CIRCUITO

Mogiana Natacha Harumi fala sobre projeto que contribui para proteger profissionais da saúde

Natacha Harumi Ota. (Foto: divulgação)

Graças ao projeto Hígia, médicos, dentistas, enfermeiros e outros profissionais da área da saúde pública de todo o Brasil envolvidos com o atendimento às pessoas suspeitas ou já infectadas com o novo coronavírus têm acesso a equipamentos especiais de proteção individual. As peças, produzidas por meio de impressoras 3D, são distribuídas em Mogi das Cruzes e região desde o início da pandemia. Por aqui, a demanda inicial era de mil unidades, número que cresceu cerca de sete vezes com o avanço da Covid-19. Para dar mais detalhes sobre o projeto, O Diário convidou a responsável pela equipe regional, a mogiana Natacha Harumi Ota, que é terapeuta ocupacional, com mestrado em Engenharia Biomédica e atua nos campos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia assistiva, com foco em saúde e recursos terapêuticos por meio da impressão 3D.

Como se deu seu envolvimento com o projeto Hígia?

Sou integrante de um grupo chamado Women In 3D Printing do Brasil, que envolve várias mulheres do país que trabalham ou usam a impressão 3D como hobby. Através de uma demanda trazida pelas embaixadoras do grupo, nos mobilizamos desde o primeiro dia da quarentena para desenvolver o protetor facial do projeto Hígia, que é composto de uma base colocada na testa do profissional, na qual é preso um retângulo de plástico transparente, que cobre todo o rosto, até a altura do pescoço, formando uma barreira protetora das gotículas de saliva, secreção ou sangue.

Como você avalia o impacto de ações como essa no combate ao novo coronavírus?

Essas ações têm diversas vertentes impactantes: prevenção em relação à disseminação do vírus; proteção dos profissionais que estão diretamente ligados aos pacientes com suspeita ou diagnóstico de covid-19; conscientização da população… além da questão de oferecer um cuidado a mais aos profissionais que estão trabalhando com ansiedade, medo e insegurança. O equipamento pode diminuir essa ansiedade e fazer com que os profissionais consigam cumprir suas tarefas de forma mais organizada e tranquila. A saúde mental, nesse momento, tem sido essencial e, ao meu ver, é o que existe de mais impactante. Recebo muitas devolutivas após as entregas. Alguns profissionais choram, desabafam, pedem ajuda… tem sido muito difícil.

Neste momento, além de atitudes como a do projeto Hígia, que se preocupa com a saúde dos profissionais da saúde, há outras atividades acontecendo, como a distribuição de alimentos para quem precisa. Que avaliação podemos fazer deste cenário?

Muitas pessoas estão se conscientizando em relação ao trabalho coletivo. No dia a dia, na correria de trabalho e vida pessoal, todos nós esquecemos do próximo. É tudo muito individualizado, algumas vezes até egoísta. E neste momento, o que mais precisamos é da colaboração de todos por um bem muito maior. Não há necessidade de se doar somente coisas de valor, mas se cada um usar seu potencial para ajudar de alguma forma, com certeza poderemos retomar nossas atividades em breve.

Sobre os profissionais da saúde: além de usar os protetores faciais, como eles podem se proteger?

Devem continuar utilizando máscaras, touca, avental, luvas, álcool 70%, sempre pensando na colocação e retirada desses materiais de forma adequada. Além disso, lembrar que o vestuário também precisa ser diferente no ambiente de trabalho, onde se tem contato com outras pessoas, e dentro de casa. Às vezes sinto que dentro do hospital é mais seguro do que fora dele, porque nas ruas as pessoas não têm esse cuidado todo. Então, uma forma dos profissionais da saúde continuarem se protegendo é também utilizar máscaras fora do local de trabalho.

Inicialmente, a produção para Mogi foi de mil protetores faciais, número definido em reunião com o vice-prefeito Juliano Abe. Este número de protetores foi efetivamente produzido?

Sim, esse número foi produzido e já passamos essa meta. Hoje o objetivo é entregar quase sete mil protetores faciais no Alto Tietê, sendo que nos aproximamos de três mil entregues nesta semana. Desde o início do projeto aumentou muito a nossa demanda, e ainda continua aumentando com a construção dos hospitais de campanha na região, além da contratação de novos profissionais para a linha de frente. Por isso, continuamos precisando de materiais para manter a produção ativa. Com a ajuda da Gerdau e da Coraldent, que produziram boa quantidade de peças por injeção plástica, hoje totalizamos aproximadamente 80 mil protetores faciais distribuídos no Brasil todo.

Qual é a composição e como é a atuação da equipe do projeto Hígia?

A equipe é composta de 40 alunos meus espalhados pelo Brasil. Aqui em Mogi e região, somos em 20 voluntários. Temos o auxílio de algumas empresas da região como a ARV e a Valtra, que disponibilizaram impressoras 3D e funcionários para nos auxiliar na produção das hastes. A Medintec Latin America, situada na cidade, também está nos ajudando em parceria para o corte das placas de PETG e acetato, além de embalagem ideal para a distribuição.

Pode dar detalhes do processo de produção dos protetores?

Segundo a Resolução 346 da Anvisa, podemos produzir essas hastes, desde que seja realizado com boas práticas de produção (ambiente higienizado, equipamento higienizado, uso de máscara, luvas, etc). Assim, todos os voluntários seguem essas orientações e as hastes são confeccionadas em impressão 3D, com material plástico do tipo PLA ou ABS (sendo o primeiro biodegradável em compostagem, feito a partir do milho, tapioca, beterraba…). Após esse processo, recolho todas as hastes impressas e levo à Medintec, onde elas são embaladas e lacradas numa caixa, junto com as placas de acetato ou PETG, que são cortadas, furadas e embaladas na empresa.

E como funciona a entrega dos equipamentos aos profissionais da saúde?

Eu tenho feito essa entrega pessoalmente. A entrega se dá em caixas, com as peças desmontadas. Envio vídeo explicativo aos gestores responsáveis pelo recebimento, ou marco uma reunião de orientação da montagem. Elas não são entregues montadas por questão de higienização, afinal, quanto menos os voluntários manipularem, melhor.

Que balanço pode ser feito da atuação do projeto em Mogi das Cruzes?

Tive ótimas devolutivas por parte dos serviços de saúde da região. No início do projeto, quando ainda não tínhamos começado as entregas, tive muitos relatos de funcionários que se sentiam inseguros ao ir para o trabalho com a falta de equipamentos de proteção individual. A nossa proteção facial, além de garantir a proteção contra as gotículas, também preserva a máscara N95 ou cirúrgica por mais tempo, o que garante uma economia maior desses materiais dentro dos hospitais.

Revolucionárias, as impressoras 3D ainda não se tornaram populares ao ponto de existir uma em cada casa. Tendo este cenário em mente, como tem sido a captação de parceiros para a impressão das hastes?

Acho engraçado as impressoras 3D ainda não serem tão populares, porque hoje elas são bem acessíveis. Foi muito difícil conseguir voluntários. Começamos o projeto na região com apenas seis deles. Através da mídia e da divulgação por parte da prefeitura, os “makers” da região passaram a me procurar para entrar no projeto, e hoje somos em 20, que é um ótimo número. Fico feliz demais por contar com a ajuda deles nesse momento. São essenciais!

Ainda sobre as impressoras 3D, que outras soluções benéficas à saúde poderiam surgir com esta tecnologia?

Eu atuo em quatro projetos contra o Covid-19, todos em diferentes linhas, e todos necessitam do uso da impressão 3D em algum momento, nem que seja para criar um protótipo para teste. A exemplo, na Itália, criaram uma válvula para se acoplar à máscara de snorkel como uma variação para aparelhos de pressão positiva contínua nas vias aéreas. Além disso, muitos materiais utilizados no dia a dia dos hospitais estão em falta, então acredito que após a pandemia, haverá mais olhares voltados para o potencial da impressão 3D na área da saúde. Aliás, este tipo de impressora já é usado como na saúde: eu mesma utilizo para criar dispositivos para pessoas com deficiência, no intuito de promover independência, autonomia e inclusão social.


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