ECONOMIA

Mogi das Cruzes se despede de comércios familiares

MARCAS Na Vila Rubens, a padaria IV Centenário fez história na expansão da região central do município. (Foto: Eisner Soares)

O vídeo postado no Facebook pela comerciante Solange Marques Gomes, 42 anos, com o emocionante depoimento sobre o encerramento das atividades da Padaria IV Centenário, no último domingo, chamou atenção para uma realidade vivida por estabelecimentos tradicionais, como a cantina Luna Rossa, o snooker e pizzaria Bola 7, entre outros da cidade, durante a crise econômica trazida pelo novo coronavírus (Covid-19). A publicação na internet teve 85.354 visualizações, diversos comentários e compartilhamentos por clientes que relembraram momentos vividos no local.

Inaugurada em 1 de setembro de 1960, a padaria da avenida Fernando Costa, 367, na Vila Rubens, teve o nome em comemoração à data: o aniversário de 400 anos de Mogi. Neste dia houve desfile cívico-militar, apresentação das fanfarras da cidade e foto com autoridades em frente à fachada do então mais novo estabelecimento comercial. Fundada por Januário Figueira da Silva, após 20 anos ela passou para as mãos dos irmãos Ariovaldo e Francisco Carlos Marques, que a reformaram para a reinauguração, em outro 1 de setembro, desta vez no início da década de 80.

Era para lá que Solange, filha de Ariovaldo, ia todo os dias após a escola pela manhã. Como dormia tarde e acordava cedo, aproveitava para tirar uma soneca no escritório antes do início do trabalho, às 14h30, que seguia até a meia-noite. “Vivi todos estes anos dentro da padaria e fechá-la foi como perder novamente meu pai, que morreu no ano de 1996 em um acidente. Estou sofrendo muito e vivendo o momento de luto. Nestes anos todos, governo por governo, sempre lutamos para manter a padaria, apesar de todas as dificuldades, mas a copa representa 80% do nosso faturamento e com o coronavírus não pudemos mais atender este público. Então, ficou complicado, porque temos aluguel e funcionários para pagar. Ninguém consegue viver apenas de vender pão, que hoje é comercializado nos supermercados e até nas lojas de conveniência de postos de combustível. É preciso saber a hora de terminar algo e sair com dignidade”, enfatiza.

A padaria, que já chegou a empregar 40 pessoas, atualmente mantinha 10 funcionários. “Meu pai foi o primeiro a fazer pão congelado na cidade e tinha uma indústria na padaria para esta produção. Fornecia para o supermercado Alabarce, quando ele começou na rua Dr. Deodato Wertheimer, para as lojas do Pão de Açúcar de Mogi e Suzano e também pequenos comércios”, lembra Solange, contando que o irmão, Richard, e a mãe, Néia, continuarão no comando das padarias Casa dos Pães Centenário, nas avenidas São Paulo, no bairro do Socorro, e João XIII, em César de Souza.

Seguindo a tradição iniciada pelos avós, Eduardo Marques Gomes e Maria Dolores Freitas Gomes, que comandaram padarias em Mogi, como São Benedito, no Largo Bom Jesus; Quinta Avenida, na avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco; e Sônia, na Dr. Deodato Wertheimer, Solange pretende permanecer no comércio, mas em outro segmento. “Tenho projeto na área de emagrecimento, que deve ser lançado na primeira quinzena de julho. Minha família sempre atuou em padarias, mas não sei se voltarei para esta área. Primeiro preciso curar esta ferida aberta, que é muito recente”, avalia.

Ela conta que não esperava tamanha repercussão com a postagem sobre o fechamento da padaria na internet. “Fiz o vídeo para informar os clientes e amigos que estávamos encerrando as atividades, me despedir e agradecer, lembrando o trabalho do meu pai. Muita gente viu, compartilhou e comentou”, completa Solange.

Valor do aluguel, a tacada final para o Bola 7

HISTÓRIA A quarentena determinou o fechamento do bilhar e pizzaria. (Foto: Eisner Soares)

Os amantes do bilhar, acostumados com as rodadas que terminavam em pizza no Bola 7, no Mogilar, também sentem os efeitos da crise causada pela Covid-19 na economia do comércio da cidade. A despedida foi no dia 20 de março, quando a quarentena proibiu os estabelecimentos do gênero de receber clientes, mas a decisão do fechamento definitivo das portas teve divulgação em 10 de abril, muito lamentada pelos clientes, que relembraram os momentos vividos na casa, inaugurada em 15 de outubro de 1987 por três sócios na rua Monsenhor Nuno de Faria Paiva, 65.

“Quem começou o Bola 7 foram o ex-vereador Jeferson da Silva, o dentista José Carlos e o Júlio, que era gerente do Banco Nacional. Dois anos depois, passaram para o Antônio Amaro, o Toninho Português, que ali também serviu almoço por quilo, além da pizza à noite. Depois, o José da Rosa (Ferreira) assumiu. Quando ele morreu, sua mulher e os filhos comandaram a casa, que ficou na história da cidade”, contou Wilson Fiel Pinto, o Camelão, 84 anos, que por mais de uma década foi gerente do local, de onde saiu em 1999.

Foi neste ano que José da Rosa Ferreira tomou a frente do Bola 7, com ajuda da esposa, Janete, do filho, Anderson. Em 2011, o patriarca da família faleceu e os filhos Andrews, 28, e Alexander, 48, o sucederam no snooker e pizzaria, que sediou vários campeonatos, mas também ficou conhecido como ponto de encontro de políticos e empresários, além de endereço para comemorações.

“A economia do país não vinha bem, mas nos últimos quatro meses antes da pandemia, a situação estava melhorando, após dois anos bem complicados. Porém, com a chegada do coronavírus e já sabendo que isso não duraria apenas um mês, tentamos negociar um abatimento no aluguel e não conseguimos. Então, não houve outro jeito, senão fechar as portas de vez, porque fica difícil pagar aluguel e funcionários sem gerar receita”, lamenta Andrews Ferreira, contando que recebia clientes da região, além de São José dos Campos e Jacareí, atraídos pelo bilhar.

Símbolo para casais, cantina italiana fecha

DEFINITIVO As portas da tradicional cantina Luna Rossa não devem ser reabertas, após o fim da pandemia. (Foto: Eisner Soares)

Após 37 anos, Mogi das Cruzes perdeu um ‘pedaço’ da Itália, referência para várias famílias e grupos de amigos que lá se reuniam nas confraternizações, mas principalmente aos casais, que escolhiam a Cantina Luna Rossa para marcar o início do namoro, a troca de alianças de noivado e, depois, as bodas. Voltavam após alguns anos, já acompanhados dos filhos. No número 184 da antiga residência da rua Basílio Batalha, na Vila Vitória, o restaurante recebeu, desde 1983, os fãs da culinária italiana.

Com decoração típica das tradicionais cantinas, quadros e mapas retratando regiões da Itália nas paredes, enfeites imitando parreiras de uvas, fitas verdes e vermelhas em alusão à bandeira italiana penduradas no teto, velas para iluminar os jantares nas mesas e outros objetos que compunham o cenário propício às fotos que ilustram a página do Facebook do Luna Rossa e ficaram na memória de muita gente, o restaurante encerrou atividades em meados de maio.

O assunto ganhou as redes sociais, com comentários de clientes relembrando os bons momentos vividos na casa, fruto do sonho do neto de italianos Roberto Valiengo.

Ele comandou a casa até falecer, em 16 de outubro de 2013, quando sua sobrinha, Maria Amélia, assumiu a administração do restaurante, com o objetivo de manter a tradição iniciada pelo tio, o que fez até o mês passado. O comunicado do fechamento, publicado no Facebook, foi lamentado pelos clientes da cantina, que desde a segunda quinzena de março está impossibilitada de receber o público por conta da quarentena para evitar a disseminação do novo coronavírus (Covid-19).

É de conhecimento de todos que a crise econômica que estamos vivendo decorrente desta pandemia afetaria praticamente todo o comércio e conosco não foi diferente. Diante deste cenário, é com profunda tristeza que informamos que depois de 37 anos de história na cidade de Mogi das Cruzes, infelizmente estamos encerrando definitivamente nossas atividades”, trouxe a nota na internet. Procurada por O Diário, Maria Amélia confirmou o fechamento, mas não quis dar entrevista.


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