ARTIGO

Modismos inconsequentes

RAFAEL SAMPAIO
Desde que comecei neste setor, há cerca de 40 anos, tenho observado que de forma sistemática e constante surgem inovações “revolucionárias” que, por seu potencial disruptivo e de maior eficiência e eficácia, teriam o condão de tudo mudar em pouco tempo.

Só que não, para usar uma expressão da linguagem contemporânea. Mesmo quando a inovação contém alguma dose de inovação real e capacidade de aplicação prática, seu nível de adoção efetiva é baixo – justamente porque é mais um modismo pouco consequente, porém saudado como um elixir que nos levará a substituir o insubstituível em nosso ramo, que são os fundamentos óbvios de ter um bom produto ou serviço, corretamente posicionado, amplamente distribuído, oferecido pelo preço certo e promovido como se deve – ou seja, por mensagens inteligentes e criativas, campanhas consistentes e permanentes e uso intensivo da mídia.

Desde o começo da onda de explosão da tecnologia, a frequência e ambição desses modismos têm se expandido e as “inovações revolucionárias” vêm se sucedendo, gerando enorme ilusão e desvios de rota, causando o enfraquecimento de marcas que vinham vivendo uma trajetória positiva.

Isso acontece porque muitos de nós sofremos de um viés preocupante de histeria com as perspectivas de mudança. Eu mesmo já bebi muito dessa água, confesso. Tendemos a acreditar freneticamente em cada nova mania e pensamos que o resto do mundo também está sintonizado na mesma vibe. Tendemos a superestimar a atração dos consumidores por coisas novas e subestimamos sua ligação com comportamentos tradicionais.

É por isso que o incessante exagero em torno de cada novo truque de marketing e publicidade tem que ser encarado com altas doses de reserva e desconfiança.

Os últimos modismos sobre o qual devemos ter todas as reservas são a interação das marcas e das empresas comerciais através dos chatbots e dos comandos de que estariam em vias de transformar nossos instrumentos mercadológicos tradicionais em peças de museu. Posso apostar que daqui a poucos anos vamos pensar nessas maravilhas como outra tentativa inconsequente de substituir o tradicional e “doloroso” dever de casa pela fórmula mágica do momento.

Rafael Sampaio é consultar em propaganda e marketing