileiro para produzirem o medicamento em grande escala, mas sem ouvir as autoridades, e agora tem estoque do remédio, que geralmente é utilizado para a malária ou em doenças reumatóides, mas em dosagem diferente da que foi fabricada. “Agora toda essa medicação vai ficar parada aí”, conta.

O pneumologista conta que os estudos já mostram que o novo coronavírus ataca não só o pulmão, mas também coração, os rins e até o cérebro, causando um processo inflamatório e o paciente morre em função disso, com uma síndrome respiratória aguda grave, porque falta oxigenação no sangue. Frizerra acredita que uma das saídas para a doença será o anticorpo do vírus.

“Acho que essa será a esperança maior de utilizar o plasma do sangue do paciente que já pegou a doença e se curou. Nele terá o anticorpo contra o vírus. A vacina também para prevenir novas contaminações, porque você pega um pedaço do genoma do vírus e injeta no paciente e o corpo produz o anticorpo. Assim, por exemplo, se você for infectado com o vírus, o anticorpo já destrói ele”, ressalta.

Já Saraiva comenta a expertise de uma equipe do Hospital Sírio Libanês, que notou que a Covid-19 vai criando pequenos trombos nos vasos mais finos do corpo, que estão no pulmão, olhos, rins, ao fazer a autópsia em alguns mortos. Ou seja, a doença tem padrão cardiovascular. Então a equipe começou a utilizar a heparina para diminuir esse número de coágulos, e resultou na melhora respiratória e muitos pacientes conseguiram sair da fase aguda da doença.

“Mas ainda é um estudo recente, mas eles querem fazer o uso da heparina de moderado para grave. Todas essas medicações precisam passar por comissões de ética. Como ainda não tem droga específica para a Covid-19. Mas em todos os casos os medicamentos devem ser ministrados só com receitas controladas e usadas em casos moderados ou graves”, destaca.


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