RELATOS

Mogianos pelo mundo na pandemia: Fernanda Alves em Melbourne

Mogiana que vive nos EUA pretendia fazer uma reedição do Projeto N. (Foto: Divulgação)
Mogiana que vive nos EUA pretendia fazer uma reedição do Projeto N. (Foto: Divulgação)

Meados deste mês, a mogiana Fernanda Alves, na paradisíaca Melbourne Beach, na Flórida, previu o que se revelou como dura realidade. “Em poucos dias, serão mais de 50 mil mortes, e muitas pessoas não estão se protegendo”. Os Estados Unidos já sepultou mais milhares de pessoas e se tornou líder mundial do número de mortos e de pacientes que contraíram a Covid-19.

Filha do dentista e presidente do Clube Náutico Mogiano durante décadas, Carlos Augusto Alves, o Carlito (1925-2013), Fer Alves, vive há mais de 30 anos nos Estados Unidos. Trabalha com festas, eventos e shows. Está em casa desde março, ao lados dos três filhos, e planejava comemorar o aniversário com os amigos, neste ano, em Mogi das Cruzes. Seria uma reedição do Projeto N, nome de uma série de festas realizadas no Clube Náutico na década de 1980 que marcou era na noite mogiana.

“Não terei como ir, e isso me dói”, disse, em uma conversa sobre o isolamento social, o embate entre a ciência e as fake news, além da crise de saúde e econômica que desempregou milhares de brasileiros que vivem na potência mundial que se dobrou ao coronavírus. Ela acompanha a polarização de opiniões nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump só não faz mais “loucuras”, como descreve, porque esse é um ano eleitoral. Fer Alves é a entrevistada de O Diário na série que mostra como mogianos que residem em outros países estão vivendo esse período da história humana, marcado pela pandemia:

Há quanto tempo você mora na Flórida?

Estou há dois anos e meio em Melbourne Beach, a trinta minutos da Nasa, mas vivo nos Estados Unidos desde 1989.

E você está no isolamento social?

Sim, tive câncer e o meu filho integra o grupo de risco. Então, estamos em casa, e acompanhando toda essa loucura. Aqui, sigo as notícias da Brasil USA Suncoast, que é minha amiga, e o Departamento de Saúde também divulga muito sobre a doença. Na Flórida, os casos começaram bem tranquilo, no início, mas como temos várias companhias de avião, inclusive, uma delas é a Embraer, recebemos pessoas de muitos países e lugares mesmo daqui mesmo, dos Estados Unidos, por isso o número de casos aumentaram muito.

Você perdeu conhecidos nessa pandemia?

Sim, infelizmente sim, perdi algumas pessoas que conhecia e de maneira bem traumática porque a morte pelo vírus é muito rápida e triste, solitária. Fiquei sabendo que uma amiga estava com a doença, apenas depois de quatro dias que ela estava internada. Falei com ela, antes da internação. Ela faleceu, deixou dois filhos, e o marido permaneceu isolado com o coronavírus. Foi enterrada de caixão lacrado e sem velório.

O que mudou na sua rotina?

Minha rotina não mudou muito porque moramos em lugar bem pacato. Depois das oito horas da noite, não tem muita coisa para fazer, porém, nós sentimos muita falta de ir à praia já que vivemos no litoral, e a suspensão do trabalho é outra preocupação. Uma coisa que mudou foi a rotina dos crocodilos, muito comuns por aqui e que, agora, estão saindo à noite…

Muito se falou, no início da pandemia, da demora do presidente Donald Trump em reagir à pandemia, com medidas preventivas. Como isso repercutiu entre os americanos?

Eu acho que ele demorou muito para tomar medidas de isolamento mesmo porque o doutor Anthony Fauci (médico imunologista reconhecido pelas pesquisas conduzidas por ele sobre a Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) e chefe do Departamento Nacional de Doenças Infectocontagiosas) comentou nacionalmente que o governo federal já tinha conhecimento do vírus desde dos meados de janeiro, ou seja, houve uma demora considerável. E isso, como estamos em uma época de eleições, caiu como uma bomba entre os republicanos. Mas, nesse sentido, estamos longe de ser como no Brasil que trata partidos como torcida de futebol e aqui o eleitor não é obrigado a votar.

E o desemprego? Os brasileiros estão sendo afetados?

Muito, porque muitas pessoas foram demitidas e agora tiveram acesso ao auxílio federal. A liberação desse recurso foi uma super briga no Congresso. O cheque que será pago, aqui, é chamado de reliefs package, e foi criado por causa da crise causada no coronavírus. Bem, depois de várias semanas foi feito um acordo e o benefício foi liberado para ajudar a população. Eu, particularmente, não concordo com a divisão do dinheiro que beneficia mais as empresas grandes, mas não temos muito que fazer.

Como é a quarentena?

A ordem de home order somente veio somente no final de março, também depois de uma declaração polêmica feira pelo presidente Trump de que tudo voltaria ao normal até a Páscoa, o que não aconteceu, evidentemente. E, como a decisão sobre o isolamento social, veio muito tarde, e as pessoas não respeitaram muito, isso fez com que mais pessoas se infectassem. O preço foi alto demais, como ocorreu em Nova Iorque, que tem o maior número de casos entre as cidades do mundo.

Como é a estrutura para o atendimento aos pacientes?

Em termos de organização, um ponto positivo é que os Estados Unidos têm uma situação econômica muito melhor do que a maioria dos países. Então, os governos logo se prontificaram a comprar materiais para os hospitais, principalmente ventiladores. E mesmo assim houve problemas, porque muitos hospitais não tinham como atender tantos casos ao mesmo tempo, além da falta dos recursos materiais, ainda houve um outro problema, com profissionais que não tinham o conhecimento para um tratamento tão específico como ‘entubar’ um paciente para salvar a vida por causa da falta de respiração. Muitos enfermeiros estão reclamando da situação porque também têm medo de se infectar.

Os Estados Unidos estão testando muitos pacientes.

Sim, mas veja, aqui foram feitos, no início, quase 7 mil mil testes diários por um milhão de habitantes, diferente no Brasil, algumas semanas atrás, quando se falava em 300 testes a cada um milhão. Mas, mesmo assim, a quantidade aqui também é pequena porque a procura por testes é mundial.

Como será o mundo após a pandemia?

Não tem como sermos os mesmos. O medo será frequente. Sabemos todos, e agora de verdade, que não somos nada. Como somos tão frágeis diante de um vírus cruel? Acho que teremos de nos reinventar, achar uma maneira de mudar o futuro para que momentos como esse nunca mais aconteçam, no sentido de proteger planeta, os sistemas de saúde, etc. Por outro lado, a natureza está agradecendo, e nossos filhos também porque tivemos tempos, finalmente, para cuidar da família, para repensar valores.

Os benefícios governamentais estão funcionando?

É o seguinte nem todos foram testados e mesmo a ajuda financeira, que é o grande problema, não chegou rapidamente, ao contrário das contas. Uma lei garante que ninguém poderá se despejado por 40 dias e que a luz e nem de água por esses meses poderão ser cortadas. Mas, uma hora, essa conta vai chegar. O recurso federal foi liberado para quem declarou ao governo até US$ 75 mil, nesse caso, o valor é de U$ 1,2 mil para cada pessoa, e o dobro, no caso de um casal. Alguns sindicatos, também liberaram recursos, de US$ 500. Mas, tudo isso está marcado pela demora na entrega dos recursos. E ainda há uma realidade: o sistema para atender os desempregados estava quebrado, antes da pandemia.

Há pessoas passando necessidade?

Sim, temos aqui mais de 12 instituições que distribuem comida em várias cidades, porém, leva-se dias para entrar no aplicativo porque muita gente estava acessando ao mesmo tempo.

Qual é o seu maior medo?

De perder alguém de nossa família. E há muitas pessoas que não tomam cuidado, não estão preocupadas com os outros. Pacientes de câncer, como eu, têm medo, e reprovam, claro, quem continua fazendo festa, como em outros países.

Você tem dois filhos menores, como eles estão?

Eles são muito conscientes. Não escondo nada deles, e, para falar verdade, são mais disciplinados que eu (risos). Não pedem para sair e não cobram nada. Também não gostam de fazer as aulas online, mas é necessário. Sobre ficar em casa, eu estou amando, porque eu trabalhava 72 horas por semana, e agora posso participar de brincadeiras, estamos cozinhando juntos. Eles são pacientes porque aprendemos muito com a dor. Aprendemos muito com o câncer. Sabemos se não cuidarmos. A vida nos leva em um fechar de olhos.


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