SUPERAÇÃO

Mogiano com autismo produz curta-metragem com dinossauros para contar sua vida

O com apoio da família e da professora, garoto com Transtorno do espectro autista vence barreiras e supera dificuldades. (Foto: Henrique Campos)
O com apoio da família e da professora, garoto com Transtorno do espectro autista vence barreiras e supera dificuldades. (Foto: Henrique Campos)

Um curta-metragem de pouco mais de seis minutos, com uma produção modesta e dinossauros de plástico como os atores principais. Um cenário aparentemente simples, mas que foi transformador na vida de um estudante diagnosticado com o Transtorno do Espectro do Autista (TEA). O mogiano Vinicius dos Santos Melo, com seus recém-completados 15 anos, conheceu a professora Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol no ano passado. Foi ela quem o incentivou e o ajudou na produção de “Vini: o Pequeno, Grande Dino Azul”, que conta a história de vida do garoto.

Logo no início do vídeo, disponibilizado no YouTube, entram em cena dois dinossauros já adultos que representam os pais de Vinicius: Léia e José Antônio Melo. Deles, nascem uma fêmea, a Bia, e o irmão Vini, um dinossauro azul, cor símbolo do autismo. A partir dali, são mostradas as peculiaridades e características do filhote.

Muitas das cenas passadas no pequeno filme foram vivenciadas nas dependências da Escola Estadual Antônio Mármora, onde o garoto concluiu o ensino fundamental, no final do ano passado. Foi lá que ele e a professora Maria de Lourdes, a Lourdinha, se conheceram. Até 2017, ela dava aulas de Educação Física e já tinha convivido com alguns alunos diagnosticados com o espectro. Por isso, estava decidida a continuar trabalhando, mas somente com os alunos autistas. É o que ela faz agora e foi assim que encontrou Vinicius.

“É muito importante que as pessoas entendam que cada aluno tem um perfil, sendo ele autista ou não. Cada um tem sua particularidade e nós precisamos entender isso. Com os autistas, nós precisamos trazer o mundo deles para dentro da escola, para que eles se sintam pertencidos ao ambiente, senão ficam sendo estranhos no ninho. Nós conseguimos fazer com que eles sigam regras e se enquadrem ali, mas é preciso ter paciência e cuidado”, afirmou a professora.

Vinicius gosta de seguir rotinas. Percebendo isso, Lourdinha tratou de organizar os materiais do menino. Separou os cadernos por disciplinas e criou um planner, um tipo de agenda personalizada, que eles encaparam com fotos de cachorros, uma das paixões do garoto. Lá, foram colocados recados e feito um calendário mensal para que ele pudesse se organizar.

Ao falar da professora, a mãe do garoto tem uma definição: um anjo. Ela lembra que foi graças à Lourdinha que eles conseguiram um laudo para comprovar o transtorno genético. Aos 3 anos de idade Vinicius entrou na escola. Foi quando a mãe começou a perceber algumas diferenças no menino, que não tinha uma boa dicção, ao tentar falar. Por não ser compreendido, começou a ficar agressivo e a ser deixado de lado durante as aulas. Por isso, a mãe o trocou de escola, indo para a rede particular.

Foi na nova escola que as dificuldades dele passaram a ser trabalhadas e Léia buscou a ajuda de uma fonoaudióloga. Juntas, perceberam o indício do autismo. O laudo, entretanto, só veio no ano passado com a ajuda de Maria de Lourdes, que é vice-presidente da ONG Grupo Fazer o Bem, e conseguiu desta forma auxiliar a família.

Hoje, Vinicius é um apaixonado. Não apenas pelos dinossauros, que por isso foram escolhidos para o curta, mas também pela natureza, pelos animais e pelo futebol. Graças à produção do vídeo desenvolveu ainda mais um gosto: o da fotografia. Ele fez grande parte das imagens que integravam o filme e agora tira foto de tudo o que pode. A mãe pretende matriculá-lo num curso de fotografia, mas a vontade poderá ser concretizada apenas no ano que vem, depois que ele completar 16 anos.

Para cuidar do filho, Léia deixou o emprego para que as atenções fossem todas voltadas a ele. Para ela, é um prazer estar sempre na companhia do garoto. “Ele é uma criança muito carinhosa, muito expressiva e que tem uma vontade imensa de viver. O Vinicius nunca fica de mau humor e acredita muito no próprio potencial. Se tem algo que ele não sabe fazer, ele sempre diz que vai conseguir. Ele é realmente muito apaixonante”, conclui.

Estímulos ajudam a desenvolver habilidades
“Um transtorno genético em que existe uma deficiência no desenvolvimento de três áreas: comunicação, sociabilidade e o comportamento”. É assim que o psiquiatra Leonardo Maranhão define o Transtorno do Espectro do Autista (TEA). Autor do livro “A vida com… autismo” ele explica que a suspeita diagnóstica acontece geralmente entre os 12 e 18 meses de vida da criança.

Entre os sintomas que podem ser percebidos durante esse período, ele destaca o atraso na aquisição da fala, com uma dificuldade na linguagem e comunicação, uma diferença na interação da criança com o ambiente, o não atendimento ao ser chamada pelo nome, uma agitação maior que o usual, maior irritação e a falta de medo do perigo.

“Esses sintomas ditos são característicos, mas existem mais de 100 sintomas acessórios que perfazem uma infinidade de combinações, fazendo com que cada caso tenha sua particularidade e uma apresentação clínica distinta”, disse Maranhão.

Muitas vezes esses sinais são perceptíveis no início da vida escolar do autista, quando os professores percebem a dificuldade em realizar as atividades e compartilhar brincadeiras. A partir do diagnóstico, se faz necessário o encaminhamento a uma equipe multiprofissionais, que conte com a presença de fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e um psicólogo que trabalhe com o método ABA.

Maranhão ressalta ainda que é importante que a confirmação do transtorno aconteça até os 3 anos de idade, para que a criança logo comece a ser estimulada. Isso porque o quanto antes isso acontecer de maneira correta, maiores são as chances da criança se desenvolver.

Além deste acompanhamento profissional, o psiquiatra destaca a importância da execução de outras funções. “Ao fazer várias atividades e várias terapias a criança passa a ser estimulada a desenvolver habilidades em ambientes diferentes e de formas diferentes, com contato humano, com animais assim como contatos com outras crianças, isso é extremamente importante para eles”, frisou.