O ADEUS

Milhares de pessoas acompanharam velório das vítimas do massacre em Suzano

Milhares de pessoas compareceram no velório coletivo das vítimas do massacre na Escola Raul Brasil, que foi realizado na Arena Suzano. (Foto: Vitoria Mikaelli)
Milhares de pessoas compareceram no velório coletivo das vítimas do massacre na Escola Raul Brasil, que foi realizado na Arena Suzano. (Foto: Vitoria Mikaelli)

Um som ambiente sereno deixava o clima da Arena Suzano menos pesado na manhã de ontem. O prédio recém-inaugurado para abrigar torneios da cidade recebeu ontem seis corpos do massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil – Kaio Lucas da Costa Limeira, Caio Oliveira, Claiton Antônio Ribeiro e Samuel Melquíades de Oliveira, estudantes da unidade de ensino, além de Marilena Ferreira Vieira Umezo e Eliana Regina de Oliveira Xavier, funcionárias da escola. A cerimônia foi acompanhada por 15 mil pessoas, que passaram pelo local durante todo o dia.

Os caixões chegaram ao local às 6h10 e foram organizados um ao lado do outro, por ordem alfabética. A pedido das famílias, o velório teve início reservado a elas.

Também atendendo à solicitação dos parentes das vítimas, a área da imprensa ficou na arquibancada. A partir das 7h25, quem estava ao lado de fora da Arena Suzano e queria prestar homenagem às vítimas pode entrar. As pessoas passavam por um corredor que dava acesso a todos os corpos. Algumas até gostariam de ficar um pouco mais próximas às vítimas, como vizinhos, amigos, conhecidos e moradores da cidade, a fim de dar um adeus, um até logo ou um muito obrigado. Até as 9h30, três mil pessoas já haviam passado pelo local.

No local havia uma equipe de saúde, que vez ou outra precisava cuidar de um familiar que passava mal.

Emocionada na arquibancada, a analista de faturamento Juliana Nunes era amiga de Samuel. Ele frequentava a Igreja Adventista do Sétimo Dia, assim como ela. Lá, os dois realizavam diversas atividades. É essa a lembrança que ela tem dele. “A igreja toda está sofrendo. Ele nos ajudava em tudo, mas recentemente, principalmente na comunicação. Era um rapaz precioso, de família boa” completa.

Roseane Bezerra de Oliveira levou o filho e estudante da escola ao velório. Deived Oliveira estava no local no momento dos ataques e buscava informações na frente da escola. Ontem, sem querer falar com a imprensa, disse apenas que a rosa branca que trazia na mão ela para a “tia”.

Silvana Maria Vilela do Nascimento, de 45 anos, é técnica em enfermagem. Ela mora em Suzano e diz que por todos os lugares onde passou, desde o massacre, viu um cenário impactante. Ela não conhecia as vítimas, os filhos dela sim, mas preferiram não ir ao velório. “Estamos todos desolados. Os meus filhos não querem mais ir para a escola. É tudo ainda muito recente é essa recusa deles condiz com o momento”, diz.

Ela diz ainda que vai conversar com os filhos não só por isso, mas porque eles têm 12 e 14 anos e estão em uma fase difícil, e também porque gostam de jogos e não quer que se apeguem a isso. “Eles ainda estão formando a personalidade, então o momento é de apoio”, enfatiza.

Às 11 horas houve um ato ecumênico no ginásio. As leituras e reflexões dos religiosos falaram sobre a esperança do reencontro.

O corpo do dono da locadora de veículos, Jorge Antônio de Moraes, também morto ontem, foi velado e sepultado no Cemitério Colina dos Ipês.

O estudante Douglas Murilo Celestino, que morreu no Hospital Luzia de Pinho Melo, foi velado na Igreja Assembleia de Deus, em Suzano, e enterrado no Colina dos Ipês.

Pessoas de diversas cidades participaram do adeus às vítimas

O massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, fez com que pessoas de outras cidades se deslocassem ao município do Alto Tietê. Foi o caso de Alberto dos Santos Mendes, 53, que mora em Guarulhos, e desde quarta-feira está acompanhando de perto os acontecimentos. “É porque eu sou pai e brasileiro”, justificou.

Natural do Rio de Janeiro, ele mora em Guarulhos desde janeiro. Quando começou a ver as notícias sobre o atentado na televisão, decidiu que iria para Suzano. Alberto tem quatro filhos, entre 30 e 4 anos, e afirmou que é impossível ficar alheio aos acontecimentos, além de se preocupar.

“Desde dezembro não vejo meus filhos e a saudade é muito grande, mas estou em São Paulo em circunstância do meu trabalho. Diante de tudo isso que aconteceu, não sou só eu que fico tocado, mas sim o Brasil inteiro. Esses jovens tiveram a vida interrompida antes mesmo de completarem 20 anos. Eu penso nos pais deles e vim até aqui justamente para prestar minha solidariedade, porque realmente não deve ser fácil. Hoje, o país inteiro é pai ou mãe desses adolescentes”, concluiu.

No Rio, a nora de Alberto é diretora escolar, enquanto um dos filhos ainda frequenta a creche e o outro a escola. Levando em consideração o atentado, ele assume que fica com receio do que possa acontecer e ressaltou ainda a importância de usar a internet para o bem, tendo em vista as pesquisas que teriam sido feitas pelos criminosos e também dos jogos de tiro que eles costumavam jogar. (Larissa Rodrigues)

Bispo leu mensagem do Papa durante cerimônia
O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do papa Francisco, enviou um comunicado da autoridade máxima da Igreja Católica, que foi lido pelo bispo dom Pedro Luiz Stringhini no ato ecumênico que antecedeu o sepultamento das vítimas.

“Profundamente entristecido pela notícia do insano ataque contra alunos, professores e funcionários da Escola Estadual Professor Raul Brasil, na cidade de Suzano, sua santidade o papa Francisco deseja assegurar através de vossa excelência Revma. solidariedade e conforto espiritual às famílias que perderam seus entes queridos, ao mesmo tempo que eleva orações pela recuperação dos feridos. O santo padre convida a todos, diante desta abominável tragédia, a promover a cultura da paz com o perdão, a justiça e o amor fraterno, como Jesus nos ensinou. Como penhor de conforto, o papa Francisco concede às pessoas atingidas por este luto e quantos participam na missa de exéquias a bênção apostólica”, trouxe o texto.