CHICO ORNELLAS

Memória afetiva

CAMINHO DA ROÇA – A Estrada Velha São Paulo-Rio era uma colcha que reunia antigas trilhas, passando dentro das cidades que atravessava. Na foto, um trecho dela em Caçapava. (Foto: arquivo pessoal)

Mogi de A a Z

Meu avô contou a meu pai,

que contou a mim,

que conto a meus filhos,

que contarão aos meus netos.

As pessoas nascem, de bebê viram crianças, de crianças viram adolescentes, de adolescentes viram adultos. É assim desde sempre e assim continuará sendo. Seja na velha Roma ou na nova Cingapura; na distante e inóspita aldeia indígena da Amazônia ou na próxima e próspera São Paulo. Também em Mogi das Cruzes.

Lá como cá, as histórias transmitidas entre gerações fazem a sua identidade comunitária. Este é um convite para que o leitor compartilhe, com seus familiares e amigos, as passagens que marcaram sua trajetória. A sua e de seus ascendentes. A par do jogo lúdico que aproxima pessoas e compromete lembranças, há o exercício da cidadania, a preservação da memória.

Neste particular, o mogiano que mais trabalhou pela preservação da memória comunitária foi Isaac Grinberg, a quem devemos a gratidão pelas lições recebidas e o conduzir do percurso.

Jornalista por formação, historiador por talento, Isaac Grinberg voltou a Mogi, na década de 1940, a um tempo em que exercia o jornalismo, com sucesso, na principal metrópole – senão a única – do Brasil de então: Rio de Janeiro, a capital da República. Aqui lançou-se ao desafio de dar um jornal à Cidade. Iniciou sua Folha de Mogi com o que os recursos que a época lhe permitia. Era um panfleto impresso em mimeógrafo. Em pouco tempo, fez do solar da família, na Praça Oswaldo Cruz, a sede do jornal, já então composto em linotipo e impresso em máquina plana. Acolheu um jovem pouco entrado nos 20 anos, relevando sua absoluta falta de experiência. Mas acreditando em seu talento.

O jovem era Tirreno Da San Biagio que, alguns anos depois, quando os irmãos Isaac e Jayme Grinberg se desfizeram da empreitada, ousou lançar este Diário de Mogi.

Nosso trabalho, assim, é seguir a trilha dos que têm por missão noticiar o presente e preservar a memória. Não almejamos atingir o volume da obra de Isaac Grinberg, mas nos satisfazemos em buscar a confiança dos nossos leitores.

Isaac legou-nos uma coletânea de mais de 10 livros, desde o pioneiro “História de Mogi das Cruzes”, lançado lá nos idos dos ‘60 e ainda hoje a principal fonte de pesquisa de Mogi das Cruzes. A ele seguiu-se “Mogi das Cruzes de Antigamente”, outros abordando a história da Justiça em Mogi, seu folclore, a polêmica em torno do fundador (Braz Cubas ou Gaspar Vaz?) e o primoroso “Memória Fotográfica de Mogi das Cruzes”.

A par dos incríveis dados históricos que colheu e nos transmitiu, Isaac cuidou também de preservar sua história oral, em livros que relatam passagens do cotidiano. Como é “Mogi das Cruzes de Antigamente”, cuja 2ª edição foi lançada em 1995 e no qual reuniu inúmeros ‘causos’.

Um deles é a passagem de 1923 em que rapazes traquinas decidiram divulgar o boato de que o dr. Deodato Wertheimer, ilustre médico e líder político local, havia morrido. Também a epidemia de varíola que grassou por aqui em 1855 e levou a Câmara Municipal impor regras de um verdadeiro estado de sítio, para obrigar a população local a hábitos de rígida higiene.

Quem vê Mogi hoje com seus 440 mil habitantes e milhares de veículos a atravancarem ruas em trânsito sem ordem, sequer pode imaginar que, em 1835, não era exceção a prática de tiro ao alvo em ruas da Cidade com cerca de 6 mil habitantes e tráfego de charretes e carroças em absoluto isolamento. Isso também nos conta Isaac Grinberg.

Fora personagens importantes para a comunidade que acabaram esquecidos. Por quê? Simples: pela falta de quem contasse suas vidas.

Como Francisco de Mello e Souza. Quem? Sim, o Padre Souzinha. Ele era um caipira nascido na Serra do Itapeti e que passou a morar na Cidade, aos 12 anos, ainda analfabeto. Veio para auxiliar Padre João nas tarefas de pároco de Santana. Era seu acólito e, sob tutela do vigário, estudou com afinco. Três anos depois Padre João o enviou para o Seminário em São Paulo. Teve desempenho de destaque a ponto de ser escolhido, na turma, para uma bolsa em Roma. Foi para lá, voltou vigário em Santo Amaro, virou pároco da Consolação (ele construiu a Igreja da Consolação) e mudou-se, 12 anos depois, para Vitória no Espírito Santo. Em seguida para o Rio de Janeiro, como secretário particular do cardeal Sebastião Leme.

Divertida mesmo é a história dos três únicos presos que, em meados da primeira metade do século passado, havia em Itaquaquecetuba, então distrito de Mogi. Dois deles recolhidos em uma cela, decidiram fugir. Abriram um buraco na parede frágil e saíram folgadamente. Haviam caminhado uns 500 metros quando se lembraram do terceiro preso, na única outra cela da cadeia. “Não é justo, vamos lá soltá-lo”. E foram, fizeram outro buraco, soltaram o amigo e seguiram, abraçados, comemorar no primeiro bar que encontraram.

Meu avô contou a meu pai,

que contou a mim,

que conto a meus filhos,

que contarão aos meus netos.

Carta a um amigo

E lá se foram 91 anos

Meu caro leitor

Tenho gosto especial pela História, sobretudo pela história que interfere na vida das pessoas. Pois é exatamente sobre isto que me lembrei de recordar: faz 91 anos que o então presidente da República, Washington Luís Pereira de Souza, deu por inaugurada a Estrada Velha São Paulo-Rio. E ninguém por aqui fez referência a isto. À passagem do presidente da República por aqui. Ele saiu bem cedo do Palácio do Catete, fez uma parada em Lorena, onde almoçou. Esteve em Mogi era quase noite, passava das 5 da tarde, foi recepcionado pelo prefeito Manoel Alves dos Anjos e saudado pelo dr. Deodato Wertheimer com quem, fazia anos, celebrara uma aliança política.

Por aqui, Washington Luís ainda teve oportunidade de reencontrar cinco “aventureiros” mogianos que, um ano antes (1927), haviam empreendido a primeira viagem de carro até o Rio de Janeiro. Carlos Alberto Lopes, Zoé Arouche de Toledo, Epaminondas Freire, João Cardoso Pereira e Benedito Moacyr Lopes cobriram o percurso de ida em 26 horas. Mas, autorizados pelo governo, voltaram pela nova estrada, ainda em obras. Demoraram “apenas” 11 horas, quase o mesmo tempo que a comitiva presidencial levou, descontada a parada em Lorena.

A esse respeito o Jornal do Brasil noticiou, em sua edição de 5 de maio de 1928, um domingo:

Após habitar os anseios de fluminenses e paulistas, consolidava-se o elo rodoviário entre os mais importantes centros político-econômicos do país. Num momento memorável para a engenharia nacional, a comitiva presidencial, liderada pelo chefe do governo Washington Luís (1926-1930) partiu do Palácio Guanabara, em direção a São Paulo, na viagem inaugural da Estrada de Rodagem Rio-São Paulo. Ao longo do trajeto, sucessivas manifestações, programadas e espontâneas, atraíram a participação de populares numa demonstração máxima de contentamento.

O empreendimento da rodovia Rio-São Paulo fez parte do grande plano rodoviário do Governo de Washington Luís (defendido em campanha eleitoral com o lema Governar é abrir estradas), impondo-se como medida primordial à expansão da integração do Brasil, até então restrita às linhas férreas Além de aproximar a Capital Federal de vários destinos estratégicos ao progresso do país, quebrou o monopólio das ferrovias, favoreceu o intercâmbio comercial, facilitou a convergência de produtos agrícolas para os centros de consumo e trouxe novas perspectivas de desenvolvimento para as cidades interioranas às suas margens.”

Para Mogi das Cruzes o evento teve grande significado. A Cidade, que havia cerca de 30 anos comemorara sua inclusão no trajeto da linha férrea entre São Paulo e Rio, festejava agora a inclusão no percurso rodoviário. A festa pela estrada de ferro e pela estrada de rodagem durou cerca de 30 anos. Em 19 de janeiro de 1951 foi inaugurada a Rodovia Presidente Dutra e, das cidades anteriormente interligadas pela estrada velha, Mogi foi a única que não teve acesso imediato ao novo caminho. Este só viria 21 anos depois, com a inauguração da Mogi-Dutra. E o caminho do trem também passou a sofrer a concorrência do Ramal do Parateí, de melhor e mais curto traçado.

Abraços do

Chico

CAMINHO DA ROÇA – A Estrada Velha São Paulo-Rio era uma colcha que reunia antigas trilhas, passando dentro das cidades que atravessava. Na foto, um trecho dela em Caçapava. (Foto: arquivo pessoal)
Antônio Brasil de Siqueira. (Foto: arquivo pessoal)

GENTE DE MOGI

CIDADE GENTIL – Ele é do tempo em que, nesta cidade gentil, nada se omitia, tudo se compartilhava. Fazia isso com familiares e alunos de seus cursos de Educação Física; também com os companheiros de jornada esportiva. Antônio Brasil de Siqueira, o Tonicão, morreu em julho de 1987.

O melhor de Mogi

Pessoal da velha guarda – e da velha política –, que só empenha a palavra quando pode cumpri-la. Sabe que o fio do bigode ainda é o melhor avalista da honra.

O pior de Mogi

A facilidade com que abrimos mão de valiosos pratas da terra. Como esta semana, com a despedida de José Luiz da Silva, o Rabicho – criador do premiado Casarão da Mariquinha, que se foi para o Rio de Janeiro.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… / ter comprado sapato na Casa Santo Antônio de Pádua. Também vale a Casa Record, ou Lojas Clark

www.chicoornellas.com.br

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