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Mogiana que leciona em Guararema vence prêmio nacional sobre aulas online

ENSINO Suéller Costa avalia as mudanças na educação trazidas pela pandemia do novo coronavírus, que obrigou as escolas a adotarem o ensino remoto, com apoio das famílias dos alunos. (Foto: divulgação)

A contação de histórias pelos avós e os tios educadores levaram a mogiana Suéller Oliveira da Costa a reconhecer a importância do respeito às palavras, ao idioma, aos costumes da língua e a trilhar carreira profissional em duas áreas que valorizam a linguagem: a comunicação e a educação. Nas redações já foi revisora, repórter e editora, mas da sala de aula é que veio o reconhecimento em nível nacional. Ela venceu o Prêmio Destaque Educação 2020 na categoria Fundamental I, pelo trabalho “Coronavirus Around The World”, desenvolvido com alunos de uma escola de Guararema durante a pandemia do novo coronavírus. Na entrevista a O Diário, aos 38 anos, Suéller Costa, como assina matérias e faz uma homenagem ao único avô que não a viu exercendo as atividades na educação, Vicente Ribeiro da Costa, conta como os caminhos da comunicação e da educação se cruzaram em sua vida, fala da educação na pandemia, do lema “ninguém deixa ninguém para trás” e da premiação que recebeu.

A sua primeira formação foi em jornalismo, não é?

Isso, eu saí de casa com 17 anos e fui para São Paulo estudar jornalismo. Mas em seguida já comecei letras. Tenho muitos tios que são professores, primas pedagogas e sempre gostei da parte de ensinar. Primeiramente porque ela era uma das mais conhecidas da gente quando criança, e eu sempre adorei muito as minhas professoras. Os meus avós não tiveram oportunidade de estudar, mas uma tia alfabetizou eles. Quando eu fiz letras, a minha primeira turma foi de EJA. Era uma turma muito gostosa de trabalhar, porque além de tudo eles nos dão lições de vida muito maiores. Eles chegavam com vasinhos de flor, chocolate. Pessoas com 60, 70 anos que queriam ser professores, enfermeiros.

Onde você começou a trabalhar?

Lá em São Paulo eu conseguia trabalhar de manhã como editora e dava aulas à tarde. Também trabalhei em um jornal da faculdade e fui para a assessoria de imprensa. Eu fazia inglês desde a minha adolescência. Como morava em uma república universitária em São Paulo, comecei a dar aulas de inglês para as meninas que moravam lá, e também em um colégio e escola de idiomas, sempre para crianças. Mas todo jornalista tem o sonho de trabalhar em uma redação, e lá em São Paulo é muito difícil.

Realizou o sonho?

Sim, eu consegui uma vaga de revisora em um jornal de Mogi. Fui para a reportagem da área de cultura, educação e comportamento e veio a oportunidade de ingressar no projeto Jornal e Educação que jornais do país inteiro trabalhavam e depois fiquei na coordenação do grupo. Às vezes era bem puxado, porque tinha a reportagem e também o projeto à parte. Então, entrava às 7 horas e havia dias em que saia à meia-noite. Mas era muito gratificante porque a gente trabalhava com a formação de professores e passou a atender até sete, oito redes de ensino particulares e também estaduais. Poá foi a cidade que ficou conosco durante todo o tempo, mas também passamos por Arujá, Biritiba Mirim e Itaquaquecetuba. Participei durante 10 anos, mas com a Associação Nacional dos Jornalistas, a ANJ, o projeto acabou. Ah, quando eu estava há um ano na reportagem do jornal, também entrei em um colégio de Mogi para dar aulas, onde fiquei por cinco anos.

Esse projeto é que reforçou a sua vontade de trilhar pelo caminho da educação?

Durante o desenvolvimento dele havia várias ações e isso fez com que eu quisesse ir além. Busquei especializações, porque não queria trabalhar só com os professores, mas também os alunos. Queria estimular a criatividade da criança para que ela pudesse desenvolver os modos de se comunicar. Peguei férias e fui conhecer os principais programas de educação do Sul, depois tirei outras e conheci um projeto de Fortaleza.

E a sua saída do jornalismo?

Fiquei por 12 anos. Já tinha passado por todos os estágios do jornal e sou muito grata à oportunidade. Estava prestando concursos públicos, buscando novas oportunidades na área de educação. Queria colocar em prática os projetos que vim desenvolvendo durante os anos. O que me impulsionou a ir para a sala de aula também foi a minha dissertação de mestrado, em que falo como criar canais educativos para dar voz aos alunos e a expressividade dentro da escola. Durante dois anos, que foi o tempo de pesquisa, acompanhei duas escolas da região. Senti ali na pele a dificuldade de criar algo e ter garra para manter. Logo em seguida, defendi e coloquei na minha mente o desenvolvimento de projetos nas escolas. Aí passei em um concurso público em Guararema.

Qual é o cenário da educação hoje?

Voltei há um ano para a sala de aula. É muito difícil você conhecer a individualidade do aluno, dos pais, da sociedade. Estou em três escolas, que são públicos diferentes, realidades diferentes. Em uma escola a gente prepara as apostilas mensais e o pai vai até a escola e as recolhe. Nas outras duas, as crianças têm mais acesso à tecnologia, a família é muito presente, e vemos a participação dos pais, sempre com o compromisso de ajudar a criança. Eu dou aulas de inglês e é uma matéria difícil. Ainda assim, os pais ajudam, dão feedback do nosso trabalho. É a parceria entre os professores, pais e alunos, mas isso acontece na minoria das escolas.

Você disse que trabalha em diferentes realidades de escolas. A pandemia expôs a fragilidade de algumas delas?

Expôs bastante a questão social, sim. São alunos de diferentes cenários sociais e formações familiares. Tem a dificuldade de vulnerabilidade social, a conectividade, como ela está precária. A questão da tecnologia, o professor sempre se reinventa. Quem trabalha com educação precisa se reinventar sempre. A educação é dinâmica. Já se fala há muito tempo que a tecnologia veio para ficar. A gente fala que a primeira foi a lousa e o giz e hoje temos o digital e quem faz com que essas ações ocorram e permite que elas ocorram. Quem faz com que tudo isso funcione é o professor. Quando a tecnologia passou a aparecer na rede privada, se pensava muito na questão material, mas não o papel do professor para que tudo isso ganhasse vida. A pandemia mostrou também o tanto que a gente precisa lutar por uma educação democrática e igualitária. Não tenho dados de alunos que ficaram fora do período escolar na pandemia, mas temos o lema de não deixar ninguém para trás.

O que representa esta premiação?

O Prêmio Destaque Educação 2020 é uma premiação que integra o evento Educa Week, um congresso nacional que ocorre anualmente e reúne uma série de painéis para debater a educação brasileira. Neste ano, a iniciativa destacou ações realizadas no ensino remoto, para enaltecer o trabalho que vem sendo realizado por educadores das redes pública e privada do Brasil. Eu estava desenvolvendo o projeto “Coronavirus Around the World” ao longo das aulas de Língua Inglesa lecionadas com suas turmas do 1º ao 5º ano da Escola Municipal Celia Leonor Lopes Lunardini, em Guararema.

Como foi esse projeto?

Eles assistiram primeiramente a uma videoaula em que apresentei o tema e fizeram um exercício de fixação. No segundo passo, fiz uma história e desenvolvi um livrinho, diagramei tudo, eles leram e responderam a um quiz. Depois dessa etapa, eles fizeram um desenho com uma mensagem positiva com o que aprenderam com a atividade elaborada. Em seguida, fizemos uma campanha em que eles divulgaram os sintomas, as recomendações de higiene do novo coronavírus, além do que fazer quando voltar às aulas: lavar as mãos e usar álcool em gel. Para isso, eles simularam as ações e colocaram em prática. Esses vídeos foram compartilhados entre as turmas para promover essa conscientização. Em seguida, fizemos cartazes com a mensagem “It’s gonna be okay”, de que vai ficar tudo bem. Entrei em contato com as famílias e convidei para fazerem o trabalho e gravamos um vídeo com uma letra que tem este tema da campanha, é uma versão cantada por The Pianos Guys.

E as etapas do concurso?

São três fases: a primeira foi a aprovação pela comissão. Em seguida eles pediram para fazer um vídeo de apresentação de dois minutos, publicaram na página oficinal e você teria de fazer uma campanha de publicação. Os 10 vídeos mais curtidos dos que estavam ali iriam para a final. Foi uma campanha com a família, teve mais de 4 mil visualizações. Falo que foi uma vitória colaborativa. Cheguei à final da minha categoria, teve uma avaliação da comissão reguladora e o meu foi o escolhido. Ganhei um curso do projeto inovador, que é do Instituto de Tecnologia. Boa parte dos patrocinadores é internacional e voltada à inovação e tecnologia. Percebi que os projetos que ganharam tinham a questão tecnológica envolvida. O curso foi elaborado com base em fundamentos de Harvard e da Finlândia. Nós seremos a primeira turma no Brasil. Ao concluir, vamos ganhar a certificação de digital teacher. Se eu implantar as ideias que colocarem durante a especialização, em um ano e meio, a escola também ganha um reconhecimento.


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