EDITORIAL

Memória e identidade

“Não podemos caminhar sem identidade, uma vez que nosso presente será passado amanhã”

Vale a pena conhecer a análise da arquiteta e urbanista Maria Rita Amoroso, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, publicada na revista Profissionais em Foco, da Associação dos Engenheiros e Arquitetos e Agrônomos de Mogi das Cruzes, e destacada em nossa edição de sábado, na Coluna Informação.

Ao ensinar que “patrimônio não é só para se ‘conservar’ e basta; é preciso ser acompanhado de uso – ou reúso – que valorize o ‘sujeito’ que teve todas as suas experiências de vida e que, ali, tem sua identidade carente de ser preservada, justamente, contada, protegida e plenamente conhecida”, Maria Rita propõe uma reflexão sobre drama comum às cidades brasileiras que já perderam ou estão perdendo seus registros históricos.

Casarios antigos e marcos como igrejas e escolas têm prazo de validade estabelecido pela combinação de fatores como as ações da passagem do tempo e os costumes e modos de viver de uma sociedade que determinam a conservação, manutenção e uso das construções familiares e coletivas.

A profissional defende que “o patrimônio tem de ser respeitado, inventariado e restaurado quando necessário” por especialistas e seu fim deve seguir para as mãos de quem mais interessa, ou seja, “a comunidade à qual pertence”, afinal, “o bem acautelado é de todos e para todos nós”.

Definir o que é patrimônio, o que conta a história de um cidadão, de uma família, e de todos, ao mesmo tempo, se dá, na atualidade, em um contexto social caracterizado pela mais valia do “eu” do que o “outro”, o que acentua o narcisismo, e ainda há supervalorização do consumo (com a troca de celulares, carros, moradias, etc).

A ideia sobre como é a passagem do tempo na vida das pessoas e das cidades sem a construção de uma identidade nos leva a outros comportamentos – como os cuidados da sociedade civil com o idoso, a criança, a mulher, o trabalhador, o doente.

Não podemos caminhar sem identidade, uma vez que nosso presente será passado amanhã, e o nosso futuro sonhado é o que fazemos hoje, o que realizamos agora. Sozinhos, não conseguiremos vencer esta ‘batalha’, tantos desafios que envolvem nosso patrimônio cultural. Porém, se consolidarmos mais redes e fortalecermos nossas instituições, será possível dar continuidade à existência de um quadro técnico à altura do trabalho a ser feito”.

Não poderia ser mais oportuno o olhar apresentado pela arquiteta para a cidade que está prestes a perder o Centro Cultural Antonio do Pinhal, o Cecap, instalado em um casario centenário.


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